Estilo / Beleza & Bem-Estar

Querida, passas-me a máscara de pestanas?

Com grandes marcas a lançarem linhas de maquilhagem masculina para o mercado e as fronteiras de género a esbaterem-se, homem que é homem pode usar maquilhagem sem borrar a pintura? Fomos saber. 

Foto: instagram @ themarcjacobs
27 de outubro de 2019 | Sara Arruda

Maquilhagem para homens, sim ou não? Lançámos a pergunta assim sem primer num grupo de whatsapp de mulheres dos 25 aos 32 anos. "Depende do que for, mas não acho mau", responde a primeira. "Preencher as sobrancelhas, usar um iluminador aqui e ali, um bronzer. O Phillip Picardi [diretor da Out Magazine] usa e mal se nota." Então e se fosse o teu namorado, inquirimos. "Se fosse um CC cream com cor ou mesmo um corretor não me causaria espécie. [pausa] Acho eu." "Eu acho sempre que se nota. E nos homens, não sendo essa a ideia, acho que via mal", diz outra. Então achas que só as mulheres têm direito a usar maquilhagem, provocamos. "Não. Acho que a maquilhagem é para quem queira, mas se a ideia é não se notar acho que não faz sentido. Se o João quisesse usar não seria 100% fã, porque eu gosto de homens mais naturais, barbudos, etc. Mas o Phillip Picardi fica lindo e maquilha-se super bem." Ah, então a questão reside na orientação sexual? "No homem comum hetero não gosto, e se usar acho importante que se mantenha natural." "Pergunta difícil", intervém uma terceira. "Racionalmente, posso dizer que está tudo bem e que se maquilhem à vontade. O problema é que os padrões de beleza já foram moldados pela nossa cultura, logo, se me perguntares se gostava de ver o meu namorado com base vou-te dizer que não. Porque, para mim, um homem é bonito por ter a pele mais áspera, rugas de expressão, olheiras, são tudo coisas que eu gosto. Mas lá está, talvez só gosto porque cresci com essa referência". E ficámos horas a debater o assunto. Não, nem por isso. É que ao que parece este é um tema preto no branco, assinalar com uma cruzinha e já está, opinião formada, e nem neste meu grupo de amigas que são uma mistura de Girls com Sex and The City versão millennial encontrei abertura para ver o mundo com todas as cores de uma paleta da Huda Beauty. Mas, como dizem, quem procura acha. Foi só abrir o Instagram e o meu feed chamou-me a atenção uma sombra prateada repousada nos olhos de... um homem. 

A MMUK é o nome a decorar dentro do universo de maquilhagem masculina. Com bases, loções bronzeadoras, corretores, eyeliners, sombras e máscaras de pestanas, é só dizer o nome de um produto que a marca com certeza já o criou. Todos para homem.
A MMUK é o nome a decorar dentro do universo de maquilhagem masculina. Com bases, loções bronzeadoras, corretores, eyeliners, sombras e máscaras de pestanas, é só dizer o nome de um produto que a marca com certeza já o criou. Todos para homem.

Mário de Carvalhostylist, viu na prateleira de produtos da mãe a primeira oportunidade para brincar com os chamativos pós de perlimpimpim. "Sou filho de uma mulher vaidosa, cheia de brio nela própria. Talvez das primeiras memórias que tenha da minha mãe, seja ela a maquilhar-se de forma exímia para ir para o trabalho.", diz o stylist que, apesar de não se maquilhar durante o dia-a-dia, criou quase uma imagem de marca quando se apresenta em eventos e trabalho, na qual a maquilhagem é peça-chave. Para além de evidenciar sempre as maçãs do rosto, maquilha sempre a linha de água dos olhos da mesma cor de algum detalhe da roupa. Dourado, azul, rosa - sim, os meninos também usam rosa, até porque "faz-me sentido, enquanto feminista, assumir a posição de que a maquilhagem é algo sem género atribuído", defende. "Por sorte (quase) todos os comentários que ouço sempre que apareço maquilhado - e nunca faço por ser discreto - são sempre positivos e motivadores. Claro que também existem os depreciativos, de dedo apontado, na rua que dizem "olha o gay". Mas eu jamais me poderei sentir ofendido com isso, como as pessoas pensam que me posso sentir. Se alguém me chama "gay" não me está a ofender. Está a constatar um facto. Mesmo que não o entenda. Acho que o caminho não se faz pela aceitação da diferença, mas sim por fazer dela um lugar comum. É a diferença que nos une, porque todos somos diferentes uns dos outros." E na última edição dos Globos de Ouro, marcou pela diferença e criou a sua versão de um de conto de fadas. No "sítio perfeito para sermos quem queremos ser", fez um remake à sua maneira de um príncipe da Disney e cobriu a linha das pestanas, cabelo e pontas dos dedos de um prateado tão reluzente quanto um sapatinho de cristal. Nos tags uma pista sobre quem poderia ser a fada madrinha. E foi só seguir as migalhas para darmos com a casa feita de açúcar que é o Dez Studio, uma espécie de unicórnio da Beleza em Lisboa, que trabalha com maquilhagem e unhas e se afirma sem género e sem preconceitos. 

Boy, de Chanel, tem um pouco de tudo: desde bases com fator de proteção solar a pincéis para sobrancelhas e ainda um bálsamo labial. É a epítome do luxo francês ao serviço da beleza masculina e um dos lançamentos mais comentados - e aplaudidos - do ano.
Boy, de Chanel, tem um pouco de tudo: desde bases com fator de proteção solar a pincéis para sobrancelhas e ainda um bálsamo labial. É a epítome do luxo francês ao serviço da beleza masculina e um dos lançamentos mais comentados - e aplaudidos - do ano.

Basta ver a sua lista de clientes para perceber que não é uma estratégia de marketing, como as há agora, baseadas no conceito de inclusão. E basta também falar alguns minutos com Sandra Luz, a sua fundadora, para ter a confirmação de que a maquilhagem já não é só um interesse das mulheres. Mesmo que se faça a camada a camada, com aquelas bases muuuito levezinhas, que parece que não fazem nada mas estão lá. Aterrada há 15 anos no universo da Beleza, de cliente a dona de um salão, Sandra diz que ainda existem muitos estigmas quando as coisas que são vistas como sendo do universo feminino são apropriadas pelo masculino, mas que "o português procura muito as tendências, tem uma necessidade de pertença muito grande e que a partir do momento em que algumas figuras começam a usar determinada coisa há mais abertura". Há esperança - mas sempre com um delay de 2 ou 3 anos, garante. "Temos tendência a criticar tudo o que foge do nosso lugar de controlo, tudo o que é estranho ao ser e estar assusta-nos", e aqui entra a maquilhagem. Diz que apesar de tradicionalistas, já a procuram alguns homens para fazer manicura ou para usarem maquilhagem para algum evento. Ainda assim, são os homens estrangeiros que mais marcam hora no salão e até já chegou a receber casais para uma mani-pedi em conjunto. Também aposta as suas fichas numa geração mais jovem, que com o mundo na palma da mão, está a trazer ao ‘macho latino’ uma nova forma de se comportar. Mas "ainda não temos abertura suficiente enquanto sociedade para aceitar um homem que se maquilha" e por isso as escolhas de maquilhagem masculinas estão voltadas para algo que traga algum tipo de melhorias, mas que não se note assim tanto. "É por isso que acho que temos de fazer um statement em relação às coisas e que o Dez Studio se afirma como um espaço que não julga e nem aceita quem julga. É por isso que faz sentido ter alguém como a Lola [Drag Queen portuguesa] para representar o que é o Dez Studio e ajudar a quebrar estigmas. Não faz sentido ter uma empresa e não ter uma opinião sobre o que se passa à minha volta e ajudar a comunicar isso a outras pessoas."

Hoje em dia uma marca não é nada sem uma identidade (e sem fazer um bocadinho a vontade ao consumidor). Assim, mudam-se os tempos, acrescentam-se linhas de maquilhagem masculina às gamas tradicionais das marcas. Parece uma grande novidade, sabemos, mas a verdade é que os homens não são uns estranhos à maquilhagem. Alexandre o Grande e Louis XIII eram fãs de produtos para o rosto e perucas (já depois de os egípcios terem sido pioneiros na arte do smokey eye), até alguém, algures pelo século XIX, ter decidido que já não os favorecia. Quando surgiram estrelas como Bowie e Prince, o verniz estalou, mas foi-lhes dada a ‘desculpa’ de estarem em cima de um palco e seguimos todos em frente (não é como se os maridos fossem usar aqueles looks para ir trabalhar, não é mesmo?). Agora, já não é possível atirar a maquilhagem para debaixo do tapete: depois de marcas como Chanel,  Marc Jacobs e Tom Ford lançarem coleções de maquilhagem masculina, os canais de Youtube de James Charles e Patrick Starrr se terem tornado virais e David Beckham aparecer na capa da Love com uma belíssima sombra verde nos olhos, fica difícil arranjar um desmaquilhante que retire a hipótese de a makeup para homens ser uma realidade. 

Tom Ford sempre gostou de estar à frente do seu tempo e a linha de beleza pensada para homem é prova disso. Foi um dos primeiros designers a criar corretores, géis para sobrancelhas e fluídos bronzeadores pensados para o género masculino.
Tom Ford sempre gostou de estar à frente do seu tempo e a linha de beleza pensada para homem é prova disso. Foi um dos primeiros designers a criar corretores, géis para sobrancelhas e fluídos bronzeadores pensados para o género masculino.

"Recebo muitos pedidos de homens a perguntar como podem, também, beneficiar do poder que os cuidados de rosto e os produtos de maquilhagem têm para oferecer", escreveu a maquilhadora Charlotte Tilbury no seu site, acompanhado de um tutorial de maquilhagem para o seu público masculino, que pretende demonstrar aos homens como usar a maquilhagem para se energizarem depois de uma noite longa ou dar um "up" à pele. "Se uma mulher pode tapar olheiras e borbulhas, porque é que um homem não pode?", questiona a maquilhadora portuguesa Inês Aguiar, que depois de maquilhar os rostos de quase todas as celebridades e noivas nacionais, começa a receber pedidos para homens. Os seus produtos de eleição anti-masculinidade tóxicaPrimer e corretor de olheiras. "Depois do skincare, o primer tonifica a pele e matifica, o que, para os homens que não têm muitos cuidados com a pele e têm tendência a ficar mais oleosos, é um life saver. E o corretor, para corrigir levemente qualquer imperfeição mais visível", explica, caso queiram seguir este mini tutorial por vossa conta. Sobre a maquilhagem masculina, diz que nunca a viu com maus olhos e não percebe de onde surge o estigma, até porque há centenas de anos os homens da realeza usavam tanta maquilhagem quanto as mulheres. "Isto é uma coisa de sociedade moderna que todos aceita, mas na prática todos julga", opina. "Eu adoro maquilhagem e acredito que é uma forma de expressão, tal como a roupa que vestimos. A meu ver, um homem não perde a masculinidade se usar maquilhagem (ainda estou à espera de conhecer uma mulher e um homem que não gostem de ver o Johnny Depp com lápis preto nos olhos). Já chega destes preconceitos tontos, a maquilhagem é divertida e pode fazer-nos sentir muito melhor num dia mais down. Então, porque não ser usada por todos?"  

Johnny Depp na campanha do perfume Sauvage, da Dior
Johnny Depp na campanha do perfume Sauvage, da Dior Foto: Instagram @ diorparfums

 

 

Saiba mais maquilhagem, homens, beleza
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