Prazeres

Esta moradia é o fine dining mais bem escondido de Cascais

De localização inusitada, o restaurante Casa Davolta maravilha-nos com despretensão e alta cozinha de inspiração andaluz. À mesa é servida emoção ao paladar, em criações delicadas e de complexidade técnica notável.

Um dos pratos que pode degustar no restaurante 'Casa Davolta'
Um dos pratos que pode degustar no restaurante 'Casa Davolta'
13 de setembro de 2022 | Marta Vieira

Na aldeia de Areia, a cinco minutos de carro da praia do Guincho, as casas são todas muito parecidas. Naquela zona residencial, a Casa Davolta é mais uma moradia e, ao mesmo tempo, é tudo menos isso. Para os transeuntes, pouco denuncia este restaurante de cozinha autoral inaugurado em 2019: residência de dois andares, paredes brancas, portadas verdes e um muro em pedra a ladear um pequeno pátio com buganvílias. 

O restaurante Casa Davolta localiza-se no rés do chão de uma típica habitação portuguesa, onde somente uma discreta placa o denúncia
O restaurante Casa Davolta localiza-se no rés do chão de uma típica habitação portuguesa, onde somente uma discreta placa o denúncia

Cascais não foi, no entanto, a primeira opção do chef andaluz Javier Méndez e da sua companheira Vera Rente. Vindos de Barcelona, onde se conheceram profissionalmente há quase uma década no Hotel Arte, o casal tentou inicialmente a capital para primeiro negócio. "Procurámos muito em Lisboa, mas a certa altura perdeu todo o romantismo. Para quem vinha de uma cidade grande, era mais do mesmo", conta o chef de 41 anos. A poluição adjacente à metrópole e os valores impossíveis dos imóveis também não ajudaram. Neste cenário, a terra-natal da cascalense Vera, tornou-se cada vez mais sedutora para o marido: "Apaixonei-me por Cascais e a ligação ao mar e à natureza"

Javier e Vera distribuem-se respetivamente entre a cozinha e a sala. Até agora sozinhos neste projeto de vida, no final do verão a equipa duplicará
Javier e Vera distribuem-se respetivamente entre a cozinha e a sala. Até agora sozinhos neste projeto de vida, no final do verão a equipa duplicará

É na costa portuguesa que Méndez, com currículo firmado nos estrelados Lasarte, Enoteca e Aponiente, encontra o produto que tanto respeita, sendo a lota, a peixaria da aldeia de Juzo e os mercados locais fiéis adjuntos. A influência, contudo, vem das suas raízes andaluzes, um receituário popular que quer perpetuar, através de muita experimentação e técnica refinada.

Na sala, é Vera quem nos acompanha o tempo todo, com um cuidado e encanto muito próprios. Podemos escolher à carta ou seguir pelos menus de degustação, de 7 ou 10 momentos (€67 e €84,5) no caso sem wine pairing. É um almoço, mas arriscamos pela proposta mais longa – sem arrependimentos, mesmo com a continuação de uma quinta-feira de trabalho tarde dentro. 

No menu de degustação, há um claro enfoque no desfile de entradas antes dos principais
No menu de degustação, há um claro enfoque no desfile de entradas antes dos principais

De facto, cada prato torna-se bastante leve sozinho, e harmonioso no seu conjunto. E atenção, não caia no engodo comum de julgar a criação pela simplicidade na apresentação. A confluência de sabores, muitas vezes nada óbvios, deixa-nos perplexos, e o seu rasto perdura no paladar. Começamos com a fresca Ajo Blanco, uma sopa fria de amêndoa com gamba da costa e uvas, seguida do prato de ostra e maçã verde, salgado e açucarado em equilíbrio. E como não falar da sardinha fumada com salada iódica? Aqui, com o crocante da alga, alface do mar, a esconder um creme de lingueirão e uma espuma gelada de manjericão e alho negro. 

Ajo blanco com gamba da costa e uvas, excepcional para a estação quente e um favorito a voltar
Ajo blanco com gamba da costa e uvas, excepcional para a estação quente e um favorito a voltar

"Para mim, o mais emocionante é a técnica, quase científica. Tento encontrar o balanço perfeito, utilizando o menor número de componentes possíveis", conta o chef, desvendando entre risos que "quando um prato tem muitos ingredientes é porque não consegui à primeira". Não foi o caso do lagostim com cogumelos e espinafres – Pim, Pam, Pum voilá. 

A dedicação do Mendéz à cozinha começa bem cedo e em casa, apesar de profissionalmente ter começado aos 23
A dedicação do Mendéz à cozinha começa bem cedo e em casa, apesar de profissionalmente ter começado aos 23

As propostas vínicas ficaram ao encargo de Vera e no final são já cinco copos por pessoa, fora as águas. A seleção pensada incluiu referências locais de pequenos produtores e também vinhos da região de Jerez, que muito diz ao casal. Apreciámos especialmente o Lacrau Branco 2021, 100% Moscatel Galego, de aroma jovem e nuances tropicais e que acompanhou as primeiras entradas e claro, o Villa Oeiras 7 anos, da região demarcada de Carcavelos a fechar a mesa. 

No total há 15 lugares disponíveis, que distribuem os comensais entre o pátio exterior e o espaço interior, a lembrar uma sala de jantar doméstica
No total há 15 lugares disponíveis, que distribuem os comensais entre o pátio exterior e o espaço interior, a lembrar uma sala de jantar doméstica

Nos principais, houve ainda espaço para a dourada selvagem na brasa com mostarda silvestre e tomate, este último mostrando-se com a forma de uma espuma gelada branca. Não perguntámos o que aconteceu, certos de que não iriamos perceber. Deleitámo-nos apenas. Também houve espaço para a carne, no caso pombo com favas, já que naquele dia a corça com brócolos não estava disponível. Nas sobremesas fica-nos a salada de fruta de cereja e amêndoa amarga, cujo nome é quase uma despromoção, pensamos para nós. Este arranjo final - que nada tem a ver com a típica salada de frutastraz frescura e sobretudo várias texturas, seja através da geleia, da própria fruta ou do gelado. No fundo, surpresa. Tudo o que estivemos a falar até agora.

Onde? Rua São José nº 353, Cascais. Quando? Terça-feira a sábado, das 12h45 às 14h30 e das 19h00 às 21h00. Reservas: 211 604 892 

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