Estilo / Beleza & Bem-Estar

Estratégias de fitness de quem está (mesmo) em forma

Perguntámos a quem faz da boa forma um modo de vida qual é a estratégia para ficar em forma. Ora descubra o que diz um triatleta olímpico, um bailarino principal, um fitness influencer, que é duplo de cinema, e o homem que surfou a maior onda, na Nazaré.

Foto: Isabel Saldanha/ Jorge Leal/ Subtilography
03 de dezembro de 2019 | Bruno Lobo

O corpo tem um papel cada vez mais complexo na nossa sociedade. Esquecido, nunca foi tão pouco relevante quando já ninguém precisa dele para caçar a próxima refeição ou encontrar o que beber. Por outro lado, nunca foi tão idolatrado, exibido e sexualmente desejado. Tempos estranhos, estes, mas, entre uma versão e outra, cresce uma corrente que encara o corpo de uma forma mais saudável, sem exageros e na certeza de que é uma criatura biológica que cresce no meio de uma selva de poluição. E, por isso, precisa de ser cuidado, nutrido, tal como nos revelou Bruno Salgueiro, o instrutor de fitness mais seguido de Portugal: "Nota-se uma crescente preocupação com o bem-estar e com a aparência. Acho que esta segunda ainda ganha adeptos, mas há, cada vez mais, quem procure maior ‘liberdade’ de movimentos, força, destreza e saúde, em vez de se preocupar só com o [lado] estético." E nisto de praticar exercício físico, a primeira regra é: nunca é demasiado tarde para começar. Que o diga João Pereira, triatleta, que começou a praticar de uma forma mais consistente apenas aos 18 anos e, hoje, com 30, acaba de ser eleito Atleta do Ano pela União Europeia de Triatlo.

João Pereira
João Pereira Foto: Subtilography

João Pereira

"Nunca desistir"

João Pereira é um dos nossos melhores triatletas. No ano passado venceu o Campeonato Europeu nas distâncias olímpica e de sprint, um feito nunca antes alcançado e que lhe valeu, já este ano, o prémio de triatleta europeu. Antes, foi o quinto classificado nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Mas João Pereira começou muito tarde para um atleta de topo mundial e quase por acaso. "Estava no 12.º ano [de escolaridade] e como a nota de Educação Física começou a contar para as médias finais de acesso à faculdade, apliquei-me um pouco mais. Comecei a ir a corta-matos e a trabalhar afincadamente nos testes de preparação física. Nessa altura, tinha um professor que ficou impressionado com os resultados que conseguia obter com tão pouco treino", recorda. "Quando comecei a praticar a modalidade nadava muito mal e nunca tinha andado numa bicicleta de estrada. Mas todas as pessoas, no meio, diziam que tinha grande aptidão e que com o treino adequado iria tornar-me um grande atleta. A verdade é que, com o passar do tempo, a minha evolução foi notória e bastante rápida."

O triatlo é uma das modalidades mais completas porque cada atleta tem de ser simultaneamente corredor, nadador e ciclista: "Temos de ver o triatlo como uma única modalidade, isto é, tudo conta e em nenhum momento o cronómetro é desligado, nem quando me equipo para o ciclismo ou para a corrida. Por isso, as transições também têm de ser treinadas. Sendo que para competir com a elite mundial não é necessário ser bom nas três disciplinas, individualmente, mas nas três em conjunto, umas a seguir às outras. Não só tenho de conseguir correr os 10 km o mais rápido que conseguir como tenho de o fazer depois de ter pedalado 40 km e nadado 1.500 metros." No caso de um triatleta de topo como o João, a rotina de treino é bem intensa e ocupa muitas horas do dia. Por exemplo, depois de acordar e de tomar o pequeno-almoço, às 8 horas da manhã, começa o primeiro treino de natação, de 5-7 km. Segue-se um segundo pequeno-almoço, "mais reforçado", e uma nova saída para a estrada, agora para pedalar cerca de três horas, por vezes com algum desnível. "Regresso por volta das 13 [horas] para almoçar e, de seguida, tento descansar o máximo possível. Durante a tarde ainda faço uma corrida que varia entre 10 e 15 km e, no final do dia, dedico algum tempo ao ginásio, alongamentos e massagens", explica. Depois, há dias em que João Pereira ainda faz treino específico, como o treino das transições ou de corrida em pista. "E existem alturas da época em que realizamos treinos bidiários de natação. Alguns treinos são realmente muito violentos e nos quais o corpo é levado ao limite. Por exemplo, na corrida fazer séries de 1.600 metros VO2 Max, ou no ciclismo fazer 6 vezes 6 minutos em rampa no limiar." A boa notícia é que para quem não está a treinar para ser atleta olímpico ou para ganhar todas as provas onde entra, os treinos não precisam de ser tão extenuantes. Precisa, isso sim, de "nunca desistir, por mais difícil que as coisas nos possam parecer". E, depois, "saborear todas as conquistas que consigam alcançar, todas as metas e objectivos que definiram. É espectacular a sensação de superação".  

Hugo Vau
Hugo Vau Foto: Jorge Leal

Hugo Vau

"Não há espaço para o medo"

De certeza que todos se perguntam o que leva alguém a meter-se numa onda de 35 metros. E se isso não é assustador. Hugo Vau tem, naturalmente, outra teoria.

"Uma onda percorre mais de mil ou de dois mil quilómetros e, ao rebentar na praia, está a ‘viver’ os últimos segundos da sua existência. Nós partilhamos esses segundos com ela. Partilhar a energia do mar é quase espiritual. Estamos em perfeita sintonia com a Natureza. Antes de entrar, o coração bate mais forte, mas na onda a concentração é total e não há espaço para o medo. Não há, mesmo. Estamos tão agradecidos por estar ali que não há lugar para outros sentimentos." Hugo fala com entusiasmo: "O surf é um desporto onde se ‘apanham’ ondas e se cai. O surf de ondas gigantes é a mesma coisa (só que ampliado a extremos). Portanto, se aceitarmos isso, cair deixa de ser um pesadelo e transforma-se numa coisa maravilhosa… Faz-nos sentir vivos. ‘Levar’ com ondas de 15 ou de 20 metros dá-nos a verdadeira dimensão da nossa existência. Somos só um pontinho que ali anda. Toda a preparação que se faz a nível mental e físico serve para nos preparar para esses momentos e para podermos relaxar, nessa altura." E como se prepara? Depois deste discurso ninguém ficará surpreendido se dissermos que Hugo Vau não é grande fã de ginásios, pois não? Prefere estar em contacto com a Natureza. E, como vive nos Açores, isso é fácil: "Costumo dizer que os Açores são o meu ginásio natural. É aí que me mantenho em forma. Tenho a possibilidade de fazer caminhadas, snorkeling, stand-up paddle, nadar no mar… E, muitas vezes, junto todas essas actividades em circuitos que vou criando. Por exemplo, vou de jipe até algum lugar remoto, ponho o paddle na água e venho a remar para casa [Vau mora em frente ao mar]. Depois, pego na bicicleta e vou buscar o jipe. Gosto de me colocar em situações desafiantes, difíceis, para que a mente tenha de ultrapassar as dificuldades. Porque também é muito importante ter a mente bem treinada." Também não será uma surpresa saber que o nosso surfista não gosta de rotinas. "Treino todos os dias, mas sem grandes rotinas. Vou variando os circuitos, mas evito correr. Não gosto muito de correr… Então em pista ou em estrada não é mesmo para mim. Tenho amigos que fazem Trail Running [uma corrida fora de pista, por montes e colinas, em caminhos com subidas e descidas íngremes e cruzando rios ou riachos] e, às vezes, junto-me a eles." E dá um conselho a quem insiste em correr: "Com companhia é melhor e mais fácil" E acrescenta: "Prefiro subir escadas a correr. Na Nazaré faço muito isso. É mais intenso e menos ‘chato’." Em meados de Janeiro, Hugo Vau surfou a onda que – diz quem percebe de surf e, sobretudo, das ondas gigantes da Nazaré – é a maior de todas: a Big Mamma. Para ser um recorde mundial falta a homologação oficial que deverá acontecer (ou não) em finais de Abril ou no início de Maio, quando a World Surf League atribuir os XXL Biggest Wave Awards, prémios que Hugo conhece bem, pois foi finalista, por duas vezes, em 2015 e 2017. Sobre a onda, Hugo diz apenas: "Estou na Nazaré há sete anos consecutivos, a seguir todas as ondulações e, por isso, tenho a perfeita noção que esta onda foi completamente fora do normal. Até pela forma como rebentou, na parte final, ganhou mais sete, oito, dez metros de altura."

Carlos Pinillos
Carlos Pinillos Foto: Pedro Ferreira

Carlos Pinillos

"A alimentação é fundamental"

Ser um bailarino também não significa "apenas" ser um atleta. Existe uma componente artística para conjugar e podemos repetir, quantas vezes quisermos, que Cristiano Ronaldo é um artista, mas não é a mesma coisa. O madrileno Carlos Pinillos é bailarino há 24 anos, dos quais 16 passados em Portugal, sempre no topo, como bailarino principal da Companhia Nacional de Bailado (CNB). O primeiro trabalho, no nosso país, foi Variations, de George Balanchine, mas ao longo dos anos conta com inúmeros registos, do ballet clássico ao contemporâneo, porque "não nos podemos esquecer que estamos numa companhia com um dos melhores repertórios da Europa". Mais de duas décadas é uma longa carreira numa das profissões fisicamente mais exigentes. "A disciplina da dança é muito complexa porque não somos atletas só de explosão, ou só de resistência, ou só de sprint, ou só de força. Somos obrigados a ter um leque de registos muito amplo", explica Pinillos. "Temos de trabalhar muitos aspectos de força, de elasticidade, de amplitude de movimentos, de dinâmica, de ritmos e não estamos sozinhos em palco… Temos a ligação com o parceiro, a coordenação… Por isso, a melhor forma de preservar e conservar o nível é manter um ritmo de treino regular e constante." Os dias de um bailarino começam sempre da mesma maneira. Podemos mesmo dizer que há séculos que assim é. "Na primeira hora e meia de trabalho na Companhia fazemos uma aula de ballet clássico, que é a base de sustentação do trabalho de qualquer bailarino. Mesmo numa companhia de dança contemporânea, a base é sempre o clássico. Este é o nosso treino fundamental e não é meramente técnico. Assim treinamos, também, todas aquelas dinâmicas e intensidades que referi. É realmente o segredo para manter a forma." No resto do dia o trabalho prossegue, intercalando ensaios para a próxima coreografia em cena com tempos de descanso. "Durante os espectáculos, o nível de carga é muito alto e os tempos de descanso mais reduzidos" e, claro, à medida que a idade aumenta, os factores de recuperação vão-se alterando. "Mas mesmo quando se perde alguns aspectos, também se ganha outros e a nossa produtividade não tem de sofrer", realça. Mas ganha-se exactamente o quê, com a idade? "Experiência e optimização de recursos. É complicado para um bailarino jovem gerir a energia. De tempos a tempos, surge uma estrela, um iluminado, que tem muita energia, mas também a intuição para a saber gerir. Mas isso será um em cada 10 mil. A técnica também ajuda porque permite fazer mais, usando menos." Por fim, a alimentação é fundamental. "Como reagimos a diferentes cargas de esforço, os tempos de recuperação e a alimentação adequada são muito importantes. Existem denominadores comuns, claro, como beber muitos líquidos para hidratar e fazer alimentação saudável, à base de fruta e de legumes, mas temos de saber, também, em que fase do treino e mesmo do dia é necessário ingerirmos uma carga de proteína. E se retiramos da nossa dieta alimentos com açúcar adicionado, notamos rapidamente uma grande diferença em termos de rendimento físico. A vitamina C também é vital para uma melhor e mais rápida recuperação."

Bruno Salgueiro
Bruno Salgueiro Foto: Isabel Saldanha

Bruno Salgueiro

"Mentalidade de ‘ou tudo ou nada’ é uma inimiga"

Quando começou a postar os seus vídeos de fitness, não estava a espera de tanto sucesso. O seu programa online Dicas do Salgueiro tem mais de 200 mil seguidores no YouTube, outros tantos no Facebook e 65 mil no Instagram. Mesmo considerando que muitos destes seguidores se repetem, é, sem dúvida, a voz mais ouvida no fitness, em Portugal. Bruno confessa: "No início, eu estava à espera de algum sucesso, mas não tanto. Talvez o meu lado pessimista tenha achado que o nosso país, pequeno em tamanho, não fosse ligar muito a isto. Gosto de me enganar nestas circunstâncias. Os portugueses responderam muito bem ao projecto e percebeu-se que estava mesmo a fazer falta este apoio e motivação." Foi essa, aliás, a razão por que decidiu aventurar-se no YouTube: "Achei que fazia falta algo diferente. Via muito poucas referências ao treino em português, exceptuando artigos e vídeos brasileiros. Senti também que os primeiros passos dos atletas e personal trainers, a nível digital, eram mais uma forma de demonstração do que eles faziam do que propriamente algo útil para o seguidor. Claro que deve haver algum show-off, mas o objectivo principal, a meu ver, deverá ser o de partilhar algo que os outros possam utilizar." E o que pretende partilhar com os leitores da Must? "De início, não devemos dar excessiva importância aos detalhes. Vai-se ganhando e merecendo esse direito à medida que evoluímos. Tudo o que fazemos, de início, vai dar resultado porque o corpo não ‘estava à espera’, correcto? Então, vamos subindo a fasquia, progressivamente, para manter o corpo estimulado. Isto funciona para tudo o que nos foi dado pela Natureza! Não melhora mais do que um por cento a cada dia. Aproveita essa regra para teu benefício!" Consistência e progresso natural é o seu lema, mas adverte que a mentalidade de "ou tudo ou nada" é a maior inimiga de quem começa a fazer uma actividade física. "A falta de consistência é muito evidente, na maioria. Ou ‘atacam’ como se já fossem atletas profissionais ou desmotivam-se logo porque sentem que não são capazes de dedicar o esforço quotidiano necessário. Mais vale colocar um tijolo de cada vez do que querer construir uma casa depressa e mal feita." Sábias palavras, não concordam?! Agora, toca a levantar e a mexer esse %&#&.

Saiba mais João Pereira, Hugo Vau, Bruno Salgueiro, Carlos Pinillos, fitness, nutrição, exercício
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