Mariana Morgado Pedroso: “O verdadeiro luxo está na intemporalidade”
A CEO e Owner da Architect your Home, com presença nos mercados nacional e internacional, escolhe a sua prancha de bodyboard como um dos seus objetos mais luxuosos. Mas há uma explicação: um objeto com o qual se relaciona com o oceano onde sempre revive experiências únicas e tudo flui com naturalidade.
Como define luxo?
Considera-o um investimento financeiro, emocional ou cultural?
O luxo pode ser simultaneamente um investimento financeiro, emocional e cultural, mas raramente é apenas um deles. É um investimento emocional porque o verdadeiro luxo está na forma como o espaço faz sentir: conforto, pertença e identidade; e é cultural, pois a arquitetura dialoga com o contexto e com a memória do lugar. No fundo, para um arquiteto, o luxo mais sofisticado é aquele em que o investimento financeiro serve uma visão emocional e cultural, e não o contrário.
Que marcas ou experiências são referência para si neste universo e porquê?
As experiências de estadia são o que mais destacaria, pela marca que deixam no nosso espírito. Uma boa experiência de hospitality, seja pela relação que se cria com o staff que nos acolhe, seja pelas várias atividades que se podem desenvolver é algo que reflete o luxo na sua essência. Exemplo disso é uma estadia no São Lourenço do Barrocal, com a sua calma e arquitetura discreta, ou no Six Senses Douro Valley, com as vistas incríveis sobre o rio e um spa de onde saímos prontos para o que for preciso.
Como se distingue da ostentação?
Cada vez mais, o verdadeiro luxo é menos sobre ostentação e mais sobre autenticidade, escassez, personalização e significado – valores que também dialogam profundamente com a arquitetura. É a experiência diária elevada pelo desenho. Um projeto luxuoso respeita e interpreta essa dimensão, acrescentando significado, não necessariamente ostentação.
Qual o papel da exclusividade?
A exclusividade na arquitetura reside na singularidade da resposta. O seu papel é criar espaços que não poderiam existir para mais ninguém, naquele lugar específico, com aquele cliente específico. É a personalização profunda – na implantação, na materialidade, na relação com a luz e na escala – que transforma um projeto em algo irrepetível. Exclusividade também significa tempo: tempo para pensar, desenhar, detalhar e executar com rigor. Na arquitetura de luxo, a exclusividade afasta-se da ostentação e aproxima-se da autoria, da precisão e da adequação absoluta ao contexto e ao utilizador. No fundo, o papel da exclusividade é elevar a arquitetura de solução funcional a expressão cultural e pessoal, tornando o espaço não apenas habitável, mas verdadeiramente único.
O luxo é mais uma questão de conforto, estética, status ou cultura?
O luxo, na sua forma mais sofisticada, é a síntese equilibrada desses quatro elementos. Destacaria a estética, pois traz identidade e é onde a minha profissão intervém – é a harmonia das proporções, a escolha criteriosa dos materiais e a sensibilidade ao detalhe que transformam o funcional em extraordinário. O status existe, inevitavelmente, como dimensão simbólica, mas é o que menos me diz neste contexto. O luxo comunica posicionamento e distinção social, mas, quando se limita a isso, torna-se superficial. A cultura é o que lhe dá profundidade: a relação com o contexto, com a história, com o saber-fazer, com a memória e com os valores de quem habita o espaço – isso é o verdadeiro luxo.
Qual foi o último objeto ou experiência de luxo que a marcou?
Um Tag Heuer vintage da minha mãe. Uso-o como uma jóia, mais do que como uma peça funcional.
Como lida com tendências? Segue ou ignora?
Estou atenta, mas não sigo tendências cegamente. No luxo, seguir tendências pode ser tentador, mas depender delas é arriscado, embora ignorá-las não seja sequer hipótese no mundo de hoje. Ainda assim, no universo do luxo, e especialmente na arquitetura, a obsessão por tendências conduz à obsolescência rápida, que é o oposto do luxo. O verdadeiro luxo está na intemporalidade. Um projeto de luxo pode dialogar com tendências – sustentabilidade, materiais naturais, minimalismo, tecnologia invisível – mas deve fazê-lo de forma crítica e coerente com a identidade do cliente e do lugar. Na minha opinião, seguir tendências é fácil. Criar algo que permaneça é mais raro. E raridade, no luxo, é valor.
Que serviços ou detalhes fazem uma experiência verdadeiramente luxuosa para si?
Acima de tudo, a hospitalidade. Uma experiência verdadeiramente luxuosa constrói-se menos na ostentação e mais na precisão invisível dos detalhes: a boa comida num restaurante, a antecipação das necessidades e o respeito pelos tempos de cada pessoa num hotel, e a sensação de personalização numa loja. São fatores que, para mim, distinguem uma experiência luxuosa.
O que mais valoriza num hotel?
Num hotel de luxo, o que mais valorizo é a combinação entre atmosfera e serviço invisível. Primeiro, e por defeito da profissão, destaco a qualidade do espaço: luz natural bem trabalhada, isolamento acústico irrepreensível, proporções generosas e materiais autênticos. O quarto deve ser um refúgio: silencioso, confortável, com uma cama excecional e uma casa de banho pensada quase como um spa privado. Depois, o serviço que antecipa sem invadir. A verdadeira sofisticação está na descrição: eficiência sem ostentação, disponibilidade sem pressão, atenção personalizada sem formalismo excessivo. Valorizo também a identidade do lugar. Um hotel de luxo não deve ser genérico; deve refletir a cultura, os materiais e a narrativa do contexto onde se insere. Por fim, algo cada vez mais raro: tempo e serenidade. Um hotel verdadeiramente luxuoso faz-nos desacelerar e, quando um espaço consegue alterar o nosso ritmo interior, isso é luxo no seu estado mais elevado.
Neste universo, que oferta gastronómica procura?
Comida autêntica, bem confecionada, servida em doses equilibradas e num espaço bem pensado.
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Que novos públicos estão a entrar no universo do luxo?
Um dos grupos mais relevantes são os Millennials e a Geração Z de elevado rendimento. Diferentemente das gerações anteriores, valorizam menos a ostentação e mais a experiência, a autenticidade, a sustentabilidade e a personalização, o chamado luxo experiencial. Procuram luxo com propósito. São globais, informados e exigem inovação, flexibilidade e design contemporâneo. À partida, devemos considerá-los consumidores conscientes, que procuram luxo sustentável: materiais éticos, processos transparentes, impacto ambiental reduzido e responsabilidade social.
Que papel desempenham as redes sociais?
As redes sociais desempenham hoje um papel paradoxal no luxo: ampliam a visibilidade, mas desafiam a exclusividade. Por um lado, são uma poderosa ferramenta de narrativa e posicionamento. Permitem às marcas comunicar valores, bastidores, processos artesanais e identidade estética à escala global. O luxo deixou de ser apenas visto em revistas especializadas e passou a ser vivido em tempo real, através de imagens, vídeos e storytelling cuidadosamente curado. Por outro lado, a exposição excessiva pode diluir a aura de raridade. Nas redes, tudo é imediato e replicável, o que obriga as marcas a serem mais estratégicas na forma como mostram, quanto mostram e a quem mostram. As redes também transformaram o consumidor de luxo: tornaram-no mais informado, mais exigente e mais atento à coerência entre discurso e prática. A estética continua importante, mas a autenticidade e os valores ganharam peso.
Que novos luxos imagina para o futuro?
Em arquitetura, os novos luxos do futuro serão menos sobre excesso e mais sobre qualidade invisível. Imagino um luxo centrado no tempo e na tranquilidade: casas pensadas como refúgios absolutos, com controlo acústico avançado, privacidade real e espaços que desaceleram o ritmo de vida. Vejo também o luxo da saúde integrada: edifícios que promovem o bem-estar através da qualidade do ar, da luz circadiana, de materiais não tóxicos, do contacto com a natureza e de espaços dedicados ao equilíbrio físico e mental. A minha expectativa é que o luxo do futuro será silencioso, consciente e profundamente humano.
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Que objeto possui que considere luxuoso?
Destacaria a minha prancha de bodyboard, um objeto simples através do qual me relaciono com o oceano e revivo, vezes sem conta, experiências que são sempre únicas no momento em que acontecem. Para mim, isso é luxo: a riqueza sensorial, o tempo dedicado a mim própria, a interação com a natureza no seu estado mais puro. O luxo verdadeiro acontece quando nada distrai, nada falha (e, mesmo quando algo falha, está tudo bem) e tudo flui com naturalidade – exatamente como me sinto quando estou no mar.
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