Estilo

Quais são os maiores luxos dos homens?

No princípio eram os relógios. Depois os carros. A seguir as máquinas fotográficas. E, agora, os gadgets de alto luxo. Só depois, muito depois, vieram os sapatos de ténis, os casacos, as T-shirts, os cremes - sim, os cremes. Os homens andam, há séculos, a abrir os cordões à bolsa, mas só recentemente assumiram o seu fascínio pelos pequenos luxos da Moda e da Beleza.

12 de junho de 2020 | Maria Wallis

Lembro-me de estar sentada num sofá de veludo azul, num palácio de Lisboa, à conversa com Christian Louboutin e entre a magia das solas vermelhas (não há como escapar-lhes) e a paixão pela capital portuguesa, o criador francês confessou que tinha começado a fazer sapatos de homem por ter percebido que "eles", afinal, também eram viciados no par perfeito que, tal como "elas", queriam modelos elegantes, sim, mas de uma qualidade muito acima da média. Para os seus clientes, o dinheiro não era um problema. Nunca foi um problema. Não é de estranhar que, à data da publicação desta edição, os seus sapatos de ténis Rankick tenham uma lista de espera sem fim à vista. Há muito que a moda de homem saiu das sombras da moda feminina. Em 2015, a Euromonitor International publicou o resultado de um estudo, à escala global, sobre vestuário e calçado. O pronto-a-vestir de homem tinha crescido 4,5% no ano imediatamente antes (contra 3,7% do pronto-a-vestir feminino). Os dados apresentados previam que, em 2019, o menswear contribuísse com cerca de 40 mil milhões de dólares para o mercado global. É precisamente aqui que vamos encontrar alguns objectos de luxo que se tornam verdadeiros bens de primeira necessidade.


Cremes para que te quero

Entre os essenciais de beleza mais vendidos no site Mr. Porter (lançado em 2011 e totalmente dedicado ao universo masculino, rapidamente se tornou um dos destinos online preferidos dos consumidores de luxo) está o boião de 60 ml do Crème de la Mer (€295), um kit de manicure, em pele, da Czech & Speake (€413), ou o Suprème Night Secret, de Dr. Sebagh (€255). O que nos diz esta lista? Um observador menos atento tiraria duas conclusões: que os homens também usam la Mer e que andam a gastar (algum) dinheiro com o cuidado das mãos. Quem perdesse mais tempo a analisar este best of iria perceber que, hoje em dia, o estilo importa e muito. E isso passa por tratar da pele. Eles sabem-no e estão dispostos a pagar por isso. Os séruns e as loções deixaram de estar limitados ao território feminino. Os nomes mais conceituados do mundo da cosmética no masculino (Aesop, Sisley, Perricone MD, Eisenberg, Dr. Brandt, Clarins, Biotherm, Nuxe e Liérac) deixaram de ser tabu. Além disto, os homens também lançam mão de produtos de cosmética destinados às mulheres, ao nível dos séruns, dos cremes de rosto e de contorno de olhos. Um dandy endinheirado terá no seu boudoir uma panóplia de produtos que usará com prazer: séruns, esfoliantes, champôs e condicionadores para o cabelo; esfoliantes, séruns e cremes hidratantes para a pele do rosto; séruns e hidratantes para o contorno de olhos; esfoliantes, séruns e cremes hidratantes para a pele do corpo; esfoliantes e cremes hidratantes para as peles das mãos e dos pés. E cumprirá o ritual de os usar diária ou semanalmente. Parece ser uma canseira, mas como diz o ditado "Quem corre por gosto não cansa"… Como destaca o próprio Mr. Porter, "o regime de higiene do homem moderno vai muito além do champô e do sabonete". E isso significa investir em produtos que, há algumas décadas, nunca entrariam numa lista de compras. Se não acredita, espreite as versões digitais da Esquire ou da Vogue Hommes e procure o separador ‘Grooming’. O admirável mundo da Beleza está a um passo de distância.

 

Pequenos luxos

O biker jacket Tom Ford mais básico (leia-se, mais próximo da noção prosaica de blusão de cabedal) que encontramos no site Mr. Porter custa €3.990. É um sucesso de vendas, à semelhança do cardigan Steve McQueen, em caxemira (€1.780). Um pouco menos do que a cobiçada backpack de Brunello Cucinelli, em camurça, à venda por €2.250 (a GQ inglesa considerava-a uma das melhores peças do mundo, em Setembro). A marca, sinónimo de savoir-faire italiano, é uma das mais procuradas do site - e uma das que mais vende, apesar dos valores astronómicos para um homem comum (um blazer custa €2.650). A extravagância continua com o hoodie em caxemira da Loro Piana (€1.900), o maior produtor mundial do tecido ou os sapatos de ténis Triple S da Balenciaga (€725-€795) que apesar de serem francamente feios continuam a ser reeditados. No site The Rake, que se auto-intitula "The modern voice of classic elegance", encontramos outros mimos, como um casaco em tweed de inspiração safari da dinamarquesa Lucan (€1.015) e umas calças em gabardine da italiana Ambrosi (€690) que se limita a produzir 1.600 pares de calças por ano.

It’s Dolce

Apesar de esteticamente irrepreensíveis, nenhuma destas peças se aproxima da excelência praticada pelos alfaiates de Saville Row ou de Nápoles. Os preços que praticam têm muitos algarismos. São eles que dão vida ao bespoke tailoring, a Alta-Costura masculina, onde a imaginação, a tradição e o sublime são o limite. E em alguns casos, o céu é mesmo o limite. Basta pensarmos nos fatos do príncipe Carlos de Inglaterra. Não são apenas roupas feitas à medida. São roupas feitas "de raiz". O cliente escolhe o tecido, o corte, os acabamentos, a cor. Tudo, enfim. Da cerca de meia centena de alfaiatarias de luxo de Londres, destacamos algumas: Gieves & Hawkes, Joseph, Kilgour, Hardy Aimes, Henry Polle & Co., Chittlebourough & Morgan e Alexander McQueen. E se todos conhecemos as marcas que vestem as celebridades de Hollywood nas passadeiras vermelhas e os homens de negócios  que cruzam o hemisfério norte em jactos privados (casos concretos das marcas Tom Ford, Ermenegildo Zegna, Giorgio Armani…), há nomes que saltam à vista quando a questão é bespoke tailoring ou, melhor dizendo, Alta Sartoria: Dolce & Gabbana. Lançada esta linha, em 2013, por esta marca italiana, a par com a linha feminina de Alta Moda e com a colecção de Alta Joalharia, e apresentada duas vezes por ano, ao longo de um fim-de-semana ultra-especial onde estão apenas uma centena de clientes e alguns editores de topo, esta é a expressão máxima do luxo, da opulência e da frivolidade - e que nos faz acreditar, como disse Mies van der Rohe, que "Deus está nos detalhes". Porque a Alta Sartoria é muito mais do que o típico fato de três peças, os loafers de pele e o casaco comprido de lã virgem. A Alta Sartoria alarga a própria definição de Couture, recicla-a e estende-a aos pijamas pintados à mão, aos chinelos bordados com pedras preciosas, aos bombers com lantejoulas, aos casacos ultracompridos de vison, aos kaftans de seda de cinco dígitos. Em 2016, quando apresentaram um desfile claramente inspirado nos ideais Greco-Romanos de atletismo e virtuosismo, a dupla de designers italianos explicou ter sentido a necessidade de diversificar o tipo de peças que criavam. "A ideia do desporto não foi minha, nem do Stefano [Gabbana]", disse Domenico Dolce ao South China Morning Post. "Temos alguns clientes do sexo masculino que na última temporada, em Portofino, perguntaram se havia um campo de golfe ou um clube de ténis perto do porto… Então percebemos que o desporto para essas pessoas é muito importante." E acrescentou: "Eu não pratico nenhum desses desportos, mas começámos a pensar que talvez devêssemos fazer essas roupas para vestir o nosso cliente em todas as vertentes da sua vida." Para tornar uma long story short, os multimilionários do século XXI têm desejos muito diferentes de personagens como J. Paul Getty e não hesitam em gastar 50 ou 100 mil euros num smoking que o comum mortal teria de viver (perdão, trabalhar) 300 anos para poder pagar.

 

Adicionar ao cesto

"De repente, é tão importante ter a mala certa, o relógio certo, ter a colecção certa de pulseiras - não apenas uma pulseira -, ter uma nova peça de couro, comprar uma coisa um pouco fora da nossa zona de conforto, comprar cor, comprar materiais exóticos", dizia ao Business of Fashion Tom Kalenderian, executive vice president e general merchandise manager do Barneys New York. O seu testemunho coincide com os principais sites e revistas da especialidade. No Mr. Porter, a variedade de pulseiras é de tal forma impressionante que, por momentos, pensamos estar na versão feminina do famoso e-commerce. O brasileiro Luis Morais é um dos nomes mais procurados com peças que vão dos €250 aos mais de 8 mil euros, lado a lado com a marca americana David Yurman e o punk barroco de Alessandro Michele para Gucci. E se parece demasiado avant garde incluir este tipo de acessórios no guarda-roupa do homem ultra-rico e ultra bem-vestido do século XXI, o que dizer desse fenómeno chamado sneakers? As edições limitadas chegam a valer o dobro ou o triplo do preço de venda ao público, em mercados como o eBay. Exemplos? O modelo N*E*R*D x Adidas Pharrell Hu NMD Trail Homecoming que originalmente custava cerca de €206 e que estava a ser vendido por €1.800, de acordo com informações divulgadas em junho de 2019 pelo site Complex. Igualmente impressionante é a valorização dos Off-White x Air Jordan 1

 

Fanáticos por… troféus

O que é que a histórica bola de futebol Telstar, da Adidas, tem a ver com um requintado baú em monograma Louis Vuitton? Tudo. A relação entre a marca francesa e a FIFA - Federação Internacional de Futebol começou em 2010 quando o Campeonato do Mundo se realizou na África do Sul. Na altura, a Maison construiu o baú que transportou o troféu e voltou a fazê-lo, quatro anos depois, no Brasil, e já este ano, na Rússia. Só que, desta vez, a Louis Vuitton decidiu prolongar a arte da viagem para lá das quatro linhas. Em conjunto com a FIFA e com a Adidas, foi feito um segundo baú, a lembrar os antigos contentores que fazem parte do mito e da herança da Casa. Lá dentro, 13 reedições de bolas utilizadas em Campeonatos do Mundo da FIFA, desde 1970, e uma 14.ª, de aspecto vintage, desenhada pela Louis Vuitton. Esta edição de colecionador foi vendida em leilão no último dia da competição por um valor mínimo de 130 mil dólares (o valor reverteu a favor da instituição Naked Heart Foundation, criada pela supermodelo russa Natalia Vodianova para apoiar crianças desfavorecidas, na Rússia). O nome do seu comprador não foi divulgado. Uma coisa é certa: não fomos nós. Já agora, também não somos nós os donos do único Mulsanne W.O. Edition em território nacional, o carro (ou será mais correcto chamá-lo de "pedaço de História"?) produzido pela Bentley para celebrar o centenário da marca. Com uma edição limitada a 100 unidades, incorpora um fragmento de uma peça original retirada da cambota do veículo pessoal de Walter Owen - o último modelo que desenhou para a Bentley, em 1930 - e tem pequenos detalhes como tapetes em lã de ovelha, copos de cristal e cortinas de privacidade nas portas de trás. O preço deste veículo não foi revelado, mas o site de automobilismo Top Speed deixava uma hipótese: "A versão standard do Mulsanne custa cerca de 260 mil euros, enquanto o Mulsanne Speed custa perto de 300 mil euros. Pode apostar as economias da sua vida toda em como o Mulsanne W.O. Edition custará muito mais do que esses dois modelos." No final, voltamos sempre aos carros.

 

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