Viver

Covid-19 cria novo tipo de crise financeira da meia-idade

A pandemia da Covid-19 abalou de tal forma a vida das pessoas, que gerou uma espécie de crise de meia-idade.

Na série Breaking Bad (2008) a personagem principal interpretada por Bryan Cranston vê-se pbrigada a  reinventar-se para evitar uma crise financeira na família
Na série Breaking Bad (2008) a personagem principal interpretada por Bryan Cranston vê-se pbrigada a reinventar-se para evitar uma crise financeira na família Foto: IMDb
18 de dezembro de 2020 | Bloomberg

Basta perguntar a Stacy Small, com 51 anos. O negócio lucrativo das viagens de luxo permitiu que a residente de Maui comprasse a casa de praia dos seus sonhos e conduzisse um Porsche Cayenne. No dia 20 de março, Small foi forçada a cancelar as reservas, perdendo centenas de milhares de dólares. Numa semana, cortou relações com 28 trabalhadores independentes. Na mesma altura, três amigos próximos foram diagnosticados com cancro no estágio quatro, enquanto que outros lutavam contra a Covid-19.

No dia 21 de abril, Small teve um acidente de carro quase fatal. "A Covid-19 matou o negócio das viagens, que passei 15 anos a construir", disse ela. "O acidente de carro poderia ter colocado fim à minha vida. Foi realmente um sinal de alerta, que me demonstrou que precisava de realizar muitas e grandes mudanças."

Stacy Small diz que a pandemia foi um sinal de alerta
Stacy Small diz que a pandemia foi um sinal de alerta Foto: Mia Shimabuku/Bloomberg

Sem muitas opções, Small vendeu a sua casa no mês de setembro e parou de se concentrar em ganhar dinheiro e começou a concentrar-se no seu bem-estar emocional. Como parte do seu processo de cura, Small começou a fazer biscoitos. Desde então, transformou o seu passatempo num negócio - Stacy Maui Cookies - investindo 50 mil dólares, em parceria com um investidor e parceiro, e com um "compromisso bastante significativo" para um franchising, sistema de negócio fixo de alimentos saudáveis que exige o pagamentos de direitos. 

"Agora estou a viver uma versão muito mais simples e feliz da vida", disse Small. "Aluguei uma bela casa com vista para o mar e dirijo um Jeep."

O que aconteceu com Small foi o que alguns tradicionalmente consideram uma crise de meia-idade. Na imaginação do público, isso leva os homens a comprar carros desportivos e ter casos amorosos, mas geralmente os seus efeitos são mais comuns e silenciosos. Problemas de saúde, mudanças de comportamento ou perdas de empregos, levam a que as pessoas questionem as suas escolhas de vida e percebam que a vida é efémera e que ninguém é imortal.

E embora o fenómeno tenha sido associado a pessoas entre os 35 e os 50 anos, psicólogos dizem que não está vinculado a uma idade, mas simplesmente a um choque semelhante ao de uma pandemia.

"Alguns de nós entramos em certas áreas de trabalho porque sentimos que seriam mais seguras", disse a coach financeira Amanda Clayman. "Dissemos: ‘Farei alguns sacrifícios entre o quão empolgante é e o quão apaixonado serei pelo meu trabalho, porque ele será confiável e apoiará outros valores que são importantes’. Mas quando essa segurança financeira é abalada, pensamos, ‘Por que estou a fazer isto?’".

No final do mês de março, Michael Woodcock, de 40 anos, foi dispensado do seu emprego, como gerente de receção de uma grande rede de hotéis em Boston. Foi um despertar desagradável. "Quando eles disseram que estavam a dispensar pessoas, alguns mantiveram-se", recorda Woodcock. "Comecei a pensar: ‘O que fiz ,ou não fiz, para ser uma das pessoas que se mantêm?’"

Perder o emprego, que ele amava, fez com que questionasse as suas escolhas de trabalho e identidade - e se ele poderia sustentar a sua esposa e a sua filha de 9 anos em Beverly, Massachusetts. Conseguiu um emprego a entregar pacotes, refinanciou a sua casa e passou a gastar menos, enquanto dependia do salário da sua esposa.

Michael Woodcock
Michael Woodcock Foto: Adam Glanzman/Bloomberg

A Covid-19 tem interrompido trajetos profissionais e forçado as pessoas a concentrarem-se noutras áreas da vida - talvez pela primeira vez em anos, disse David H. Rosmarin, PhD, professor assistente da Escola de Medicina Harvard e fundador do Centro de Ansiedade, em Manhattan.

"Ter mais tempo para dormir, estar com os amigos e com a família e para pensar e refletir pode ser maravilhoso para quem tem uma vida para além da laboral", disse Rosmarin. "Mas pode ser um inferno se eles não a tiverem."

As condições criadas pela pandemia estão a colocar as pessoas à prova.

A taxa de desemprego nos EUA disparou para 14,7% em abril deste ano e caiu, oito meses depois, para 6,7% no mês de novembro, de acordo com o Escritório de Estatísticas do Trabalho. O número esconde que mais de um terço dos desempregados - 3,9 milhões de pessoas - procuram trabalho sem sucesso desde que a pandemia atingiu o país norte-americano. E o número de pessoas que desistiram - 657 mil - dizem que não há empregos para elas e representam mais do dobro dos desempregados existentes no final do ano transato.

Esta problemática lançou o desespero. A visão dos americanos acerca da sua saúde mental diminuiu significativamente em 2020, com 23% da população a descrever-se como tendo uma saúde mental normal ou má, contra 17% no ano passado, de acordo com pesquisa Gallup divulgada esta semana. E cerca de 30% dos adultos norte-americanos apresentam sintomas de um transtorno de ansiedade, em comparação com 19,1% na pré-pandemia, afirma o Centro para Controle e Prevenção de Doenças.

É difícil permanecer positivo quando o trabalho da sua vida foi destruído.

Aron "Teo" Lee, com 53 anos, um empreendedor em Rockville, Maryland, está a tentar permanecer no caminho certo com a carreira dos seus sonhos, administrando uma startup educacional, a DEILAB, que ensina engenharia, design e pensamento crítico a crianças, através de Legos. 

Num verão normal, entre junho e agosto Lee teria passado o tempo a viajar entre as várias comunidades, percorrendo todo o país. Mas não este ano. Ao invés disso, ele passou o verão em casa com a sua esposa e com os seus dois filhos adolescentes, a ensinar robótica online, vendo a sua dívida aumentar e sua conta bancária escassear, enquanto os seus 30 clientes diminuíam.

Teo Lee
Teo Lee Foto: Rosem Morton/Bloomberg

"Emocionalmente é muito difícil, porque sinto que falhei com as pessoas que acreditaram na empresa e acreditaram em mim", disse ele. "Eu tenho um filho na faculdade e uma filha num colégio, e estar com 53 anos a perguntar-me como as luzes ficarão acesas mês a mês é realmente um fardo pesado."

Lee confiou no trabalho freelance de produção musical, no salário da sua esposa e na ajuda financeira da sua família.

Embora não tenha encontrado um conselheiro para conversar, Lee apoia-se na sua esposa e no seu círculo íntimo de amigos e familiares. Ele tem realizado workshops semanais acerca de justiça e equidade racial, tem tocado e gravado música e realizado trabalhos de consultoria. Pensou em voltar para o mundo corporativo, mas está a tentar manter a sua paixão.

"Também não desisti de procurar investimentos-procuro pessoas boas que querem mudar o mundo", disse Lee. Acrescentando ainda que "não vou desistir do meu negócio."

Saiba mais atualidade, pandemia, COVID-19, crise financeira da meia-idade, desemprego, negócios, empreendedorismo, bem-estar emocional
Relacionadas

O que pode fazer para apoiar o comércio local

É mais importante do que nunca que as mentalidades mudem. Contribuir para o crescimento dos pequenos negócios é crucial e parece ser o melhor caminho para um futuro mais sustentável.

Mais Lidas
Viver Como a pandemia fez crescer o adultério

Flirtar através de sms, andar “à caça” nos sites de encontros, entusiasmar-se online… Sem que se passe verdadeiramente ao ato, engana-se o tédio ou testam-se os limites de um casal, e abre-se uma janela para os desejos mais profundos.