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Deixar para amanhã o que se pode fazer hoje: defeito ou virtude?

Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje, dizem-nos. E o que fazem aqueles procrastinam? Precisamente o contrário. Má conotada por um lado, a verdade é que há vantagens comprovadas na procrastinação. Ou, digamos antes assim, no ato de se adiar tarefas. Passemos, sem demora, a entender.

Foto: Unsplash
05 de junho de 2020 | Pureza Fleming

Começo a escrever este texto poucas horas antes da hora da sua entrega. Do seu deadline. Nada de novo na minha vida enquanto profissional da escrita. Quando, há cerca de dois anos, me tornei freelancer, um dos meus (vários) pânicos tinha de ver precisamente com a questão dos deadlines — os famosos prazos. Quando trabalhava em redação a procrastinação não era uma constante. O facto de ter aquela rotina, aquelas tarefas diárias e, de certa forma, os olhos dos meus chefes postos em mim, o efeito de "despachar" as ditas tarefas o quanto antes estava sempre presente. Era como se a rotina fosse a minha grande aliada. No momento em que ganho o carimbo de trabalhadora independente com todas as suas nuances — sem horários fixos, sem os olhares dos superiores (que tantas vezes mais não eram do que fruto da minha imaginação, creio que eram olhares reprovadores que aconteciam de mim para mim, já uma potencial procrastinadora) e, acima de tudo, com todas as distrações que se podem encontrar em casa — é então que vejo o monstro da procrastinação a sorrir maliciosamente. E o meu pânico a crescer. O que não deixa de ser estúpido: afinal, se não queria procrastinar, que não procrastinasse. Certo? Errado. O cérebro humano é um animal complexo e, a bem ou a mal, as coisas que o envolvem nunca são assim tão lineares.

Os primeiros tempos de freelancer foram, portanto, como já se adivinhavam: stressantes. A culpa uma constante. A insegurança sempre a vir ao de cima pois nunca, por mais que jurasse a mim própria que "da próxima vez não vou deixar para a última", conseguia ser fiel à minha vontade de ser mais "cumpridora", mais "responsável", mais "profissional". Sim porque, na minha opinião, ao estar a trabalhar daquela forma eu estava a ser exatamente o oposto de tudo aquilo enumero acima. Não que falhasse os deadlines — nunca falhava. Não que a qualidade dos textos estivesse aquém — contra todos os meus eus inseguros, não estava, sendo que na grande maioria das vezes muito pelo contrário. Mas era como se o facto de procrastinar significasse estar a ir contra mim, a confrontar-me e a desafiar-me da pior maneira possível. As tentativas de pré-crastinar (já lá vamos a este termo) foram mais do que muitas. E, escusado seria dizer, constantes insucessos. Tal como sucede sempre com uma boa procrastinação, havia sempre algo mais importante para fazer naquele momento do que dar início a um texto que só teria de ser entregue no final daquela semana — nem que fosse uma máquina de roupa porque, "está tanto sol agora e amanhã talvez não esteja". A verdade é que o tempo foi passando, a minha "procrastinação" foi sendo mantida, até que comecei a entender que sim, que de facto trabalhar daquele modo era, para mim, uma mais valia

O que entendi foi antes que, mesmo quando eu não estava a escrever, a minha cabeça encontrava-se permanentemente a pensar no tema do texto. E que era, na maioria da vezes, enquanto estava distraída  que os melhores insights surgiam. E assim ia "atirando" para a folha branca frases soltas, pensamentos, excertos de textos que lia algures (muitas horas da procrastinação eram também passadas a fazer pesquisa) e que, por isso, o resultado era sempre mais enriquecedor. Existe uma explicação para tal: há quase um século, o psicólogo Bluma Zeigarnik descobriu que as pessoas tinham uma memória melhor para tarefas incompletas do que para tarefas completas. Tal significa que quando finalizamos um projeto, arquivamo-lo. Mas quando está no limbo, este permanece ativo no nosso cérebro. E em todos os projetos criativos há momentos que exigem pensar-se mais lateralmente e mais devagar.

Cristina Sousa Ferreira, da Oficina da Psicologia, sublinha esta teoria: "Se é um procrastinador, da próxima vez que se afundar no escuro cenário de culpa e de ódio pela dificuldade em iniciar uma tarefa, lembre-se de que o tipo certo de ‘procrastinação’ pode torná-lo mais criativo. Dar tempo pode ser benéfico para a nossa criatividade. De facto, pode até ser necessário! Portanto, podemos até chamar esse adiamento de 'atraso perspicaz’, mas não, certamente, procrastinação", assegura. E mantém: "A verdadeira criatividade vem da escolha de adiar, e não da pressa de um processo que não deve ser apressado. A procrastinação normalmente resulta em esforços apressados e de última hora, sem consideração cuidadosa da tarefa em questão. A pesquisa revela claramente que a pressa pode levar a desperdiçar ideias e insights significativos e que adiar propositadamente as ações pode ser benéfico. Muitos tipos de adiamentos nas nossas vidas são estratégicos e benéficos, e muitos outros são inevitáveis e ‘malignos’". De acordo com aquela psicóloga, o termo "procrastinação" é diferente de "adiamento" ou de "atraso perspicaz", tal como refere acima. E então explica que "a procrastinação é a forma específica de adiamento que assenta na nossa falta de autorregulação, em que deixamos de agir como pretendido, mesmo sabendo que esse atraso provavelmente terá um custo. Ao contrário das outras formas de adiamento referidas, não há vantagens na procrastinação. Nem todo o adiamento da realização das tarefas ou projetos é procrastinação. É importante saber a diferença para poder usar mais eficiência e provavelmente ser mais criativo", remata. Vistas as coisas desta perspectiva concluo que eu nunca procrastinei, mas que antes adiei o arranque dos meus textos — mantendo o cérebro no ativo e a marinar sob os temas em questão. E que, em oposição, quem procrastina simplesmente ignora a tarefa até ao último minuto.

Estima-se que 70% da população apresenta sinais de procrastinação. Destes, 20% admitem que adiam, de forma crónica, tarefas importantes. É como se houvesse um "ladrão" que roubasse o tempo e afetasse o dia a dia. Um estudo conclui que cada um de nós procrastina mais de duas horas por dia. Mas como é que este "adiamento irracional" se tornou tão generalizado? "O adiar sucessivo daquilo que se tem intenção de fazer — procrastinação — anda aliado, umas vezes mais outras menos, a uma certa inércia na hora de arregaçar as mangas. E isto tem dois problemas: um é que as coisas que são para fazer ficam… por fazer, com as consequências correspondentes e com oportunidades perdidas pelo caminho; a outra é que a autoimagem vai ficando desgastada naquele ponto onde mora a sensação de autoeficácia e de autoconfiança", explana Cristina Sousa Ferreira.

Mas o que impede os procrastinadores de conseguirem fazer as coisas? O que os impele a adiar a realização das tarefas? Uma equipa de pesquisa da Universidade de Calgary, no Canadá, salienta que os pilares da procrastinação se baseiam na tendência natural do ser humano de valorizar o amanhã em detrimento do hoje: "Sabe qual é o dia mais ocupado de quem procrastina? É sempre… amanhã", refere aquela psicóloga. Procrastinar define-se como sendo o ato de substituir ações prioritárias por tarefas de menor prioridade ou seja adiar tarefas importantes para mais tarde. Acabar, simplesmente, por favorecer umas em lugar das outras. A procrastinação é uma "prevalente e perniciosa falha na autorregulação", escreveu Peers Steel, da Universidade de Calgary e autor de A Equação De Deixar Para Depois (2010). Como podemos então domesticar os nossos instintos procrastinadores?

Ainda de acordo com Steel há quatro elementos essenciais na procrastinação e, consequentemente, outras tantas formas possíveis de lutar contra ela. Cristina Sousa Ferreira explica: "O que nos leva ao constante ‘adiamento irracional’ tem uma elevada relação com as características da tarefa e a forma de como estão em jogo os seguintes aspetos — as expectativas, o valor, a impulsividade e o tempo. As expectativas positivas em relação ao futuro podem reduzir fortemente a procrastinação. Esperar concluir uma tarefa facilmente, faz com que seja menos provável que esta vá ser posta de parte. Se esperamos bons resultados tendemos a não adiar. Queremos usufruir da recompensa deste sucesso tão depressa quanto possível. (…) Permanecer otimista, mesmo num tempo de incerteza, ajuda a reduzir a procrastinação. A dopamina é um neuroquímico com um papel importante nos circuitos de recompensa — é a mola mais molecular que nos faz saltar da cama de manhã e percorrer um dia atarefado. Por isso, há que saber intervir neste circuito de recompensa com as estratégias eficazes. Um outro elemento essencial é o valor. Quanto maior for o valor da tarefa ou do objectivo menor é o impulso para procrastinar. Temos tendência para adiar mais as tarefas de que não gostamos ou que são aborrecidas. A aversão à tarefa é quase autoexplicativa. Queremos evitar estímulos desagradáveis e por isso quanto mais aversiva é a situação mais tendemos a adiá-la, isto é, a procrastinar. Depois, um ambiente que favoreça a impulsividade apela e aumenta a procrastinação. Quanto mais longe estivermos das distrações menos provável será que nos desviemos das tarefas mais importantes que temos que concluir. Se estivermos num espaço específico para trabalhar, livre de distrações estaremos a promover automaticamente a eficiência. E por fim o tempo. Ou seja, quanto mais tempo tiver para a concretização da tarefa, quanto mais longe estiver o deadline, a recompensa ou a punição, mais provável é que procrastine. Tendemos a favorecer as tarefas que são mais gratificantes a curto-prazo", conclui. Além destes aspectos relacionados com as tarefas a psicóloga acrescenta ainda ainda aqueles que estão intimamente ligados com as nossas características individuais. Assevera que "algumas pessoas são mais procrastinadoras do que outras, que têm um baixo autocontrole, distraem-se facilmente e que são impulsivas". Adianta  também que crenças irracionais e perfecionismo são umas das maiores causas da procrastinação, bem como uma baixa autoestima, a falta de confiança, o receio do insucesso, a letargia e a pouca energia. 

Pré-crastinar: o reverso da medalha

"Porque é que eu ensinei a mim mesmo a procrastinar", é o título que Adam Grant, psicólogo e autor americano, deu ao seu texto publicado no The New York Times, numa prosa que descortina as vantagens de se procrastinar em oposição à pré-crastinação. O autor começa por dizer que, no passado, era um pré-crastinador. Utilizada por pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA, o termo pré-crastinação refere-se ao ato de se apressar para se terminar uma tarefa mesmo que isso signifique ter o dobro de esforço. A expressão surgiu a partir de uma experiência levada a cabo por um grupo de estudantes norte-americanos em que os voluntários precisavam de carregar um balde cheio de moedas até ao final de um corredor. Os participantes poderiam optar pelo balde mais próximo a si ou por outro que estava perto da linha de chegada. A maior parte dos envolvidos no teste escolheu o balde que estava mais perto de si, pois queriam finalizar o teste o mais rápido possível. No entanto, eles não tiveram em consideração que, ao tomar essa decisão, teriam de fazer mais esforço para terminar o exercício do que se tivessem escolhido o balde mais próximo do final do trajeto. De acordo com o professor de Psicologia David Rosenbaum, que liderou o teste, as tarefas que temos de cumprir ficam na nossa memória de trabalho como parte de uma lista mental de afazeres. E o desejo de aliviar essa carga mental é tão grande que, por vezes, nos dispomos a gastar mais energia para fazer algo apenas para tirarmos aquilo da nossa cabeça.

Rosenbaum afirmou também que a aprendizagem resultante do método de tentativa e erro é o modo mais valioso para se descobrir se algo será ou não bem-sucedido na nossa rotina. No mesmo texto, Grant deslinda acerca da sua experiência em tornar-se um procrastinador, enumerando as vantagens que foi descobrindo. Escreve: "As nossas primeiras ideias são, por norma, as mais convencionais. (…) Quando procrastinamos, é mais provável que a mente divague. E isso dá-nos uma maior oportunidade de tropeçar nos padrões inesperados e incomuns". E continua, trazendo alguns nomes de "procrastinadores de sucesso": "Steve Jobs procrastinava constantemente, vários dos seus colaboradores confirmaram. Bill Clinton foi descrito como um ‘procrastinador crónico’ que espera até ao último minuto para rever os seus discursos. Aaron Sorkin, guionista de Steve Jobs e The West Wing, é conhecido por adiar a escrita até ao último minuto. Quando a jornalista norte-americana, Katie Couric, o questionou a este propósito, ele respondeu: ‘Você chama de procrastinação, eu chamo de pensamento’". Assim, podemos concluir que procrastinar  — ou seja lá que termo queiramos colocar aqui, uma vez que a procrastinação pode muito bem ter uma conotação negativa, tal como nos assegurou aquela psicóloga— pode ser positiva e benéfica à criatividade e ao pensamento.

Podemos, portanto, usá-la a nosso favor ou ultrapassá-la enquanto algo que é prejudicial. Nesse caso, já cantava António Variações em É p'ra amanhã (1983 ), o melhor mesmo é que se faça já hoje, "porque amanhã sei que voltas a adiar / E tu bem sabes como o tempo foge / Mas nada fazes para o agarrar / Foi mais um dia e tu nada fizeste". E, como bem sabemos, se há alguém que não volta para trás esse alguém é o tempo.

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