Prazeres / Sabores

Castas antigas, o tesouro mais bem guardado do vinho português

Portugal está a (re)descobrir como as suas castas mais antigas são capazes de produzir os vinhos mais modernos, elegantes, frescos e plenos de sabor. Como os que vai encontrar aqui.

Tinta Gorda 2020
Tinta Gorda 2020 Foto: D.R.
29 de outubro de 2021 | Bruno Lobo

Portugal possui uma diversidade de castas autóctones sem paralelo com outro país do mundo. Do Algarve a Trás-os-Montes, no continente e ilhas, plantamos mais de 250 castas, "quase três vezes mais variedades do que em Itália e seis vezes mais do que em Espanha e em França", explica o Instituto do Vinho e da Vinha (IVV).

Algumas são famosas, como a Touriga Nacional, a Touriga Franca, o Alvarinho, ou o Arinto (e mais uma mão cheia), mas a grande maioria não conhecemos e respondem por nomes mais "exóticos" como Rabigato, Perrum, Esgana Cão, Rabo de Ovelha, Rabo de Lobo, Rabo de Anho (começamos a ver um padrão…), Carrega Burros, Zé do Telheiro, ou Amor Não me Deixes.

A explicação para tanta originalidade ter-se-á perdido no tempo, mas felizmente as hipóteses de beber um Rabo de Ovelha, monocasta, permanecem (por enquanto) bastante reduzidas. A maioria é utilizada preferencialmente em lote, na nossa melhor tradição de procurar que o todo seja superior à mera soma das partes – e assim continua, ainda que existam cada vez mais exceções a confirmar esta regra.

Dirk Nieport avança com uma explicação para esta especificidade europeia: "O salazarismo e a pobreza fizeram com que ficássemos paradinhos no tempo", diz, "e se isso é normalmente mau, neste caso acabou por ter uma consequência positiva". Ou seja, enquanto no resto da Europa se modernizavam técnicas e selecionavam castas (descartando outras), em Portugal não se passou nada disto, como concorda António Boal, da Costa Boal: "O isolamento do passado favoreceu a construção e preservação de um património vitícola único, construído com tempo e pelo trabalho de várias gerações". "Se formos espertos", continua Dirk Niepoort,"juntamos agora as melhores técnicas modernas a este saber dos nossos avós, que tinham muito mais respeito pela Natureza".

O mercado procura autenticidade, dizem-nos, e será esta a grande mais-valia para a competitividade dos nossos vinhos, como também ouvimos o enólogo da Real Companha Velha, Jorge Moreira, contar: "O facto de termos vinhos que mais ninguém faz é o nosso fator de diferenciação nos mercados." Certo é que esta diversidade tem vindo a despertar cada vez mais a curiosidade dos maiores críticos e especialistas internacionais, também eles ansiosos por descobrir vinhos únicos e fora da caixa. Por isso é duplamente triste pensar que a União Europeia continua a financiar o abate de vinhas velhas. Quando para mais se sabe como estas vinhas e castas oferecem uma resiliência muito superior aos efeitos das alterações climáticas, precisamente por estarem tão bem-adaptadas ao terroir (sobretudo face ao stress hídrico e às temperaturas extremas). Felizmente existem cada vez mais produtores conscientes desta realidade, e empenhados em preservar estes tesouros, porque de outro modo seria impossível provar os vinhos soberbos que hoje trazemos:

Trincadeira-das-Pratas 2019, Chão dos Eremitas, António Maçanita

Trincadeira-das-Pratas 2019
Trincadeira-das-Pratas 2019

Maçanita é outro nome incontornável neste movimento. Podíamos certamente falar dos seus vinhos açorianos, como o Verdelho (que nada tem que ver com o Verdelho do continente), o Arinto do Açores (nada que ver também) a Isabella, a casta proibida, ou o Terrantez do Pico. Mas escolhemos um branco alentejano de Tamarez, casta que agora se chama Trincadeira das Pratas, por representar tão bem um terroir onde, segundo parece, já os fenícios plantavam vinho há 3000 anos. Um monocasta com um perfil muito floral e equilibrado. De ótima acidez, é perfeito para acompanhar peixes mais gordos, de grelha ou forno. Preço indicado: € 25

Samarrinho 2018, Séries, Real Companhia Velha

Samarrinho 2018
Samarrinho 2018

Ainda na viragem do milénio, a RCV – empresa herdeira dessa Real Companhia fundada nos tempos do Marquês – percebeu o perigo que algumas castas autóctones já corriam e deu início a um projeto para a sua preservação. Daqui resultaram mais tarde algumas "Séries à experiência", a primeira de Rufete, e outras como Cornifesto, Donzelinho, Malvasia Preta ou este Samarrinho, um branco muito harmonioso, de grande frescura e mineralidade surpreendente. O Samarrinho foi a segunda série, mas o seu sucesso foi o principal responsável por colocar esta gama no mapa dos enófilos. Preço indicado: € 15,90

Jampal, Manz Wine

Jampal
Jampal

A história do Jampal é única, assim como a de André Manz. Futebolista brasileiro radicado em Portugal, André nunca viria a atingir com uma bola a fama a que chegou como produtor. Em 2007 comprou uma velha vinha perto de Mafra com 200 pés de uma casta que ninguém identificava. O instituto da Vinha lá declarou ser de Jampal, uma casta muito complexa e por isso quase abandonada há muito. A teimosia levou-o a apostar nela e hoje é o orgulhoso produtor do único 100% Jampal do mundo. Um vinho que já foi inclusivamente referenciado como um dos 50 melhores nacionais, no site da crítica de vinhos Jancis Robinson. Nada mau. Preço indicado: € 16 euros.

Sousão 2020, Quinta de Ventozelo

Sousão 2020
Sousão 2020

O primeiro Sousão lançado pela Quinta de Ventozelo, no coração do Douro. Como é característico da casta, apresenta uma cor muito carregada, com aromas intensos a frutos vermelhos, e uma bela acidez, que o tornam num vinho muito fresco e de elevada aptidão gastronómica para pratos fortes da nossa cozinha tradicional. Esta casta também é conhecida por Vinhão, no Minho, e não conseguimos resistir ao trocadilho para caraterizar este grande vinho, muito bem trabalhado pelo enólogo José Manuel Soares. Sem dúvida, uma das melhores novidades do ano. Preço indicado: € 13,50

Tinta Gorda 2020, Costa Boal

Tinta Gorda 2020
Tinta Gorda 2020

Quando António Boal encontrou esta vinha velha, nem ele nem o enólogo, Paulo Nunes – eleito enólogo do ano já por duas vezes –, estavam muito seguros sobre a tal Tinta Gorda que o velho agricultor lhes falara. Descobriram depois ser uma casta autóctone aqui do planalto Mirandês e, mesmo aqui, com uma expressão muito diminuta de vinha. Mas descobriram também que expressava maravilhosamente as características únicas deste terroir, e era exatamente isso que procuravam quando se expandiram para esta zona perto de Sendim, para fazer vinhos o mais naturais possível, com o mínimo de intervenção em adega. Dois anos depois nascia então o primeiro monocasta de Tinta Gorda de que há registo. Trata-se de um vinho de cor muito aberta, rubi suave (já que não é uma casta tintureira), descomplicado, é um vinho muito elegante e agradável, embora com um final de boca muito persistente. Excelente. Preço indicado: € 37

Castas Escondidas 2018, Casa Ferreirinha

Castas Escondidas 2018
Castas Escondidas 2018

Tal como o nome indica, a ideia foi precisamente homenagear algumas das castas que não costumam estar nas luzes da ribalta. Castas "habitualmente utilizadas em lotes de Vinho do Porto e que resultam numa combinação perfeita com outras variedades mais conhecidas", conta-nos o enólogo, Luís Sottomayor, que juntou então Marufo Tinto, Bastardo, Tinta Francisca, Tinta Amarela, Tinto Cão e as Tourigas Fêmea, Nacional e Franca. Tem ainda uma boa percentagem de vinhas velhas indiscriminadas. É um tinto muito suave na boca, de taninos redondos e final persistente. Preço indicado: € 29

Sem Vergonha 2018, Susana Estevan e Dirk Niepoort

Sem Vergonha 2018
Sem Vergonha 2018

O Castelão já foi a casta mais plantada no país, mas alguns de erros de casting levaram a um certo menosprezo. Ultimamente temos vindo a assistir ao seu ressurgimento, e experiências como este Sem Vergonha, que juntou a enóloga Susan Esteban a Dirk Niepoort, confirmam a aposta. É um vinho muito estruturado e, paralelamente, delicado e fresco. € 21,80

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