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Quatro dias no Monte do Hermínio

Burel deixou de ser apenas uma lã feita a partir das ovelhas da Serra da Estrela. É uma marca portuguesa de um casal que apostou na recuperação do património do Interior, onde mantém dois hotéis e uma fábrica.

Foto: José Campos
23 de junho de 2021 | Augusto Freitas de Sousa

João Tomás recorda as caminhadas que fez entre castelos na Beira, onde passava por caminhos antigos, muito antes de recuperar a Casa de São Lourenço na Serra da Estrela. O empresário adianta que no século XIV a paisagem era a mesma: "É absolutamente fascinante podermos viajar no tempo". Ainda hoje, nas Penhas Douradas, onde estão implantados os dois hotéis recuperados por Isabel Costa e João Tomás, a Casa das Penhas Douradas e a Casa de São Lourenço, se experimentam jornadas de outros tempos. São exemplos dessas memórias os chalets dispersos construídos no final do século XIX que serviam de casas de repouso e de recuperação de doentes. A própria Casa das Penhas Douradas foi um sanatório centenário edificado após o grande acontecimento que marcou a história da zona: a Expedição Científica à Serra da Estrela em 1881.

Penhas Douradas
Penhas Douradas Foto: José Campos

No dia 1 de agosto de 1881 saíram da Estação de Santa Apolónia em Lisboa um conjunto de cientistas, especialistas, médicos e pessoal de apoio que durante cerca de 15 dias percorreu a zona do Monte Herminio (antiga designação da Serra da Estrela). Uma expedição liderada por Martins Sarmento e pelo médico Sousa Martins, nessa altura um forte impulsionador da cura da tuberculose pela estadia em altitude. Desenharam mapas, recolheram amostras, observaram espécies, procuraram histórias, estreitaram relações com as gentes serranas e instalaram a primeira estação meteorológica nas Penhas Douradas. Foi, até aquela altura, a maior concentração multidisciplinar de cientistas em Portugal.

Casa de César Henriques

Dois anos mais tarde uma nova expedição foi conduzida por Sousa Martins, Carlos Tavares e Emídio Navarro, que foi ministro das Obras Públicas. Entre outras histórias contadas por Emídio Navarro no seu livro Quatro Dias na Serra da Estrela, recorda o encontro com o paciente de Sousa Martins, Alfredo César Henriques, com "phtysica" (tuberculose avançada), que tinha construído uma casa nas próprias rochas da montanha nas Penhas Douradas. Cobriu algumas pedras com cimento e areia, algumas paredes de granito e partes em madeira. Navarro descreve a casa como possuindo "sala de jantar, de entrada e de visitas, quarto para arrumações, despensa, gabinete de copa, cosinha com sua chaminé, alcova para dormir, espaçoso quarto para dormir com porta sobre varanda sobre o covão de Manteigas, um quarto para hóspedes com entrada independente, pombal, galinheiro e cavallariça". "Só a casa merece uma visita à serra", afiançava Emídio Navarro. O paciente, há dois anos na serra, o primeiro a ser tratado pelos benefícios da altitude, estava completamente recuperado.

Penhas Douradas
Penhas Douradas Foto: José Campos

Ainda hoje se pode ver a antiga casa troglodita bem perto da Casa das Penhas Douradas – Burel Expedition Hotel, também ela uma antiga unidade de tratamento da tuberculose, recuperada para um hotel em 2006, então com nove quartos, ampliada na sua capacidade em 2010 para o dobro dos alojamentos. O edifício, juntamente com a Casa de São Lourenço – Burel Panorama Hotel, também recuperada, fazem parte da Burel Mountain Hotels. Os dois hotéis e a Burel Factory – as antigas confeções Aliança em Manteigas –, duas lojas em Lisboa, uma no Porto e outra na própria fábrica, estão sob o chapéu da empresa Burel Mountain Originals, detida pelo casal Isabel Costa e João Tomás.

Isabel Costa, minhota, com formação em biotecnologia, acabou por se dedicar à gestão no universo Sonae. João Tomás, lisboeta, na área do direito e gestão, sempre teve paixão pelas paisagens de montanha e pelas caminhadas – chegou a andar pelo Kilimanjaro e Monte Branco e fez Lisboa-Lagos a pé –, e resolveu, juntamente com a mulher, viver "uma segunda vida" numa serra onde não tinham ligação que não fosse afetiva. Começaram por recuperar a Casa das Penhas Douradas e, mais tarde, reconstruir a fábrica da Lanifícios Império que estava em processo de insolvência, a que deram o nome de Burel Factory. Mantiveram os teares do século XIX, recuperaram padrões antigos e começaram a colorir o burel, que até àquela altura apenas existia nas cores originais da lã.

Penhas Douradas
Penhas Douradas Foto: José Campos

Valorizar Portugal

O casal fez questão de colocar os antigos mestres dos teares a ensinar os mais novos, para que o testemunho não se perdesse e têm divulgado o burel a designers e a criativos. Desenvolveram programas de estágios onde, além dos universitários portugueses, também marcam presença estudantes de faculdades estrangeiras.

Para Isabel Costa, que abriu programas de visitas à fábrica, onde se incluem os hóspedes dos hotéis, esta experiência deveria ser replicada a nível nacional de forma a "valorizar a marca Portugal e atrair o turismo". A empresária não tem dúvidas que os turistas vêm para ver "coisas nossas, portuguesas, genuínas, autênticas". Além das peças de vestuário em burel, feito a partir das ovelhas da Serra da Estrela, a versatilidade, a resistência e robustez do material, levou os responsáveis da fábrica a apostar na inovação e nas diferentes aplicações como, por exemplo, revestimentos interiores e isolantes.

Penhas Douradas
Penhas Douradas Foto: José Campos

Alguns dos visitantes da Burel Factory são os clientes dos dois hotéis que, apesar de distarem cerca de cinco quilómetros, costumam albergar diferentes tipos de hóspedes. João Tomás refere que na Casa das Penhas Douradas há, de alguma forma, uma predominância para um ambiente mais familiar quando comparado com a Casa de São Lourenço.

Este último hotel, classificado com cinco estrelas, foi uma antiga pousada portuguesa, uma das primeiras, inaugurada em 1948, num projeto de arquitetura de Rogério de Azevedo e interiores da autoria da artista Maria Keil. Depois de vários anos ao abandono, João Tomás comprou e recuperou o edifício e em 2018 o hotel renasceu preservando a história e o enquadramento, onde a observação, contemplação e relação com a paisagem passaram a ser essenciais. Áreas envidraçadas, varandas, betão e madeiras e o inevitável burel, fazem parte de um edifício com 17 quartos e quatro suítes, todos diferentes. Além de peças de design contemporâneo na Casa de São Lourenço manteve-se o mobiliário de Maria Keil, considerada uma das mais relevantes artistas portuguesas do século XX.

Penhas Douradas
Penhas Douradas Foto: José Campos

Na Casa de São Lourenço – Burel Panorama Hotel destaca-se a piscina interior com circuito de hidromassagem e uma passagem para a piscina exterior. O Spa de Montanha, com três salas de tratamento, uma sala de relaxamento e uma área wellness com uma sauna e um banho turco, tem vista sobre a serra. O ginásio destina-se essencialmente à lógica de alongamentos, exercício de chão e aulas de ioga e relaxamento. Nos dois hotéis as apostas são as atividades de montanha com destaque para os mais de 250 quilómetros de percursos pedestres e de BTT marcados a partir das unidades hoteleiras, com ou sem guias, para descobrir cumes, vales, aldeias históricas e de montanha. Sobretudo no verão, é possível mergulhar nas águas puras das lagoas e rios a poucos minutos dos hotéis.

A gastronomia é parte essencial das experiências. João Tomás explica que em São Lourenço foram buscar um pouco do passado e mantêm "a linha gastronómica das pousadas que tanto sucesso tiveram", neste caso a cozinha tradicional beirã a cargo do chef Manuel Figueira. Pratos que apesar de tudo têm uma apresentação contemporânea, mas recuperam, entre outros sabores, as sopas de peixe, o arroz de pato, arroz de carqueja com cabrito ou as migas de pingo. Por outro lado, na Casa das Penhas Douradas a cozinha é tendencialmente de autor, neste caso também da responsabilidade de Manuel Figueira.

Penhas Douradas
Penhas Douradas Foto: José Campos

As Penhas Douradas continuam no mapa também pela persistência de Isabel Costa e João Tomás que de alguma forma alargaram horizontes e resgataram a memória de José de Sousa Martins quando escreveu parte da história da região. No seu livro, Emídio Navarro, ou de acordo com a grafia da publicação, Emygdio Navarro, descreve o médico como "um clinico abalisado, e pertence a essa raça vigorosa de talentos, que não se satisfazem com um maior ou menor conhecimento dos factos já assentados na rotina scientifica, e que em cada dia trabalham por abrir ou alargar novos horisontes na sciencia".

Este ano, em agosto, estão previstas uma série de iniciativas para assinalarem os 170 anos sobre a "Expedição scientifica à Serra da Estrella em 1881".

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