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Trump Shuttle, a companhia aérea falhada que tinha mármore falso, cocktails e carpetes em pelo

Trump prometeu criar “o melhor sistema de transporte de qualquer tipo em todo o mundo”. Por Oliver Smith, editor online de viagens no The Telegraph

13 de novembro de 2020

As declarações de impostos de Donald Trump revelaram que os seus negócios não foram assim tão bem sucedidos quanto ele nos queria fazer crer. O presidente norte-americano não pagou qualquer imposto federal sobre os rendimentos em 10 dos últimos 15 anos, segundo o The New York Times. E isso deve-se, em grande medida, ao facto de ter declarado prejuízos substanciais das suas empresas – os quais, segundo diz, ultrapassaram o seu rendimento. Além disso, os três campos de golfe de que é dono reportaram perdas de 63,6 milhões de dólares entre 2010 e 2018.

Nada disto constitui grande surpresa para quem quer que tenha olhado – mesmo que apenas de relance – para o seu catálogo de empresas, pois Trump não é alheio a falências. Ao longo dos anos, ele lançou uma série de negócios dúbios, incluindo (mas não se limitando a isso) a GoTrump.com (um motor de buscas de viagens), a Trump Ice (água de nascente), Trump Steaks e Trump Vodka. Até houve a Trump: The Game, a sua tentativa de resposta ao jogo do Monopólio.

Trump tentou também meter um pé no ramo da aviação. Na década de 1980, a Pan Am e a Eastern Air Lines geriam serviços rentáveis de ponte aérea de baixo custo ao longo da costa leste dos Estados Unidos. No entanto, quando a Eastern Air Lines se viu em dificuldades financeiras, no final dessa década, e pensou abandonar algumas dessas rotas, Trump viu nisso uma oportunidade.

Trump adquiriu rapidamente uma frota de 21 aviões "veteranos" [a sua idade média era de 25 anos] Boeing 727 à companhia aérea em apuros, a par com muito do seu pessoal insatisfeito, e assumiu duas rotas que ligavam Nova Iorque a Boston e a Washington D.C.

A Trump Shuttle foi lançada em 1988, com o compromisso de criar "o melhor sistema de transporte de qualquer tipo em todo o mundo".

Ao passo que os serviços de "vaivém" da Eastern Air Lines eram descaradamente de baixo custo – os passageiros regulares chamavam ao seu transporte "vagão do gado" –, Trump queria oferecer luxo. Ele dizia querer transformar a companhia aérea num "diamante nos céus". Por isso, naturalmente, aqueles aviões precisavam de uma mudança de visual ao estilo de Trump. Quem quer que tenha pernoitado num dos seus ostentosos hotéis sabe o que isso significa.

"Pegámos nos velhos 727 e gastámos imenso dinheiro a descascá-los até se ver toda a estrutura e a reequipá-los com cintos de segurança cromados, acabamentos em madeira de ácer e casas de banho com imitação de mármore [a pedra mármore verdadeira tornaria o avião muito pesado]", contou ao The Globe and Mail, numa entrevista em 2011, Bruce Nobles, ex-executivo da Pan Am e presidente da Trump Shuttle entre outubro de 1988 e junho de 1990. "Foi um problema: gastou-se demasiado dinheiro nos aviões".

Nobles diz que Trump pagou 365 milhões de dólares nos aviões e nos slots aeroportuários [faixas horárias para descolagem e aterragem], tendo-se financiado em 380 milhões de dólares junto de um consórcio de bancos e investido 20 milhões do seu próprio bolso. Contudo, a venda demorou meses a receber aprovação, pelo que os primeiros voos só arrancaram a 8 de junho de 1989. Os serviços inaugurais apresentaram-se com toda a ostentação que seria de esperar – com quartetos de cordas e champanhe a rodos –, se bem que o mau tempo tenha obrigado a que o primeiro voo para Boston saísses com 45 minutos de atraso, tendo levado a que todos gozassem com a publicidade de página inteira colocada por Trump nos jornais a prometer pontualidade ("7:00 da manhã não são 7:01 da manhã", diziam esses anúncios).

Ao descrever à revista CN Traveller a sua experiência a bordo, Barbara Peterson – colunista daquela seção de viagens e aviação da Condé Naste – escreveu: "Viajei algumas vezes na Trump Shuttle nos últimos dias e os voos foram, em si, perfeitamente agradáveis. Nas zonas das portas de entrada para os voos, que mais parecem salas de estar, podemos levar gratuitamente um jornal ou um snack; a bordo, há pequeno-almoço com pãezinhos pela manhã, sendo mais tarde distribuídos cocktails de cortesia com refeições embaladas. Mas aquilo de que me recordo de uma viagem de Washington D.C. para Nova Iorque foi que estava ainda a começar a saborear a minha salada de frango com molho césar, acompanhada por um chardonnay, quando se ouviu uma voz do cockpit dizendo ‘preparar para a aterragem’. A realidade afinal não tão glamorosa é que se tratava de um voo de 45 minutos, e que cerca de 20 desses minutos foram passados entre o sobe e desce da altitude de cruzeiro. O serviço era requintado, sim, mas foi como ter o catering do 21 Club [famoso restaurante de Nova Iorque que é ponto de encontro de muitas celebridades] numa viagem de autocarro da [empresa rodoviária] Greyhound".

Mesmo as assistentes de bordo usavam elegantes uniformes novos e colares de pérolas de imitação. No entanto, outras inovações não funcionaram, como os espelhos de alto a baixo nas casas de banho (demasiado pesados), as carpetes de pelúcia (os carrinhos das bebidas não rolavam bem nessa superfície) e a revista de bordo (que era toda acerca de Donald Trump).

A insistência publicitária pareceu funcionar. A Trump Shuttle conseguiu uma razoável quota de mercado (a Pan Am disse ser de 40%: Trump falou em 50%) e nem mesmo uma falha num trem de aterragem num voo para Boston, que levou o avião a aterrar por entre uma chuva de faíscas, demoveu os passageiros. No entanto, lutou para prosperar num contexto económico complicado; e os constantes voos de 45 minutos, em aviões velhos, eram dispendiosos em termos de combustível, manutenção e taxas aeroportuárias. Basicamente, era tudo com muito estilo mas sem substância.

Trump culpou Nobles, dispensando-o em junho de 1990, e criou uma nova estratégia. "A Trump Shuttle é um sucesso estético", disse nessa altura aos meios de comunicação social. "Será um sucesso financeiro, mas de momento estou preocupado com as pessoas que estão à frente da companhia".

Numa tentativa de mudar a sorte da empresa, a nova equipa de gestão planeou oferecer serviços de lazer para o México, Caraíbas e Atlantic City, dando aos passageiros um pouco mais de tempo para desfrutarem das suas saladas césar, mas já era demasiado tarde. Trump falhou um pagamento de juros no valor de 1,1 milhões de dólares em setembro de 1990, o seu crédito entrou em incumprimento e a propriedade da companhia aérea foi transferida para os bancos, que acabaram por a vender ao US Air Group.

"Funcionou bem para mim" – foi esta a avaliação feita por Trump numa entrevista à The Street. "Geri uma companhia aérea durante uns anos [três] e ganhei alguns dólares [outros há que estimam que a transportadora tenha tido prejuízos de 128 milhões de dólares]. O negócio das companhias aéreas é duro, [mas] saí-me muito bem".

Créditos: Oliver Smith/The Telegraph/Atlântico Press

Tradução: Carla Pedro

Saiba mais Donald Trump, Trump Shuttle, The New York Times, Nova Iorque, Washington, economia (geral), grandes empresas, política, aviação
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