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Loucura das cripto: a minha tentativa de me tornar um multimilionário da bitcoin

A mais recente loucura de fazer dinheiro está em negociar criptomoedas. Quão difícil pode ser? Matt Rudd entra a bordo da montanha-russa.

Foto: Tima Miroshnichenko / Pexels
02 de julho de 2021 | Matt Rudd / Times

Se você ou eu tivéssemos comprado 100 libras em bitcoins há 10 anos, agora teríamos dois milhões de libras e mais uns trocos no criptobanco. Se tivéssemos comprado um ano antes disso, quando uma bitcoin custava "basicamente nada", estaríamos bem lançados a caminho de sermos multimilionários. Uma série de caracteres digitais sem qualquer valor intrínseco que custavam cinco milésimos de um penny em 2010 estão, por esta altura, a valer para cima de 23.000 libras por bit. Em 2013, um homem mandou para o lixo o disco rígido de um computador portátil que continha 7.500 bitcoins. Se ao menos o pobre indivíduo o tivesse atirado para o sótão, hoje valeria 183 milhões de libras.

A viagem na montanha russa que é a critpomoeda é absurda, mas também é friamente lógica. Quantas mais pessoas desejam uma coisa, maior o valor que pode ser atribuído a essa coisa. É a lei da oferta e da procura – a mais velha regra do manual de economia e a única maneira para explicar Jack Vettriano (pintor escocês de grande sucesso). Mas quando todos querem uma coisa só porque algumas pessoas na plataforma Reddit dizem que a querem, é aí que se regista o tipo de oscilações de preço que faria corar um ministro das Finanças na Venezuela.

Nem eu nem você comprámos 100 libras em bitcoins há 11 anos e acabámos por perder uma boa oportunidade. Perdemos a possibilidade de atirar 183 milhões de libras para um caixote do lixo, de nunca mais termos de trabalhar, de vivermos os nossos anos na qualidade de sofisticados donos de criptos dentro do nosso próprio vulcão extinto.

Ao contrário de si, eu tentei colmatar esta lacuna. Há algumas semanas comprei 100 libras de criptomoeda e isso foi o início de uma viagem em que nunca devia ter embarcado. Apesar de horas e horas de investigação, continuo sem perceber verdadeiramente a blockchain*. Sei que estamos a falar de transações descentralizadas entre pares [peer-to-peer], uma forma de as pessoas pedirem emprestado, emprestarem e gastarem sem usarem os tradicionais bancos ou dinheiro – um viva a revolução, uma vaia à Threadneedle Street [rua onde está sediado o Banco de Inglaterra] e tudo isso. Mas a ideia de que qualquer ex-funcionário da Microsoft, Google ou Apple pode simplesmente inventar a sua própria moeda digital e depois convencer outras pessoas a comprá-la é desconcertante.

Em maio passado havia mais de 4.000 criptomoedas, cada uma delas com o seu próprio pequeno clube de fãs a prometer mundos e fundos. É tudo muito "nova caixa registadora do imperador" [nova maneira de fazer dinheiro com algo não palpável, como o fizeram os dois impostores que se fizeram passar por alfaiates na história ‘O rei vai nu’ – ‘As roupas novas do imperador’, numa tradução à letra do título original –, de Hans Christian Andersen].

Nesta história, o acrónimo mais importante que vai ouvir é fomo (fear of missing out – medo de ficar de fora). Pelo caminho haverá hashtags para outros acrónimos, como #ttm (to the moon – até à lua) ou #hodl (hold on for dear life – guarda-me, pela minha rica vida), mas desde que o primeiro habitante da cave de casa dos pais anunciou que os seus 100 dólares se tinham magicamente transformado num milhão, o fomo é a única maneira de explicar o que está a acontecer este ano.

Tudo começou com meia dúzia de maníacos anónimos em finais da década de 2000 e depois propagou-se a um grupo um pouco maior de jogadores – mas está agora a emergir um novo grupo demográfico de especuladores de criptos. Nos últimos dois anos, o número de carteiras digitais praticamente duplicou para 70 milhões a nível mundial e, a avaliar pelo número de vezes que o tema surge nos meus círculos sociais, a maior parte dos cerca de 30 milhões adicionais são pais de meia idade que vivem na zona de Kent. Eles estão todos nisto, os maluquinhos do fomo, a trocarem mensagens de Whatsapp uns com os outros sobre amortizarem o crédito à habitação, colocarem os filhos na universidade e reformarem-se aos 57 anos e não aos 77. E foi isso que me atraiu.

Há algumas semanas, um amigo meu apareceu para almoçar – durante a fase dois do plano de desconfinamento – e, claramente, algo se passava com ele. Estava constantemente a verificar o telemóvel – foi como se estivesse a almoçar com um adolescente. Achei que se devia aos meses de isolamento social mas ele acabou por admitir que tinha "investido" 10.000 libras na ethereum, a segunda maior criptomoeda depois da bitcoin. Quando o investimento deu retorno, decidiu diversificar a aposta noutras criptomoedas para "repartir o risco". O seu desembolso total era agora de 25.000 libras, explicou, com os músculos mandibulares tensos. Ao início do almoço, o seu investimento valia 31.000 libras. Quando estávamos já a tomar o café, valia mais de 34.000 libras. Ele tinha ganho 3.000 libras só naquele bocadinho ali sentado. Eu também queria ganhar 3.000 libras sem fazer nada.

Criei a minha carteira digital em abril. Isto implicou introduzir alguns detalhes, fazer uma captura de ecrã da minha carta de condução e transferir as minhas 100 libras de dinheiro real, a partir de um banco real, para uma aplicação. O banco real não ficou muito satisfeito com isto. Reagiu muito ao estilo de uma esposa a quem perguntam o que se poderá oferecer a uma namorada no seu aniversário… os alertas disparam.

Eu tinha a certeza de que os detalhes estavam corretos? Tinha consciência dos riscos? Tinha percebido que o primo em segundo grau do rei da Nigéria não estava minimamente interessado no que era melhor para mim? Sim, sim. Por favor, deem seguimento.

Recebi de imediato uma mensagem de pânico que dizia: "Por favor, telefone-nos já". Liguei e uma senhora do departamento:"oh não, mais um idiota das criptomoedas" fez-me perguntas mais específicas. Eu tinha a certeza de que não estava a ser ludibriado? Não, não tinha a certeza, respondi eu, em tom de brincadeira. Lá fora é uma selva, gracejei. Isto não soou bem. Ela fez-me mais uma série de perguntas e ainda nos rimos a propósito de as criptomoedas estarem a minar todo o setor da banca – e depois, ainda relutante, lá concordou em deixar-me "deitar dinheiro fora".

O dinheiro saiu da minha antiquada conta bancária. Quatro horas depois, ainda não tinha entrado na minha moderna criptocarteira. Perguntei ao meu amigo – cujo investimento já estava a valer 39.000 libras – quanto tempo é que a transferência dele tinha demorado. Alguns minutos, disse ele, acrescentando solicitamente que um outro pai da zona de Kent (eu bem vos disse) se tinha enganado a digitar e com isso tinha perdido uma ethereum (que na altura valia 2.850 libras) para sempre. Então esta ia ser uma história curta. Um homem tenta comprar criptomoeda. O homem engana-se a digitar. Fim.

Isso teria sido melhor do que aquilo que de facto aconteceu. Um dia e algumas horas mais tarde, o dinheiro entrou na criptocarteira, com um pedido de desculpas pelo atraso – mas é que tinham registado uma "procura sem precedentes". Ok, sem problema. Eu estava preparado para começar a ganhar milhões.

Começa com a ethereum, disse-me um pai da zona de Sussex (sim, esses também estão lá todos). É uma coisa em grande, é seguro e vai continuar a valorizar até setembro, comentou. Há que acrescentar que este meu amigo é economista. Ele passa as horas em que está acordado a prestar aconselhamento financeiro a países em desenvolvimento. Dois anos depois de ter concluído os estudos universitários, ele compôs todo um orçamento nacional. É um tipo inteligente. Mas também já o vi tentar tirar uma nódoa de vinho da carpete com as calças que estava a usar e certa vez decidiu enganar um assaltante em Amesterdão fingindo que éramos russos. "Vocês não são russos, pois não?", disse o larápio. Tendo isto em conta, ignorei o conselho que me deu. Uma ethereum custava 400 libras em dezembro. Agora vale 3.000 livras. Perdi a oportunidade.

Entre as 200 – 200! – criptomoedas disponíveis na minha nova aplicação não aprovada pelo banco, 192 delas tinham pelo menos quadruplicado de valor ao longo dos quatro meses anteriores. Muitas delas tinham passado a valer 10 vezes mais e a veThor era uma delas. Em meados de janeiro, uma veThor custava 0,0005 pence. Em meados de março custava 0,015 pence. Um aumento de 30 vezes em oito semanas. Oito semanas! Mas em finais de abril tinha afundado em torno de 33% e custava uma bagatela: 0.01 pence por token**.

O que corria na rua, e por rua refiro-me à sala de conversação da Reddit, era que a veThor iria até à lua – #ttm. Eu queria ir #ttm – quem não quer? –, por isso deveria #btd (buy the dip – comprar quando está em queda). Atingiria um dólar por altura do natal, diziam, pelo que, meia hora depois de tentar perceber o que a veThor era ou fazia de facto, acabei por comprar 10.000 veThors.

Isto foi num domingo. Na terça-feira, as minhas 100 libras tinham crescido como cogumelos e valiam 160 libras. Imagine-se se eu tivesse investido 10.000 libras. Imagine-se se eu tivesse feito uma nova hipoteca sobre a casa e tivesse investido 100.000 libras. A senhora do banco não teria ficado nada contente, mas eu teria embolsado 60.000 libras em quatro dias. Porque é que não o fiz?

"Tens jeito para isto", disse-me o amigo que limpou a nódoa de vinho com as calças. Por isso, duas semanas mais tarde, e depois de já ter recebido o meu salário, transferi mais 300 libras do meu dinheiro real. "É o limite", declarou Harriet, que tinha acompanhado o meu percurso quando descobri os casinos online. Mas isto é diferente, expliquei-lhe. Eu tinha jeito para aquilo.

Desta vez, o meu olhar experiente deteve-se na harmony. No seu website, a harmony diz ser uma blockchain rápida e de código aberto e que "a sua mainnet [rede principal] consegue correr aplicações da ethereum com uma finalidade de transação de dois segundos e com comissões 100 vezes mais baixas". Uma finalidade de transação de dois segundos! [a velocidade e finalidade de transação no processo de cunhagem de tokens não fungíveis (NFT) é muito importante]. Como se isso não bastasse, as suas "pontes seguras permitem transferências de ativos entre diferentes blockchains. Ativos de diferentes blockchains! E o indivíduo que gere o website pode parecer um adolescente mas é doutorado em protocolos de segurança e em verificação de compiladores pela Universidade da Pensilvânia, o que provavelmente é relevante.

Mas o verdadeiro gatilho estava no facto de um token harmony custar 10 pence e todos na rua – e por rua refiro-me a uma outra página da Reditt – dizerem que também iria #ttm. Comprei 1.000 tokens harmony, mais 6.000 veThors e, por mero capricho, 2.000 CELR [token criado na rede ethereum], seja lá o que isso for.

Na manhã seguinte, as minhas 400 libras tinham-se convertido em 630 libras e não me sentia tão satisfeito desde que tinha encontrado uma nota de 10 libras nas minhas calças que iam para lavar. Num inebriamento financeiro, transferi mais 1.000 libras e reparti-as entre a ethereum, por segurança, e a shiba inu [que tem este nome pelo facto de a sua imagem ser a de um cão desta raça japonesa, tal como acontece com a moeda rival dogecoin (também chamada apenas de ‘doge’)] só para testar. Altamente atento às oscilações de mercado, sentia uma vibração muito boa em relação à shiba inu. Algumas pessoas diziam que iria ser a próxima dogecoin. Já ouviu falar na dogecoin, certo? É aquela moeda meme [tudo aquilo que viraliza, alcançando rapidamente uma grande popularidade] criada por piada por dois engenheiros de software que quiseram mostrar o quão ridícula poderia ser a especulação em criptomoeda.

Imagino que fosse preciso estar nessa aposta. De qualquer das formas, a dogecoin, criada por brincadeira, é agora a sexta maior criptomoeda. Acumula uma valorização de 7.000% desde o início do ano, o que é infinitamente do que o bónus percentual da minha conta-poupança no banco onde trabalha a tal senhora cética. Porquê? Como? Ninguém sabe. Mas Elon Musk publica muitos tweets sobre a dogecoin. E o Snoop Dogg continua a criar letras rap sobre esta moeda digital. E um dia, em abril, o volume negociado de doge chegou aos 70 mil milhões de dólares. É neste ponto que estamos enquanto civilização.

Não sejamos taciturnos. O que acontece é que a doge já estava bem lançada a caminho da lua quando comecei a investir, mas a shiba inu ainda não tinha disparado. Esta suposta "destruidora da dogecoin" foi criada no verão passado por um tipo anónimo que quis gozar com os tipos que gozavam com as criptomoedas. Uma vez mais, era preciso estar nessa aposta.

Os tokens shiba inu não têm qualquer utilidade óbvia e não estão endossados a quaisquer tokens ou direitos. Mas naquela manhã tive a possibilidade de comprar quase 100 milhões de shiba inus por 500 libras. Nunca tinha tido 100 milhões de nada. Fiz as contas. Se no natal um token custasse 0, 00008 pence em vez de 0,0000008 pence, ganharia 50.000. Se valesse 0,08 pence – e que continuaria ainda a ser, penso que concordam, uma pechincha – eu poderia reformar-me. No arquipélago das ilhas Turcas e Caicos. Nas minhas próprias ilhas Turcas e Caicos.

Nos dias seguintes, a minha carteira de moedas digirais foi valorizando e desvalorizando ligeiramente – 20% aqui, 30% acolá. O tipo de movimentos que teria levado um típico gestor de fundos a fazer uma festa ou a atirar-se do cimo de um prédio, mas na terra das criptomoedas isto significa estabilidade. E foi então que, no sábado, as minhas notificações começaram a reproduzir-se a um ritmo alucinante. Tudo – exceto a sensível e entediante ethereum – estava a valorizar. O saldo da minha carteira digital estava a ser atualizado a cada poucos minutos: 2.100 libras; 2.430 libras; 3.145 libras. A shiba inu não era brincadeira. Bem, até era, mas alguns outros pais de Kent estavam caidinhos por ela. Não me falem em pirâmide. Não me falem em esquema Ponzi. Era #ttming! [hora de ir à lua!].

No final do ano passado havia 25.000 criptomilionários. Na altura em que comecei a investir, esse número tinha, alegadamente, quadruplicado. No último ano, o mundo foi abençoado com 11 novos criptomultimilionários, sendo que a maioria deles eram criadores de criptomoedas. Satoshi Nakamoto, o misterioso grande senhor de toda esta loucura, a pessoa que criou a bitcoin e que poderá ou não viver nos arredores de Sidney, é hoje uma das 25 pessoas mais ricas do planeta.

Mas não são estas pessoas que realmente me impressionam. São os miúdos. Como Erik Finman, de 22 anos, que já era milionário aos 18 anos – depois de investir em bitcoins, aos 12 anos, um cheque de 1.000 dólares oferecido pela sua avó. Ou como Cooper Turley, que começou a investir na ethereum há quatro anos, enquanto estudava música no Colorado. Tem agora 25 anos e nunca mais vai ter de trabalhar.

Houve pessoas que venderam bitcoins com lucros de 1.000% em 2014. E em 2017. E no mês passado. Era disso que eu estava à espera naquele dia. Iria até à lua e não importava que fosse inimaginável que a CELR ou a veThor ou a harmony pudessem continuar a valorizar depois de já terem subido tanto. Há 70 milhões de pessoas que investiram, até agora, neste mundo críptico. Os "peritos" acham que irão continuar a aumentar exponencialmente. Desde que houvesse pessoas suficientes a chegarem depois de mim, extasiadas e a quererem libertar-se do peso das hipotecas, tudo era possível. Já vos disse para não me falarem em esquema piramidal.

Mas, no domingo à noite, depois de um copo de vinho e mais 500 libras investidas – que raio! – na holo e na ripple, o meu investimento de 2.600 libras valia perto de 4.500 libras. E a grande estrela de todas era a falsa moeda de piada sobre piadas, a shiba inu. E continuo sem saber verdadeiramente o que é um meme.

São 3 da manhã – hora do segundo xixi – e reparo que o meu telemóvel continua a iluminar-se repetidamente. Dou uma olhada e de imediato desejo não o ter feito. Tudo a cair. A cair. A cair. Perto de 5.000 libras tinham diminuído para cerca de 4.000 libras numas poucas horas noturnas. As coisas são mesmo assim, penso, que até tenho jeito para isto. A bolha está a estoirar. A hasgtag #hodl domina no Twitter americano porque há um estranho e exasperante aspeto, quase como numa seita, em tudo isto… se você vende, não está a ser leal à causa, qualquer que seja a causa. Temos de a guardar, pela nossa rica vida.

No espaço de tempo que demoro a esvaziar a bexiga, a minha conta emagrece mais 200 libras – e não tinha a bexiga propriamente muito cheia. Respiro fundo e começo a vender como um histérico investidor novato de Wall Street numa segunda-feira negra de 1987 [alusão ao crash bolsista de 19 de outubro desse ano]. Em apenas três minutos consegui que o meu criptodinheiro se convertesse em dinheiro real. Ao terceiro xixi da noite, às 5 da manhã (eu sei, preciso de fazer um check-up), o meu telemóvel começa de novo a agitar-se. Tudo a subir. A subir. A subir. Por isso, compro de volta os mil milhões de shibas e o meu décimo de uma ether. Compro doge e venus. Parece distorcido, mas às 7h da manhã estou de volta ao ponto onde comecei. Ou pelo menos foi isso que eu disse à Harriet, porque no fim de semana seguinte aconteceu novamente o mesmo. Subida até à lua no domingo. Queda até à casota do cão na segunda-feira. Só que desta vez dormi toda a noite.

"O meu novo plano é resgatar todos os lucros", diz-me o meu amigo economista, que também ainda está na fila para se tornar um criptomilionário. Este, psicologicamente, foi até agora o seu pior conselho. Vendi os meus ziliões de shibas com uma mais-valia de 20% e depois fiquei a ver a moeda a continuar a valorizar. Não até à lua. Nem sequer o suficiente para uma permanência duradoura no aeroporto de Gatwick. Mas a única coisa pior do que perder dinheiro é não ganhar dinheiro. Fomo, lembrem-se.

Há questões mais vastas em torno de tudo isto. Como irá o sistema financeiro global funcionar se biliões de libras desse sistema desapareceram como que por artes mágicas, tendo sido canalizados para a indetetável ether? Como funcionarão os impostos? E a concessão de crédito? Como é que explico à minha mulher que o dinheiro poupado para as férias do próximo ano só dá, uma vez mais, para ir acampar no País de Gales?

Podemos ter desconfianças em relação aos bancos centrais e à sua capacidade de se livrarem de problemas. Podemos sentir-nos enganados pela enorme disparidade entre os juros recebidos pelas poupanças e os juros pagos pelos empréstimos. Mas substituir o sistema por milhares de moedas digitais aleatórias que podem disparar e afundar em centenas de por cento com um simples tweet de Elon Musk ou uma publicação no Instagram do Snoop Dogg não é uma alternativa sensata. As minhas 2.600 libras valem agora 1.600; esperem, não… 1.500. Em apenas um mês, passaram de quase o dobro para metade. Afinal não tenho jeito para isto.

Devia reduzir as minhas perdas, agarrando no que ainda me resta para entregar à senhora no banco. Ela tinha razão, dir-lhe-ei enquanto ela reabre a minha conta-poupança com remuneração de 0,0001%. Mas gosto do som da criptomoeda aavegotchi. #ttfm [to the fucking moon].

O que são criptomoedas?

Criptomoedas são formas de dinheiro digital que não são reguladas por governos nem por bancos centrais. Cada "moeda" é um ficheiro digital encriptado, armazenado numa aplicação de carteira digital. As pessoas podem transferir uma moeda, ou parte de uma moeda, para a carteira digital de outra pessoa. Cada transação é gravada numa lista pública chamada blockchain.

A bitcoin, a primeira criptomoeda de relevo, foi lançada em 2009 e continua a ser a líder de mercado, com um valor total de 690 mil milhões de dólares. A ethereum segue em segundo lugar, com uma capitalização de mercado de 290 mil milhões de dólares.

O que é a mineração?

A mineração é o processo pelo qual as bitcoins e outras criptomoedas entram em circulação. Os mineradores de bitcoins gerem equipamentos computacionais bastante potentes para resolverem puzzles complexos, num esforço para confirmarem grupos de transações a que se dá o nome de blocos. Se forem bem sucedidos, esses blocos são inseridos no registo da blockchain e os mineradores são recompensados com um pequeno número de bitcoins. Até agora, foram minerados 18,5 milhões de bitcoins, de uma oferta total de 21 milhões.

À medida que se tornam mais escassas, o tempo (e energia) necessário para as minerar aumenta. A mineração de bitcoins requer tanta energia anual como a Holanda. Algumas criptomoedas não se alicerçam na sua escassez. A dogecoin foi criada como uma brincadeira em 2013 – e é quase uma réplica direta da bitcoin, mas é infinita e inflacionista. A sua capitalização de mercado ascende agora a cerca de 43 mil milhões de dólares.

* Blockchain", na tradução literal, é uma ‘corrente/cadeia de blocos’ que é actualizada sempre que se realiza uma nova transacção – e todos os sistemas ligados à rede têm acesso a essa rede, de forma a validar um item e impedir que ele seja vendido duas ou mais vezes. Esta tecnologia é, em suma, um sistema que permite a acumulação descentralizada de moedas, com uma série de chaves de segurança.

** Uma criptomoeda pode ser dividida em duas categorias: as que têm a sua própria rede de blockchain, como é o caso da bitcoin, e as que são construídas em cima de uma rede já existente. Estas últimas são os tokens. No fundo, todos os tokens são criptomoedas, mas nem todas as criptomoedas são tokens.

Créditos: Matt Rudd/The Times/Atlântico Press

Tradução: Carla Pedro

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