Prazeres / Sabores

Fernando Soares Franco, um vinho em nome do pai

António e Domingos Soares Franco acabam de lançar um vinho muito especial, uma homenagem a um dos grandes enólogos portugueses que é, também, pai de ambos.

Foto: D.R.
16 de novembro de 2020 | Bruno Lobo

A baronesa Philippine Mathilde Camille de Rothschild proferiu uma frase que se tornou célebre no mundo dos vinhos: "O negócio é relativamente simples. Só os primeiros 200 anos é que são difíceis". A ser verdade, com 186 outonos, a José Maria da Fonseca prepara-se para entrar numa boa vida…

António e Domingos
António e Domingos Foto: D.R.




Nos primeiros cento e oitenta e tal anos atravessarem guerras, duas delas mundiais e uma ultramarina, catástrofes e pandemias, das que afetam os seres humanos e das que afetam as vinhas, como a terrível filoxera, mas "fora isso" não se podem queixar. A lista de sucessos suplanta definitivamente os desaires, começando logo pelo lançamento, em 1840, do primeiro vinho "a sério" de Portugal, o Periquita, que era vendido já engarrafado e não a granel como era comum. Quase um século antes de muitos outros lhe seguirem os passos.

Hoje, a JMF controla mais de 30 marcas distribuídas pelas várias regiões de Portugal continental, e exporta praticamente 60% da produção para 70 países. São definitivamente uma das grandes empresas do ramo e, mais importante ainda, mantiveram-na sempre dentro da família. António e Domingos são a sexta geração e a sétima já está envolvida. Hoje, António é o "economista", e Domingos o enólogo, que este ano celebra 40 anos à frente da equipa de enologia, igualando o tempo do seu pai na empresa. Quanto ao apelido, Soares Franco, descende já da família da mulher do fundador, José Maria da Fonseca.

"São definitivamente uma das grandes empresas do ramo e, mais importante ainda, mantiveram-na sempre dentro da família." Foto: D.R.






Nascido em 1918 e licenciado em Agronomia, Fernando Soares Franco dedicou-se à viticultura da JMF entre 1948 e 1988. Foi um inovador plantando, na Quinta de Camarate, uma enorme Colecção Ampelográfica (de castas) e introduzindo mesmo várias espécies exógenas à região - que via com elevado potencial enológico, como a Touriga Nacional, Touriga Franca, Tannat, Syrah, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Alvarinho. Foi, também, por sua principal insistência que se conseguiu preservar a última vinha de Moscatel Roxo na região. Parece totalmente inconcebível hoje, quando estes vinhos se assumem como a grande bandeira da região, mas teriam desaparecido não fosse a célere atuação deste homem, cujo legado continua assim bem vivo. Não só na empresa como em toda a região.

"Foi, também, por sua principal insistência que se conseguiu preservar a última vinha de Moscatel Roxo na região." Foto: D.R.

 





Um exemplo perfeito daquilo que a baronesa de Rothschild pretendia transmitir quando proferiu a sua famosa frase: preservar hoje o que vem de trás, mas também plantar para que as gerações futuras possam colher esses frutos.

Justíssima homenagem então esta dos filhos e elaborada com algumas das castas preferidas do pai: Trincadeira, Syrah e Tannat. Introduzido inicialmente em 1998, esta edição do FSF 2015 revela um belo potencial de envelhecimento. Um vinho vermelho profundo, complexo no paladar, onde sobressaem notas de especiarias e menta, e muito elegante na boca, com taninos muito bem incorporados. Deve ser servido decantado e ligeiramente mais fresco, a 14º, para ser bebido a 16º. Será a melhor forma de desfrutar de esta herança que Fernando Soares Franco nos deixou.  

"Fernando Soares Franco, um vinho em nome do pai" Foto: D.R.





FSF - Fernando Soares Franco 2015. Uma edição limitada com menos de 3500 garrafas, por 34 euros.

Saiba mais Fernando Soares Franco, JMF, Rothschild, António, Domingos, economia, negócios e finanças, vinicultura, economia (geral)
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