Viver

Anos dourados, as festas que ninguém esquece

Tendo como ponto de partida “a maior festa do mundo” dada pelo Xá da Pérsia, em 1971, recordamos as que foram oferecidas por grands seigneurs nos anos 60 e 70, nesta época em que se festeja a passagem do ano. Ao refinamento de antes sobrepôs-se a riqueza, ao chique o novo-riquismo, à imaginação o trivial, à exclusividade a mundanidade e ao bom gosto a quase vulgaridade. As verdadeiras grandes festas esfumaram-se. Mas não na nossa memória.

Foto: IMDb
08 de maio de 2020 | Fernando Sobral

Houve um tempo em que as grandes festas marcaram o ritmo das sociedades. Eram acontecimentos mundanos onde o dinheiro se cruzava com a celebridade, as artes e a política. Onde o poder se olhava ao espelho e gostava do que via. Sabe-se que com suficiente dinheiro todos podem ser o centro das atenções, organizando uma festa em que todos queiram fazer parte da lista de convidados. Mas para uma festa ser verdadeiramente especial tem de atingir algo que o dinheiro não pode comprar: a imortalidade. E essas, imortais porque nunca ninguém as esqueceu, foram acontecimentos do passado. Guardam-se na memória e recordam-se com nostalgia. A crise petrolífera e económica de 1973, a ascensão do terrorismo urbano na Europa com o rapto de políticos e de milionários, a ostentação de riqueza, que deixou de ser um valor positivo, e a própria evolução da sociedade, cada vez mais imediata e materialista, e menos diletante e cultural, alteraram as regras. Tornaram-se um pecado mortal e as grandes festas, outrora visíveis e sinais de riqueza extrema, fecharam as portas aos olhares indiscretos. Envergonharam-se. Continuam a existir, mas são reservadas, como num baile de máscaras, onde as faces se escondem. Por isso resta a nostalgia das grandes festas do passado, daquelas que pareciam destinadas a deuses, num Olimpo onde os comuns mortais apenas podiam imaginar que um dia teriam acesso. Os anos 80 do século XX, aqueles que assistiram à globalização financeira e à nova vida das elites sem fronteiras, criaram também novos pólos de riqueza. A velha elite ocidental continuou a fazer as suas festas, mas foram nações emergentes que tentaram ficar na História, do Dubai ao Uzbequistão. Só que a ostentação não significa requinte. Também isso se perdeu, num mundo que já não quer partilhar com todos os seus prazeres privados. Este é o mundo das públicas virtudes.

Quando nos lembramos de uma das maiores festas que foi realizada pelo Xá da Pérsia, Mohamed Reza Pahlavi, para celebrar os 2.500 anos da monarquia persa criada por Ciro, sente-se que certos tempos ficaram definitivamente para trás. Entre 12 e 16 de Outubro de 1971 concretizou-se esse sonho de uma grandiosidade sem limites. Calcula-se que o orçamento do gigantesco evento, essencialmente centrado em Persépolis, terá custado cerca de 1,5 mil milhões de dólares, o que se estima ter correspondido a dois anos do então orçamento do estado para a Suíça. A revista Life chamou-lhe "A festa do século". A revista alemã Stern apelidou-a de "A mãe de todas as festas", algo que nos lembra outra coisa, mais tenebrosa, como "A mãe de todas as guerras". Há historiadores que consideram que a festa foi o começo do fim do reinado de Reza Pahlavi, derrubado oito anos depois pela também tenebrosa Revolução Iraniana liderada pelo aiatola Khomeini que o Xá havia banido do país. Esta festa foi, assim, a catalisadora de toda uma revolução política que ainda assola dramaticamente o Médio Oriente e, por arrastamento, o resto do mundo. Khomeini classificou-a como "A festa do Demónio" e alertou o mundo para a imoralidade de se gastar milhões de dólares numa festa quando cerca de 50% da então população persa vivia no limiar da pobreza. Phalavi, um autocrata progressista que reinou com mão de ferro, nunca chegou a ser confrontado com o erro que estava a cometer e com o desvario da iniciativa, fazendo-o assemelhar-se à rainha espanhola que perante a revolta do povo por não ter o que comer afirmou que se não tivessem pão que comessem bolos, o que cem anos depois seria atribuído erroneamente a Maria Antonieta, segundo confirmou a grande biógrafa Antonia Fraser. Devido a isso e também por razões de segurança (a hedionda polícia política do Xá, a SAVAK, havia detido quantos eram suspeitos de poder realizar atentados), a rainha Isabel II não compareceu (foi avisada também que o evento seria de um extremo mau gosto), fazendo-se representar pelo marido e pela filha, e o Presidente Richard Nixon enviou o vice-presidente Spiro Agnew em seu lugar. Mas no banquete estiveram presentes personalidades como o imperador da Etiópia, Hailé Selassié, Grace Kelly e Rainier do Mónaco, Imelda Marcos das Filipinas, Tito da Jugoslávia, o rei Hussein da Jordânia, entre cabeças coroadas, chefes de estado, sultões, emires, príncipes herdeiros e políticos de todos os continentes.

O 25 000º aniversário da Pérsia organizado pelo Xá do Irão em Persépolis, 1971
O 25 000º aniversário da Pérsia organizado pelo Xá do Irão em Persépolis, 1971 Foto: Getty Images

A pressão para que tudo corresse na perfeição perante os olhos do mundo (as festividades, que incluíram um impressionante desfile histórico com mil militares envergando vestes antigas junto às ruínas do túmulo de Ciro e um fogo-de-artifício final, foram transmitidas televisivamente por via satélite) era tal que o ministro da Corte disse aos organizadores da festa: "Se o trabalho não ficar concluído fuzilo-vos e depois suicido-me!" O devaneio chegou ao ponto de o terreno desértico onde decorreram as festividades ter sido expurgado de incontáveis escorpiões e víboras (o que hoje é visto como um atentado ecológico) e transformado num oásis artificial abastecido com condutas de água, florestado com 15 mil árvores provenientes dos bosques de Versailles, e coberto, em parte, de relva natural europeia que era regada diariamente. Foram importados 50 mil pássaros, oriundos sobretudo de Espanha, para dar um ar vivo ao "oásis", mas as aves não resistiram por mais de três dias devido ao calor e à falta de bebedouros. A alucinação chegou ao ponto de um helicóptero ter transportado diariamente um bloco de gelo (do tamanho de um carro) para ser servido nas bebidas e utilizado nos frappés para vinho branco e champanhe. Foi construída uma auto-estrada para ligar o aeroporto ao local da festa e adquirida uma frota de 250 limusinas para transportar os convidados. Os 180 criados de mesa foram contratados nos melhores hotéis da Suíça. Durante a festa, o chefe dos mesmos desmaiou devido ao stress e a temperatura era tão elevada na cozinha que quase toda a equipa trabalhou praticamente despida. Os convidados jantaram sentados a uma mesa serpenteante de 70 metros. E inesperadamente a Natureza pregou uma partida. Para desconforto de Reza Pahlavi e da terceira mulher, a Imperatriz Farah Diba, na primeira noite a fila de convidados era tão longa e demorada que muitos dos convidados ainda estavam no exterior da tenda principal quando uma tempestade de areia imprevista assolou o local fazendo perigar a beleza dos penteados das senhoras e a fixação das tiaras. A ementa era sublime e a preparação da complexa culinária começara um ano antes, em 1970. Na altura, a organização pediu a Louis Vaudable, o proprietário do Maxim’s, em Paris, para gerir as festividades. Nesses dias, o Maxim’s era considerado o melhor restaurante do mundo e teve de fechar durante duas semanas, antes da festa, para confeccionar tudo. Nela foram consumidas 25 mil garrafas de vinho e 5 mil de champanhe, sendo servido um dos mais soberbos vinhos do mundo, um Château Lafite Rothschild, vintage 1945. Um dos escanções teve de testar todos os vinhos por causa de eventuais tentativas de envenenamento e do eventual sabor a rolha.
Havia muitas mulheres bonitas, mas quem lá esteve garante que os homens queriam era falar com o Xá do Irão para tentar ter acesso ao petróleo persa. Foi uma festa como jamais fora vista. Todos os produtos foram importados, excepto o caviar que sempre foi um símbolo do Irão. As 50 "tendas" que serviram de albergue aos convidados mais não eram do que bonitos apartamentos pré-construídos revestidos a pano, os quais estavam dotados de ar condicionado, de telefone, de fax, de televisão, de rádio e de casas de banho com as melhores porcelanas do planeta. Farah Diba escreveu nas suas memórias, 33 anos depois, que a família real tinha de provar ao mundo que aquele era o momento do "renascer da civilização iraniana". O Xá mandou contratar arquitectos e decoradores franceses para desenhar e construir as "tendas" para os convidados, as quais ficavam junto às ruínas do túmulo de Ciro. A tenda principal que serviu o banquete, de 68 metros por 24 metros, demorou um ano a construir numa pista para aviões desactivada, nos arredores de Paris, e utilizou 37 quilómetros de seda. Ainda hoje existe a estrutura metálica dessa tenda. No vídeo oficial, para o qual foi recrutada uma equipa de técnicos de Hollywood, o narrador, nem mais nem menos do que Orson Welles, declarou: "Esta não foi a festa do ano. Foi a celebração de 25 séculos." Welles assegurou que não haveria um 26.º século para haver uma comemoração assim. No fundo, estávamos perante um momento mágico, uma espécie de As Mil e Uma Noites realizadas em poucos dias. Só que no final, após a visualização do vídeo, o Xá perguntou, perplexo: "Onde é que estão os iranianos?" Em lado nenhum. A verdade, nua e crua, é que o povo fora esquecido porque a festa, afinal, tinha sido oferecida a estrangeiros.

Truman Capote e Katherine Graham no Black and White Ball, 1966
Truman Capote e Katherine Graham no Black and White Ball, 1966 Foto: Getty Images

Mas outras festas ficaram para a posteridade. Uma das mais famosas foi a do Black and White Ball, realizada no Plaza Hotel de Nova Iorque, a 28 de Novembro de 1966. Foi organizada pelo escritor Truman Capote em honra de Katharine Graham, a qual tinha tomado o rumo do The Washington Post (e que seria determinante durante os dias do escândalo Watergate). Serviu para cumprir um velho sonho de Capote e para apresentar a herdeira Graham aos glitterati. O que a tornou tão especial é que nela se cruzaram algumas das personagens mais importantes de diferentes sectores da sociedade americana e internacional. Todos desejavam fazer parte da lista dos importantes eleitos e os que não foram seleccionados decidiram partir em viagem como álibi por não estarem presentes. Não contava quem iria, mas sim quem não estaria lá. Um grupo tão selecto é o dos participantes noutra festa que ficou na História, o Surrealist Ball, organizado pelos Barões Guy e Marie-Hélène de Rothschild, em 1972, no seu Chateau Ferrières que ficava perto de Paris. Entre outros convivas, Salvador Dalí e Audrey Hepburn degustaram pratos comestíveis. Os empregados estavam vestidos como gatos e os convidados tiveram de atravessar as salas através de tiras de tecido elaboradas como se fossem teias de aranha. Foram também convidados os Duques Jaime e Claudine de Cadaval. Era um tempo em que se tentava recuperar o valor simbólico de grandes festas da Antiguidade, inspiradoras destes momentos selectos, como a do Simpósio, em Atenas, que se terá realizado no ano 416 antes de Cristo. Para os gregos antigos, esta era uma festa de bebidas, acompanhada de comida, de músicos, de dançarinos e de boa conversa. Lá terão estado Sócrates, Aristófanes e outros notáveis atenienses. Na memória colectiva ficara também a de um baile de sociedade organizado em honra da Duquesa de Richmond, em 15 de Junho de 1815. Notícias chegadas de um súbito avanço das tropas de Napoleão interromperam as festividades, mas o Duque de Wellington permaneceu para terminar o jantar. Ficou acompanhado por vários oficiais que, de traje de gala, seguiram na manhã seguinte directamente para a batalha de Quatre Bras, anterior à de Waterloo. Os Rothschild tinham bem presente esse passado eloquente. E queriam ficar, também eles, na História. O convite para o jantar de todos os "surrealistas" tinha de ser lido num espelho, tal como faria René Magritte. Estavam presentes pouco mais de duas centenas de convidados íntimos do Barão e da Baronesa de Rothschild. As más-línguas disseram que uma festa tão extravagante tinha a ver com as dificuldades do Barão de Rothschild que, assim, tentava criar a ilusão de estabilidade financeira. Mas os críticos eram aqueles que não tinham sido convidados. Esta é uma das questões centrais: quem fica de fora destas festas selectas sente que não faz parte do círculo mais íntimo do poder. E sente inveja. Salvador Dalí chegou escoltado pela sua musa, Amanda. Disse: "Eu não preciso de uma máscara. A minha face é uma máscara!" O dress code exigia smoking para os homens, vestidos compridos para as senhoras e cabeças ornamentadas de inspiração surrealista para todos, inclusive para os anfitriões. Muitos vinham disfarçados com os rostos pintados de modo a evocar obras surrealistas, já que a festa tinha em Magritte e em Dalí a fonte de inspiração para o tema. Um convidado disse que, felizmente, "a comida não era surrealista".

Anne Hathaway e Valentino Garavani no White Fairy Tale Love Ball em 2011
Anne Hathaway e Valentino Garavani no White Fairy Tale Love Ball em 2011 Foto: Getty Images

No ano anterior, Marie-Hélène de Rothschild tinha organizado o Proust Ball em honra do centésimo aniversário do nascimento de Marcel Proust. Entre os 350 convidados estiveram Grace do Mónaco, Audrey Hepburn e o casal Elizabeth Taylor e Richard Burton. Outras festas ficaram também na memória, como a do 40.º aniversário de Taylor, em 1972, organizada por Richard Burton, na qual este ofereceu à actriz o célebre diamante Taj Mahal, ou a Festa Tommy, em louvor do filme Tommy, de Ken Russell, que se realizou na nova estação de metropolitano da 57.ª Rua de Nova Iorque. Ali estava um outro tipo de estrelas: Elton John, Ann-Margaret, Jack Nicholson, Andy Warhol, Pete Townshend ou Lauren Bacall. Grandiosa foi, até por ser a de um presidente, a que foi organizada para a tomada de posse de Ronald Reagan, em 1981, onde as luzes de laser cruzavam o número de comediantes que nela participaram. Mais recentemente, em 2011, Valentino Garavani organizou o White Fairy Tale Love Ball, no Castelo de Wideville, nos arredores de Paris, que em tempos remotos era a casa das amantes de Luís XIV. Ali estiveram Anne Hathaway, Olivia Palermo ou Natália Vodianova. A Vanity Fair americana, há algum tempo, incluiu na sua lista das 25 melhores festas a dos 70 anos do milionário Malcolm Forbes, no Palácio Mendoub, em Tânger, em 1989; a dos 30 anos de Mick Jagger, em 1972, organizada por Ahmet e Mica Ertegun, em St. Regis; o Red Ball dado pelo bon vivant brasileiro Nelson Seabra para comemorar os seus 60 anos, no Laurent, em Paris, em 1979; ou o jantar oferecido ao ministro da Cultura André Malraux, em 1962, por John F. Kennedy e a mulher, Jacqueline Bouvier, na Casa Branca. As grandes festas ainda existem e estão mais recatadas. Mas já não têm a grandiosidade, a invejada exclusividade, o toque de classe e o requinte das antigas. Nesta perspectiva, poderemos comparar as festas dadas por Roman Abramovich com as oferecidas pelos Barões de Rothschild? Cremos que não. Hoje as festas vivem à custa do dinheiro fresco, de celebridades do jet set, das figuras de proa da moda, do desporto e do mundo do espectáculo. Nem as galas do Met se lhes assemelham. Muita da opulência e do deslumbramento das antigas festas se deve à imaginação delirante da dupla de decoradores de interiores franceses Valerian S. Rybar e Jean-François Daigre que contava entre os seus clientes Guy e Marie-Hélène de Rothschild, Nicholas e Genevieve DuPont, Antenor e Beatriz Patiño, Samuel e Mitzi Newhouse, Pierre e Maria da Conceição Schlumberger, Sir James Goldsmith, Christina Onassis e Stavros Niarchos. Só que a pressão da opinião pública, que em tempos de austeridade e de crise económica convive menos bem com a sumptuosidade desses eventos, fez do recato uma melhor opção para as festas privadas. Salvaram-se as públicas virtudes. Mas também deixámos de ter eventos que perdurem na memória.

 



Saiba mais festas, ricos, realeza, anos 60, anos 70
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