Viver

Os homens são mais vaidosos?

Estão um pouco por toda a parte. Musculadíssimos, nos reflexos dos espelhos dos ginásios. Penteadíssimos, nas barbearias de inspiração vintage. Elegantíssimos, nos provadores das lojas mais exclusivas. Eles andam aí e não brincam em serviço: sem um cabelo fora do sítio ou um vinco na camisa, nunca o homem foi tão vaidoso.

Foto: Instagram @tomford
25 de novembro de 2019 | Pureza Fleming

Um destes dias passei a tarde nas compras com o meu filho de 15 anos. Uma façanha que não se repetia desde.... Diria que desde nunca. Até há bem pouco tempo, cabia-me a tarefa de lhe comprar roupa. Eu escolhia-a e ele limitava-se a vesti-la. Esses tempos acabaram. O meu filho é um virginiano de signo, muito intelectual e ultrarracional, que sabe exatamente o que quer (e como quer). E o mesmo se aplica à roupa que veste. Tem de ser aquela T-shirt preta com aqueles jeans pretos (no que respeita a escolha da cor saiu à mãe). O cabelo, corta-o de tempos a tempos (quase calculados metodicamente) na mesma barbearia vintage, já que só ali sabem cortar precisamente como ele gosta. Há dias confidenciava-me que precisava de falar comigo. O tom sério deixou-me apreensiva. Afinal, o que ele queria era apenas que lhe comprasse uma embalagem daqueles adesivos para o nariz destinados a tirar os pontos pretos. A cereja no topo destes comportamentos é que o meu filho não é propriamente um rapaz vaidoso, ou sequer alguém que ligue muito às questões da imagem. Para ele, a imagem não é mais do que uma extensão da sua vincada personalidade e ele faz questão de lhe fazer justiça.

Eu acho muita graça a estes hábitos do meu filho? talvez porque seja meu filho e os pais tendem a "achar muita graça" a tudo o que estes fazem. Mas o mesmo encanto não aplico aos homens com quem me relaciono. Houve, inclusivamente, um namorado com quem terminei ao final de escassos meses porque me enervava o facto de demorar horas na casa de banho? entre os mil cremes que aplicava e o tempo que demorava a secar o cabelo? e ainda mais o facto de usar cosméticos de marcas melhores do que as minhas. Resumindo, ele era um dito metrossexual e eu gosto de homens que aparentem aquele look "I don’t give a shit" que traduzido à letra significa que saem à rua com o mesmo ar com que se levantaram da cama? ainda bem que gostos não se discutem. A este propósito, esmiuçava o jornalista especializado em male grooming, Lee Kynaston, no The Guardian: "É interessante constatar como muitas das críticas sobre os hábitos de higiene masculinos não vêm de homens ‘retrossexuais’, que veem isso como uma afronta à masculinidade (não o é), mas das mulheres. Não sei dizer quantas vezes fui abordado por jornalistas do sexo feminino questionando se eu gostaria de comentar sobre o fenómeno ‘Os homens são mais vaidosos do que as mulheres’. Eu recuso-me sempre a falar, porque: 1) Eu acho que colocar os sexos um contra o outro dessa maneira é preocupante; 2) As mulheres não têm, e nunca tiveram, o monopólio da vaidade; e 3) O que há de tão errado com um pouco de vaidade?" Além disso e se recuarmos um pouco na história, constatamos que o termo narcisista tem o nome de Narciso, um homem (um HOMEM) que se apaixonou pelo seu próprio reflexo na água. Ou seja, foram os homens que inventaram a vaidade.

Se dúvidas houvesse, temos sempre os factuais números que o confirmam. Um estudo realizado em 2016 descobriu que os homens colocam a imagem corporal em segundo lugar de importância quando questionados acerca da satisfação com a sua vida (superado apenas pelo sucesso financeiro que arrecadou o primeiro lugar). As mulheres, por outro lado, classificaram a imagem corporal em terceiro lugar (depois da estabilidade financeira e da satisfação com o parceiro romântico). David Frederick, autor do estudo e professor de psicologia na Universidade de Chapman, concluiu que "os sentimentos dos homens e das mulheres em relação ao seu peso e à sua aparência desempenham um papel fulcral quando o assunto é o nível de satisfação com a vida, no geral". Arrematou que "poucos homens (24%) e mulheres (20%) se sentiam muito satisfeitos com o seu peso e que apenas metade se sentia extremamente satisfeita".

A nível nacional e para surpresa de muitos, já que o homem português continua a carregar o título de macho latino e "macho que é macho não liga a essas coisas da imagem", a teoria da vaidade mantém-se. "O cliente masculino é cada vez mais importante e relevante. É um mercado que tem crescido em double digit todos os anos", confidencia à Must Vânia Gregório, retail brand manager da Kiehl’s, uma marca de cosmética unissexo que faz parte do grupo L’Oréal. Acrescenta que o boom da procura masculina por cuidados de higiene e de beleza começou por ser mais representativo nos últimos três ou quatro anos. E admite que conquistar os homens é mais difícil, mas que uma vez atingidos, estes são muito mais fiéis ? e agora poderia iniciar toda uma dissertação em torno do tema que casa homens e fidelidade, mas não vamos por aí. O que nos interessa saber é como são fiéis os homens aos produtos que escolhem para si próprios. E como são práticos, já que uma vez identificado o que gostam, não se consomem a procurar mais. "Dez por cento da nossa base de dados [da Kiehl’s] são homens. O que parece pouco. Acontece que em compras os homens representam o dobro. São menos, mas compram mais. Porque são leais. Perdemos muito mais senhoras do que homens", confirma a marketeer. Quando questiono o porquê desta situação de fidelidade masculina (além do óbvio facto de que, na sua grande maioria, os homens são mais descomplicados do que as mulheres), Vânia aponta a abordagem da marca: "A Kiehl’s não é hard selling. Não impingimos nada nem sequer sugerimos. E eles gostam disso. O facto de darmos amostras é algo que também ajuda a recrutar imensos clientes. Eles adoram experimentar antes o produto e o retorno é quase sempre garantido." A praticidade tão típica masculina fala mais alto do que a vaidade? Talvez. Além de fiéis, Vânia Gregório relata que, uma vez satisfeitos, estes homens não levam só um produto no ato da compra, mas sim a rotina inteira ? desde a limpeza ao aftershave. E again, a tal praticidade e descomplicação que tão bem os caracteriza.

Digamos que estamos perante um homem mais preocupado com a sua imagem, mas também um homem cuja mulher também está mais interessada na aparência da sua "cara-metade" (e eu talvez seja a tal exceção à regra quando digo que não gosto deles demasiado aprumados). "Muitas vezes, os homens aparecem nas nossas lojas com um papel impresso pela mulher com a imagem do produto (ou dos produtos) que estes deverão comprar [risos]", continua a responsável de marketing da Kiehl’s. Os factos estão à vista e se dúvidas ainda houvesse, os números confirmam. De acordo com uma notícia publicada no site Mr. Porter, estima-se que a indústria de higiene masculina representa hoje cerca de 17 mil milhões de euros, globalmente, com o cabelo a simbolizar a maior parte da fatia. Especialistas em grooming consentem: os britânicos preocupam-se com o cabelo mais do que nunca. E voltam a trazer para o topo da mesa esta vanity affair: tratar-se-á apenas de pura vaidade? De acordo com a American Hair Loss Association, aos 35 anos de idade, dois terços dos homens experimentaram algum grau de perda de cabelo. E são cada vez mais os que estão a tomar procedimentos cirúrgicos de substituição de cabelo para neutralizar esse facto. Oitenta e cinco por cento dos pacientes tratados por membros da Sociedade Internacional de Cirurgia de Restauração Capilar (ISHRS) são homens e os últimos números da ISHRS relataram aproximadamente 397 mil procedimentos de substituição de cabelo em todo o mundo, no ano de 2014. É vaidade, sim, mas também é uma preocupação que implica com a questão da autoestima que, por sua vez, está intimamente ligada às questões emocionais, logo ao bem-estar, no geral. Até porque se nos basearmos somente no aspeto da vaidade, chocamos de frente com a questão do narcisismo. E dizem os terapeutas que os narcisistas não sofrem de autoestima excessiva, mas antes da sua ausência. Que a voz dominante nas suas cabeças não é de lisonja, mas antes de uma autocrítica implacável.

"A vaidade é, muitas vezes, a consequência de uma autoestima frágil", escreveu recentemente o filósofo britânico Simon Blackburn. Num artigo publicado no The Guardian, o escritor e crítico de cinema americano Tom Shone deslindou acerca da vaidade, considerando que toda a pessoa vaidosa se sente arruinada em algum momento. "Somos como fumadores: todos queremos sair." Seja como for, os factos são que, em 2015, o mercado do male grooming tenha movimentado cerca de 55 mil milhões de euros e a estimativa é que se atinjam cerca de 65 mil milhões até 2020. Por conseguinte, gostando de homens que se cuidam ou não, ao perguntarmos ao espelho "Who’s the fairest of them all?", a resposta é unânime. São eles, evidentemente.

 

 

 

 

Saiba mais vaidade masculina, grooming, cuidados, beleza, fitness, estilo
Relacionadas

Os melhores amigos de um homem

Com os cuidados masculinos, todo o cuidado é pouco. Por isso, há que contar com uns quantos profissionais e com uns quantos algarismos à esquerda da vírgula na conta bancária.

Os novos heróis de ação

Já não há Rambos nem Exterminadores porque o Cinema mudou. Não abdica de criar figuras a que reagimos com mais entusiasmo ou mais desconfiança. Precisa deles para continuar a levar público às salas. E não se incomoda com o “render da guarda”, tanto nas personagens como nos atores que lhes dão vida.

Pelas minhas barbas!

As barbas estão na moda há tantos anos que já deixaram de estar na moda e, no entanto, vêem-se cada vez mais homens com a cara coberta de pelo. Porque será que a nossa geração gosta tanto delas? E o que fazer para deixar crescer uma da qual nos possamos orgulhar?

Mais Lidas
Viver Como melhorar a sua vida amorosa

Quer esteja numa relação séria ou só se queira divertir, reunimos algumas dicas, apps e tendências para fazê-lo da melhor forma nesta nova década e assim evitar os males do coração.

Viver Os luxos dos jogadores de futebol

Mansões que valem milhões, carros topo de gama, jatos privados e capas de telemóvel no valor de 35 mil euros — assim gastam as suas fortunas os melhores jogadores do mundo. Mas existe, também, um lado solidário que os craques da bola nunca esquecem. E isso, sim, é “jogar bonito”.