Viver

"Como é viver numa prisão britânica? Eu sei. Estive numa durante cinco anos."

O realizador de documentários Chris Atkins nunca pensara muito na prisão. Um dia, envolveu-se num esquema ilegal para financiar um filme – e foi considerado culpado de fraude. O seu novo lar iria ser a HMP Wandsworth, uma das maiores e mais disfuncionais prisões do Reino Unido.

Chris Atkins, de 43 anos, na casa da sua namorada, no norte de Londres.
Chris Atkins, de 43 anos, na casa da sua namorada, no norte de Londres. Foto: Tom Jackson
05 de março de 2020 | Ben Machell

Chris Atkins é um realizador de 43 anos nomeado para os BAFTA. É alto, bem-falante e urbano. Frequentou o colégio interno em Worcestershire antes de ir para Oxford e tem um aspeto atraente, fazendo lembrar, ligeiramente, Hugh Laurie. Segundo as suas próprias palavras, é um criador de documentários com consciência social, de esquerda, classe média e possivelmente demasiado educado, que vive no norte de Londres e corre em Hampstead Heath." Abre as mãos num gesto de desculpas. "Os clichés todos."

É uma pessoa consciente. Pelo menos, agora. Durante muito tempo, Atkins diz ter sido uma pessoa extremamente crítica, sobretudo no que dizia respeito às transgressões dos outros. Isto devia-se, em grande parte, ao facto de o seu trabalho ser produzir revelações moralizantes sob a forma de documentários, bem como de episódios de Dispatches e Panorama, cujos temas incluíam a erosão das liberdades civis desde o início da Guerra contra o Terror, o mundo cínico e corrupto da cultura das celebridades e o florescente tráfico ilegal de dados confidenciais.

"Era sobre encontrar alguém que tivesse feito algo de errado e esparramá-lo no máximo de televisores possível para progredir na minha carreira e ganhar prémios. E para o bem da comunidade", acrescenta rapidamente. "Infelizmente, misturamos as duas coisas. Tornei-me altamente crítico em relação aos outros e às suas transgressões. Eu julgava imenso, era um bocado convencido, egocêntrico, enfim, um palerma de classe média. Estava sempre a pensar que estava a ser injustiçado porque um dos meus documentários era emitido às 22h00 em vez de às 21h00. Era uma grande injustiça que o meu filme não estivesse a dar na televisão às horas certas", diz, franzindo as sobrancelhas. "Não nos apercebemos de quão boa é a nossa vida até a perdermos."

Em 2016, a vida de Atkins foi-lhe roubada. Ele cometeu fraude para arranjar fundos para um dos seus filmes. Envolveu-se num esquema que tirou partido do facto de, durante determinado período, ter havido isenções fiscais na indústria cinematográfica britânica. Sob a orientação de um contabilista particularmente criativo, investidores financiaram conscientemente o seu filme para evitarem pagar imenso dinheiro em impostos. Atkins ajudou a criar a ilusão de que o filme custaria mais a produzir do que custou na verdade, aumentando a quantidade de faturas inflacionadas e transferindo dinheiro entre várias empresas de fachada. O resultado? Embora tivesse recebido dinheiro suficiente para produzir o seu filme, não fora tanto como as suas contas mostravam.

Atkins diz que sabia que era um modus operandi duvidoso – e, possivelmente, criminoso – mas o seu ego exigia-lhe que o filme fosse feito e esta parecia ser a única forma de o fazer. Além disso, afirma, não era assim tão diferente da forma como tantos outros filmes britânicos foram financiados durante este período. Não que isso sirva como desculpa, acrescenta.

Após uma longa investigação do HMRC, Atkins foi considerado culpado de fraude pelo Tribunal da Coroa de Southwark em junho de 2016. "Eu andava a tirar dinheiro de sítios de onde não devia", afirma, categoricamente. "Tenho de sublinhar que foi tudo para financiar um filme. Mas como disse o juiz, isso não interessa. E ele tem razão. Eu mereci."

Ele sabia que iria ser preso, mas houve uma longa e surreal espera de uma semana entre a sua condenação e a leitura da sentença. O que fazemos quando sabemos que vamos levar uma mocada ao fim de sete dias, mas vindos de um mundo com jantares em Hampstead e celebridades, não fazemos a menor ideia de como é a prisão? "O pesadelo de qualquer pessoa de classe média é ser preso porque não conhecemos o sistema. O que posso levar? Que sapatos devo usar? Devo levar selos?" Incapaz de lidar com a gigantesca escala do que estava prestes a acontecer, Atkins diz que se concentrou em tarefas mundanas práticas. Limpou a casa. Cancelou os débitos diretos. Esvaziou o anexo. "Pensei: ‘Tenho de ir até ao fim. E fui."

Ele partilhava a custódia do filho mais novo, Kit, com a sua ex-companheira, a romancista Lottie Moggach, e tentou passar o máximo de tempo possível com ele durante aqueles dias. "Eu disse-lhe: ‘O pai fez uma coisa mal feita e tem de ficar de castigo durante uns tempos.’ Eu não queria que ele visse os brinquedos dele todos empacotados e queria que ele soubesse que o pai o adorava e que voltaríamos a ver-nos muito em breve."

Passada exatamente uma semana da sua condenação, Atkins regressou ao Tribunal da Coroa de Southwark, onde foi sentenciado a cinco anos de prisão. Foi transportado num veículo de presos até HMP Wandsworth, uma imponente instituição Vitoriana com uma fachada austera, semelhante a uma fortaleza. Quando atravessou os portões, foi formalmente introduzido no sistema prisional britânico. Despiu o fato elegante com que se apresentara em tribunal e recebeu umas calças de treino cinzentas ásperas, uma T-shirt azul largueirona e um "kit de boas-vindas", composto por algumas saquetas de Nescafé e meia dúzia de bolachas. O guarda prisional que supervisionou a sua admissão avisou-o, sem rodeios, de que a maioria dos cerca de 1.500 presos de Wandsworth eram "vermes". Enquanto era conduzido ao longo do corredor despido até à sua cela, o som reverberante de dezenas de presos gritando, rosnando e batendo nas portas gerou uma sobrecarga sensorial aterrorizadora. Chegou à cela minúscula com o coração aos saltos. Depois a porta fechou-se, com força, atrás dele. "Foi o barulho mais pesado que ouvi em toda a minha vida.", diz.

Estamos num café espaçoso no Soho. Atkins foi libertado no final de 2018, depois de cumprir metade da sua sentença atrás das grades. Está a beber um latte grande e cheio de espuma. Em Wandsworth, enquanto outros presos contrabandeavam drogas e telemóveis, Atkins arranjava maneira de obter algumas saquetas de cappuccino instantâneo. "Que me pareciam as melhores coisas do universo", diz com uma expressão sonhadora. Muitos dos homens à sua volta estavam a lutar contra a dependência de heroína. Atkins, por outro lado, passou os dois primeiros meses na prisão ansiando por um bom copo de vinho. "E depois vemos um anúncio da Echo Falls na televisão", diz, suspirando, roendo o dedo. "Ahh."

Quando foi preso, Atkins começou a escrever um diário para passar o tempo. São esses apontamentos que se encontram na base do livro que produziu sobre o tempo que passou em Wandsworth – A Bit of a Stretch: The Diaries of a Prisoner. É um relato extremamente envolvente, não só devido à incongruência de Atkins e ao seu pendor para o humor negro e analítico, mas porque expõe um sistema que se tornou completamente disfuncional. Atkins é atirado para o meio da crise prisional britânica e não acredita naquilo que está a ver. É uma impotência Kafkiana. Um catálogo sombrio de absurdos.

Por onde começar? Pelos presos muçulmanos praticantes que se inscrevem nos Alcoólicos Anónimos só para poderem frequentar as reuniões e passarem algum tempo precioso fora das celas? Pelo facto de, antes de receber a visita do filho, este ter sido submetido a uma longa investigação sobre os seus "antecedentes criminais" apesar de ter três anos? Ou por aquela vez em que o preso mais descaradamente racista, sexista e homofóbico da ala ter sido eleito "representante das igualdades"? Ou quando um companheiro de cela de Atkins achou que chegara ao fim da sua sentença e iria ser libertado e lhe disseram que, devido a um erro administrativo teria de cumprir mais seis meses de prisão? Ou quando a direção anuncia que, doravante, os guardas prisionais devem referir-se aos presos como "homens" e não como "prisioneiros" para lhes melhorar a autoestima, ignorando completamente o facto de, naquela altura, haver problemas com a canalização e os homens passarem dias sem conseguirem lavar-se ou sequer, puxar o autoclismo nas suas celas? Atkins esfrega as têmporas. "Acha mesmo que alguém quer saber se lhe chamam "homem" ou prisioneiro" quando tudo aquilo que quer é tomar um duche?" Antes de chegar a Wandsworth, Atkins sabia vagamente que havia um problema conhecido como "a crise das prisões", mas não fazia a menor ideia do seu significado. "As prisões são completamente opacas, por isso têm todos os problemas dos sistemas completamente opacos", comenta. As únicas pessoas que conhecem a verdadeira dimensão da decadência institucional e administrativa são os presos, cujas queixas a sociedade tende a não levar a sério, ou as pessoas cujo trabalho é gerir as prisões, as quais tendem a não divulgar os seus próprios fracassos.

Para compreender como as coisas se tornaram tão más, diz Atkins, precisamos de analisar algumas tendências sobrepostas. A primeira é que a população prisional britânica atingiu um máximo histórico. A necessidade política de ser considerado um estado "duro para com o crime" contribuiu para que a população prisional efetivamente duplicasse desde 1990, sendo hoje superior a 90.000 presos. Depois de um relatório sobre as despesas encomendado em 2010 pelo governo da coligação, porém, o número de guardas prisionais experientes nas linhas da frente desceu a pique. "Chris Grayling concedeu-lhes a reforma, com grandes indeminizações, para poupar dinheiro e contratou miúdos", diz Atkins. "Foi uma loucura. Tínhamos homens com 10 anos de serviço nas forças armadas e mais 20 anos no sistema prisional com quem ninguém se metia. E estavam a substituí-los por miúdos cuja única noção de autoridade poderia ter sido como capitães da equipa de futebol da escola."

Atkins ficou chocado com a aparência jovem e nervosa de muitos guardas de Wandsworth. Por vezes, estes novos recrutas tinham de, discretamente, perguntar ao próprio Atkins o que deveriam fazer. "A que horas abrimos as celas? A que horas almoçamos?" Eles recebiam formação durante nove semanas, frequentemente noutra prisão, e depois apareciam, recebiam um conjunto de chaves e não sabiam, literalmente, para que servia cada uma delas."

Compreensivelmente, tinham medo com frequência. No entanto, esse medo só os tornava mais repressivos e menos propensos a deixar os presos sair das celas, resultando em longos períodos de "bangup" – dias inteiros em que os presos eram mantidos atrás das grades. Isto criava um tédio enorme, o qual, por sua vez, aumentava a necessidade de "especiarias", um canabinóide sintético que é facilmente contrabandeado para as prisões porque não é detetado pelos cães farejadores e que, quando fumado, pode induzir paranoia e comportamento violento. Os "ataques de especiarias" – episódios psicóticos causados pela droga – eram frequentes. "Todos os dias havia uma crise para controlar."

Para começar, Atkins partilhava o beliche com um bem-disposto traficante de droga de sessenta e tal anos chamado Ted, que adotou o seu companheiro de cela em choque. "Ele dizia-me: ‘Não te preocupes, amigo. Vai correr tudo bem. Bebe um chá!" Depois, partilhou a cela com um romeno que conseguiu cobrir todos os centímetros das paredes com pornografia contrabandeada e ficou muito perturbado quando Atkins tentou colar algumas fotografias do seu filho na parede. O romeno fez tentativas passivo-agressivas para obrigar Atkins a pedir transferência de cela, masturbando-se à sua frente. E conseguiu. "Não teria sido tão mau se ele não fosse completamente maluco. Nem sequer tive tempo para apreciar a pornografia", diz Atkins.

No entanto, Atkins não tardou a entrar para um pequeno círculo de presos de classe média, que incluía um antigo diretor executivo do Deutsche Bank que fora condenado por venda de informações privilegiadas. Este "Clube do Colarinho Branco" tinha o seu espaço de convívio oficioso, a "Suite Executiva": uma cela dupla com algumas comodidades, como um jogo de gamão e cadeiras mais confortáveis. "Tornou-se conhecido como Little Hampstead, porque muitos de nós eram daquela zona."

O facto de estes privilégios estarem disponíveis também era fruto da disfunção de Wandsworth. Como a prisão tinha tanta falta de funcionários, qualquer pessoa que parecesse educada e vagamente digna de confiança era recrutada pela direção para ajudar a gerir o sítio. "Imagine. Está preso numa cela durante duas semanas e, de repente, alguém diz: ‘Olha, queres vir ajudar-nos a fazer a chamada? Queres varrer os patamares? Queres limpar a biblioteca?" diz Atkins, imitando o contentamento de um cachorro entusiasmado. "Eles estavam nas lonas e precisavam de nós."

Então Atkins começou a aceitar diversos trabalhos. Tornou-se sua responsabilidade entregar os cartões de visitas – pedaços de papel que informam os presos que vão receber uma visita no dia seguinte. Isto permitia-lhe sair da cela, bisbilhotar, usar os chuveiros quando estavam vazios e telefonar ao filho a partir das cabinas telefónicas da prisão. Começou a dar os seminários de admissão aos novos presos e também se tornou "ouvinte", alguém cujo trabalho é ajudar qualquer preso que sofra de ansiedade ou tendências suicidas, embora isso tivesse menos a ver com altruísmo do que com o facto de só os ouvintes poderem ficar na Suite Executiva. Todos estes trabalhos tinham as suas pequenas regalias, que ele protegia ciosamente. Com um certo sentimento de culpa, admite que era um caso de "acotovelamento" de classe média, o mesmo sistema que, noutras circunstâncias, ajuda alguém a inscrever o filho na melhor escola primária da cidade apesar de viver noutra freguesia.

Enquanto isso, Atkins descobriu que se tornara igualmente indispensável para os outros presos. Ajudava-os a preencher os intermináveis formulários exigidos pela vida na prisão porque imensos presos de Wandsworth eram "completamente analfabetos". Sendo de classe média, Atkins não tinha quaisquer problemas em lidar com a autoridade. "Mas a maioria das pessoas do sistema prisional são completamente adversas a qualquer tipo de contacto com a autoridade. E eles acham que tudo é autoridade. Seja uma escola, serviços sociais, prisões, polícias, advogados… é tudo uma gigantesca bolha de autoridade. Mas quando estamos na prisão e precisamos que alguma coisa seja feita, temos de lidar com a autoridade. Queremos receber mais visitas? Queremos sair mais da cela? Queremos fazer alguns telefonemas? Temos de lidar com a autoridade. E a maior parte das vezes isso implica escrever. E a maioria destes homens não sabe escrever."

Foi enquanto intermediário paciente que Atkins conseguiu conquistar a confiança de muitos presos de Wandsworth. Como agradecimento pela sua ajuda, recebia pequenos presentes, como as suas preciosas saquetas de cappuccino. No entanto, foi o seu trabalho como ouvinte que o ajudou mesmo a compreender melhor os homens com quem estava preso. Ainda existe a ideia de que as pessoas que estão presas são bandidos de olhos esgazeados de Porridge ou criminosos profissionais de gangues com uma forte organização hierárquica.

"Enquanto, na verdade, a maior parte são toxicodependentes com doenças mentais", afirma, encolhendo os ombros. Muito frequentemente passaram pelos serviços sociais quando ainda eram crianças. Os seus problemas psiquiátricos nunca foram devidamente tratados. Automedicaram-se com drogas e já tinham cadastro antes dos 18 anos. "Não têm contas bancárias, não têm onde viver e nunca tiveram um emprego a sério. Quando são libertados, recebem 47,50 libras à sexta-feira e não têm direito a regalias durante dois meses. Passadas duas semanas, estão a roubar e a consumir drogas e voltam lá para dentro."

Atkins diz que não estava mesmo preparado para a quantidade de automutilação que viu entre os presos. Em 2018, em Inglaterra e no País de Gales, os incidentes de automutilação aumentaram cerca de 25 porcento nas prisões, com mais de 55.000 incidentes relatados. Tal como o uso de especiarias nas prisões, é uma tendência que está a aumentar acentuadamente, e que Atkins crê estar relacionada com uma necessidade desesperada dos presos de sentirem que exercem algum tipo de controlo sobre as suas próprias vidas. "Exercemos controlo como podemos e infelizmente isso verifica-se na automutilação." Por outras palavras, um preso jovem e semiletrado com problemas em lidar com a autoridade e ninguém com que o ajude a preencher formulários atrás de formulários sente uma impotência enorme. "Então pensamos: ‘a única coisa que posso fazer é espetar-me com uma lâmina’. Isso suscita uma reação quando mais nada do que fazem suscita uma reação."

Os outros presos, diz Atkins, obcecam com coisas minúsculas que podem controlar. Alguns mantêm as celas inacreditavelmente limpas e arrumadas. Outros passam horas a decidir o que vão pedir para jantar no dia seguinte, examinando os menus que são entregues nas celas, para depois terem um ataque ao descobrirem que aquilo que queriam já está esgotado. Havia quem conseguisse tubos contrabandeados de [tinta] Dulux e pintasse a cela inteira sempre que era mudado. Até o pobre romeno da pornografia estava, de certo modo, a tentar exercer algum controlo. "É uma expressão do eu", diz Atkins, ponderadamente.

Na opinião de Atkins, no centro dos problemas de Wandsworth, e das prisões britânicas em geral, está um total desligamento entre os políticos, as pessoas que dirigem as instituições e as necessidades reais e práticas dos presos. Ele lembra-se de ser arrastado para uma reunião de ideias, na qual a direção da prisão estava a elaborar planos para "novas fontes de rendimentos". Uma das ideias que surgiu foi criar um estúdio de tatuagens em Wandsworth, aberto ao público, gerido por presos, cujas receitas permitiriam a contratação de mais três guardas.

"OK, por onde começamos a tratar de uma coisa destas? Estamos a falar em deixar pessoas lá de fora entrarem numa prisão quando, no estado em que as coisas estão, a minha mãe não consegue passar pela segurança e o rabino é revistado? Os presos não têm papel higiénico, mas vão ser ensinados a fazer tatuagens? Havia uma certa ironia de ‘o rei vai nu’ nisto, porque do ponto de vista dos funcionários, não era do interesse de ninguém dizer ‘Isto é uma palhaçada’, porque iriam meter-se em sarilhos por se manifestarem contra. Então era basicamente eu e meia dúzia de outros presos de colarinho branco e alguns traficantes de droga mais inteligentes, cheios de medo, a pensar: ‘Isto vai tudo pelos ares!" A ideia do estúdio de tatuagens nunca se tornou realidade e, passados nove meses em Wandsworth, Atkins foi transferido para HMP Spring Hill, uma prisão a céu aberto em Oxfordshire. Deixou de escrever o diário quando saiu de Wandsworth e começou a estudar psicologia na Open University. Descobriu que já não era a mesma pessoa moralista e crítica do passado. Ele diz que, em Spring Hill, deu por si num corredor rodeado por homens que tinham cometido homicídio em primeiro grau ou sido condenados por homicídio involuntário. "O homem à minha direita, à minha esquerda e à minha frente – todos tinham matado alguém", diz, rindo-se. "E estavam todos na boa com isso. Eu deixava a porta destrancada. OK, eles tinham sido considerados de baixo risco. Mas aquela ideia de as pessoas serem definidas pelos seus piores atos e de os assassinos poderem andar com machados à procura à sua próxima vítima… Isso afeta-nos muito depressa quando estamos na prisão."

Dois anos e meio depois de a porta de uma cela se fechar atrás de si pela primeira vez, Atkins saiu em liberdade. O filho estava lá para recebê-lo, com um babygrow com padrão de leopardo, e quase o derrubou com a força do seu abraço. "Não saiu de perto de mim. Continua sem sair e já se passou um ano. Quando vou à casa de banho, ele quer vir comigo", diz. "Talvez ele tenha medo de que eu me vá embora outra vez." Ele diz que ficava devastado quando recebia Kit na prisão e os guardas terminavam a visita cinco minutos mais cedo, o que significa que agora nem sequer perde tempo a olhar para o telefone quando está com o filho. "Porque, acredite em mim, seríamos capazes de matar para recuperar esse tempo mais tarde."

Os seus amigos não o abandonaram e fizeram-lhe uma festa no pub no dia em que ele foi libertado. Ele vai a jantares e embora tente não se comportar como "o macaquinho da prisão", tenta que as pessoas se preocupem um pouco mais com aquilo que se passa nas nossas prisões. Conta-lhes sobre os miúdos de 18 anos que se automutilam. Diz-lhes quanto o contribuinte paga por cada prisioneiro do Reino Unido – o segundo valor mais alto da Europa, embora as taxas de reincidência sejam igualmente das mais elevadas. "E quando lhes apresentamos as coisas nesses termos, as pessoas começam a dizer: ‘Bem, isso é um bocado mau.’" Nos dias que correm quando vê alguém a gritar numa esquina, a pedir nos semáforos ou a abordar pessoas na rua, vai ter com essa pessoa e dá-lhe uma libra, algo que teria pânico de fazer antes de ser preso. Também é muito mais pontual agora do que antes, algo que acha estranho, quando pensa bem nisso. "Porque absolutamente nada na prisão acontece a horas."

Por isso, embora, de certas formas, a sua vida tenha voltado ao que era, doutras ele sabe que tal nunca acontecerá. É como estarmos à procura de uma estação de rádio FM e a nossa vida passada ser a estação que queremos encontrar. Insistimos e insistimos, mas não conseguimos encontrá-la. Só mais ou menos", diz, antes de terminar o seu latte e sorrir. "E vai sempre ter ruído."

Exclusivo The Times Magazine/Atlântico Press
Tradução Erica Cunha Alves

Saiba mais Chris Atkins, Worcestershire, Oxford, Londres, Hampstead, Wandsworth, prisão, crime, lei e justiça, Spring Hill
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