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David Hockney: "O stress é preocuparmo-nos com o futuro. A arte é agora".

As suas obras inspiram a Moda, o Cinema, a Cultura. Aos 83 anos, David Hockney viveu um confinamento bastante produtivo, numa quinta na Normandia. Por altura do lançamento de um novo livro e de uma exposição do seu trabalho, Martin Gayford fala com o artista.

David Hockney no Centro Pompidou em Paris, 2017
David Hockney no Centro Pompidou em Paris, 2017 Foto: Getty Images
04 de maio de 2021 | Martin Gayford

"Li nos jornais", contou-me David Hockney na primavera passada, "que os especialistas em longevidade dizem isto e aquilo (…)". Fez uma pausa, sentado a apanhar o sol da Normandia, e prosseguiu: "Especialistas em longevidade? Será que, aos 45 anos, é possível ser-se um especialista em longevidade? Não será preciso ter pelo menos 80 anos? Diria que sim".

Hockney estava no jardim de uma velha quinta em França, onde tem estado a viver nos últimos dois anos. Eu estava em casa, em Cambridge. Conversámos via FaceTime. No último livro que escrevemos juntos, intitulado A History of Pictures [Uma História das Imagens], Hockney disse que, no futuro, muitas pessoas poderiam acabar por viver num mundo virtual de imagens visuais. Mas nenhum de nós pensou que esse processo ocorresse tão rapidamente.

Subitamente, em consequência da pandemia, metade da população mundial estava a trabalhar e a conversar com os amigos e entes queridos por meio do Zoom ou de sistemas similares. Tal como milhões de outras pessoas, Hockney e eu habituámo-nos às nossas conversas online, habitualmente ao final da tarde, que acabaram por se traduzir num livro: Spring Cannot Be Cancelled [A Primavera não pode ser Cancelada].

O livro Spring Cannot Be Cancelled de David Hockney e Martin Gayford
O livro Spring Cannot Be Cancelled de David Hockney e Martin Gayford Foto: Thames & Hudson

As nossas conversas giravam em torno do que David tinha feito entretanto: a sua nova vida no campo, em França, onde começou a viver em março de 2019 e onde produziu uma impressionante quantidade de trabalhos maravilhosos – pinturas, desenhos a caneta e tinta, filmes de animação, desenhos feitos no iPad e muito mais. Alguns destes trabalhos, produzidos em inícios do ano passado, estarão em exibição na Royal Academy, em Londres, numa exposição em maio intitulada The Arrival of Spring, Normandy, 2020 [A chegada da primavera, Normandia, 2020].

David Hockney, No. 259, 24th April 2020 (iPad painting) presente na exposição
David Hockney, No. 259, 24th April 2020 (iPad painting) presente na exposição "David Hockney: The Arrival of Spring, Normandy, 2020" Foto: David Hockney/Royal Academy of Arts

As nossas conversas também versavam sobre muitos outros temas. Falávamos sobre música, jardins, livros, cores, a ondulação da água, Hans Christian Andersen e Richard Wagner, OJ Simpson e Arnold Schoenberg, Monet e Van Gogh, confinamento e assuntos da atualidade – se bem que não muito sobre estes últimos. "Estou farto de notícias", declarou Hockney, sem dúvida verbalizando o que muitos outros sentiam. "É tudo sobre o coronavírus e o Trump". Outro tema recorrente prendia-se com a passagem do tempo.

No dia em que falou sobre a longevidade, Hockney aproximava-se do seu 83.º aniversário, pelo que, por essa apreciação, estava plenamente qualificado para falar sobre como viver a velhice. Depois de uma baforada no cigarro e um gole na sua cerveja, prosseguiu a sua linha de pensamento.

"Acho que a longevidade é um subproduto de uma vida harmoniosa. O que torna uma vida harmoniosa difere de pessoa para pessoa, mas acho que tem de haver alguma harmonia na nossa vida se quisermos viver até tarde: temos de encontrar o nosso próprio ritmo".

O próprio modo de vida adotado por Hockney não se adequaria a muitas mais pessoas. Aquilo que ele quer fazer, o dia inteiro e todos os dias até lhe ser possível, é pintar a desenhar. Sempre foi assim. Jack Hazan, realizador do documentário ficcionado de 1973 intitulado A Bigger Splash [que é também o nome de um dos quadros de Hockney e que faz parte de uma série de três pinturas sobre mergulhos, sendo os outros dois A Little Splash e The Splash], chegou à conclusão que ele era "absolutamente produtivo enquanto pintor e era só isso que ele queria fazer. Se falássemos com ele, alguns minutos depois já estaria de volta ao seu estúdio para recomeçar a pintar". Esta descrição, quase meio século depois, ainda é totalmente fiel.

Hockney descobriu este seu retiro rural francês por acaso, pelo menos aparentemente. Ele e o seu assistente Jean-Pierre Gonçalves de Lima (conhecido como J-P) fizeram uma curta pausa para descansar, no outono de 2018, não muito depois de ter sido dado a conhecer o vitral projetado por Hockney na Abadia de Westminster.

O vitral
O vitral "The Queen's Window" criado pelo artista em 2018 para a Abadia de Westminster Foto: Getty Images

"Ficámos em Honfleur durante quatro noites e depois seguimos mais para sul, para Bagnolesde-l'Orne. A caminho de lá, eu disse ao J-P: ‘se calhar podia estar por aqui, na Normandia, quando chegasse a primavera’. Reparei que naquela zona havia muito mais floração. Por isso, sugeri que talvez devêssemos alugar uma casa ou algo do género".

"No dia seguinte, o J-P telefonou a alguns agentes imobiliários. Estávamos na viagem de regresso a Paris quando ele disse que podíamos ir ver uma casa que ficava em caminho, só uma. E foi só essa que vimos. Chamava-se La Grande Cour. Quando entrámos, vimos a casa de linhas desordenadas [em enxaimel – que é uma técnica de construção própria da zona e que consiste em paredes montadas com hastes de madeira encaixadas entre si em posições verticais, horizontais ou inclinadas, cujos espaços são geralmente preenchidos por pedras ou tijolos] e vimos uma casa na árvore. E eu disse: ‘Sim? Ok? Vamos comprá-la!"

Mas, tal como Sigmund Freud diria, não há coincidências. Por isso, decididamente que não foi por completo acaso que um artista que há muito admirava a pintura francesa e o modo gaulês de viver, comer e fumar, e que tinha um assistente francês, encontrou o local de descanso ideal na altura em que isso aconteceu. E foi na Normandia que Claude Monet pintou o seu jardim de Giverny – e Monet, acredita Hockney, viveu a vida perfeita para um artista.

A Bigger Splash, 1976
A Bigger Splash, 1976 Foto: David Hockney/Getty Images

Hockney, juntamente com J-P e o seu outro assistente, Jonathan Wilkinson – que é o seu assistente técnico –, e, é claro, com o seu pequeno cão, Ruby, estavam já alegremente instalados quando o visitei no verão de 2019. Tinham já sido criadas algumas rotinas. A título de exemplo, o almoço era sempre tomado num pequeno restaurante localizado na cidade mais próxima. ("Na verdade, é um café para homens de trabalho. Por 14 euros temos uma refeição com quatro pratos. Há tripas todos os dias. Costumo comer tripas à moda de Caen, que são tripas confecionadas com cidra seca [fermentado de maçã] e calvados [destilado de vinho de maçã], salsichas de tripas de porco [andouillette], enchidos de tripas; estou sempre a comer tripas)". 

Obviamente, os confinamentos interferiram com esses almoços. Mas, em muitos aspetos, a vida de Hockney não se alterou tanto como a da maioria das pessoas. Com efeito, antes do aparecimento do vírus, ele já tinha planeado confinar-se voluntariamente. A ideia era permanecer circunscrito às redondezas para ficar a conhecer cada vez melhor as árvores da zona e conhecer cada vez mais aqueles temas que já tinha desenhado e pintado tantas vezes antes. Em abril de 2020, Hockney estava a pintar uma média de mais de um quadro por dia.

David Hockney e Martin Gayford em conversa
David Hockney e Martin Gayford em conversa Foto: David Dawson

"Nem sequer faço uma sesta à tarde, porque recebo imensa energia do trabalho, imensa energia. Para onde quer que olhe, é tudo belíssimo!" A ausência de interrupções e visitantes no seu novo mundo confinado foi um bónus positivo.

Uma existência deste tipo não se adequaria a muitas outras pessoas (se é que a alguma). Mas, para Hockney, estar confinado a uma pequena zona de paisagem e ser deixado em paz para reproduzir aquilo que pode ser visto ali, e a partir dali, é uma vida perfeita. De facto, tal como diz muitas vezes, para ele é o paraíso.

"Na Bíblia, e noutros textos antigos, qualquer lugar importante é um jardim. Onde é que preferirias viver se não num jardim? Onde preferirias estar? Mesmo quando vivia em Los Angeles, estava sempre a desenhar o meu jardim". Mas depois acrescenta que a maioria das pessoas não se aperceberia do Jardim do Éden mesmo que estivesse a passear-se por lá. Passariam o tempo a olhar para o chão para terem a certeza que não tropeçavam nas raízes das árvores. O mundo é muito, muito bonito, mas temos de olhar com muita atenção, e de perto, para nos apercebermos dessa beleza.

David Hockney, No. 340, 21st May 2020 (iPad painting( presente na exposição
David Hockney, No. 340, 21st May 2020 (iPad painting( presente na exposição "David Hockney: The Arrival of Spring, Normandy, 2020" Foto: David Hockney/Royal Academy of Arts

Fazer precisamente isso é algo no qual a arte e os artistas se especializam.

Os pintores podem interessar-se pelos pormenores do quotidiano que praticamente todas as outras pessoas ignoram porque os consideram comuns e pouco relevantes, como as árvores, flores, rochas, piscinas, nuvens, loiça, móveis e objetos em vidro (que são, todos eles, temas das pinturas mais recentes de Hockney). Ele conhece paisagens que facilmente passariam despercebidas a muitos de nós.

No verão passado, Hockney descreveu-me uma das suas animações noturnas. "Na passada quinta-feira, tivemos um pôr-do-sol esplendoroso. Consegui perceber que ia ser bom porque havia muitas nuvens altas e céu aberto. Foi fantástico ver o céu a mudar! Foi o espetáculo mais fabuloso e luxuoso que já vi, a sério. Passou de cinzento-escuro e branco para laranja e vermelho, e durante todo esse tempo os tons de cinzento iam mudando. Foi absolutamente espetacular. Nenhum espetáculo superaria este. Eu disse que era um luxo podermos ver algo assim!"

David Hockney, No. 370, 2nd May 2020 (iPad painting) presente na exposição
David Hockney, No. 370, 2nd May 2020 (iPad painting) presente na exposição "David Hockney: The Arrival of Spring, Normandy, 2020" Foto: David Hockney/Royal Academy of Arts

Regressando ao tema da longevidade, a razão pela qual artistas como o herói de Hockney, que foi Picasso, conseguem viver muito tempo "tem a ver com o facto de, quando estamos a pintar, estarmos tão envolvidos que conseguimos sair de nós mesmos", disse-me. "O que é o stress?", pergunta-me. "É preocuparmo-nos com uma coisa no futuro. E a arte é agora".

Hockney disserta um pouco e diz que há algumas vantagens na idade avançada. "Apercebemo-nos mais das coisas a cada ano que passa; isso está a acontecer-me. Posso sair e observar mais de perto para as coisas, como a floração. Colhi um ramo e trouxe-o para casa para desenhar uma natureza morta. Não durou muito. Tive de o desenhar em cerca de quatro ou cinco horas. Começa a murchar quando o trazes para casa e o poisas sobre uma folha de papel. É transitório, mas a maioria das coisas também o é".

Martin Gayford/The Times/Atlântico Press

Tradução: Carla Pedro

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