Conversas

André Jordan: “Uma parte dos hotéis vai ser transformada em residências”

Como é que o homem do imobiliário e ícone do turismo português olha para o impacto da pandemia no setor do turismo? Com hotéis que passam a ter apartamentos, menos alojamento local e muito foco no turismo de qualidade.

27 de novembro de 2020 | Joana Moreira

Tem 86 anos e um legado que inclui empreendimentos como Quinta do Lago, Belas Clube de Campo e Vilamoura. O empresário luso-brasileiro André Jordan já havia eternizado as suas muitas memórias numa autobiografia, mas a segunda edição de Uma Viagem pela Vida, que chega agora às bancas, inclui um novo capítulo inteiramente dedicado ao presente – coronavírus incluído.

É apelidado "pai do turismo português". O que é que se diz a um filho em apuros?

(risos) Todo o bom filho não tende muito a ligar ao que eu digo, porque a indústria é uma indústria muito fragmentada, há muitos players, na hotelaria e nas várias atividades. A Confederação do Turismo de Portugal ocupa-se mais das questões em termos legislativos e assim, e o Governo também atua com a sua própria agenda. Há pouca comunicação entre essas várias partes. Até eu me manifesto mais como estamos a fazer agora, através de divulgação pública, através do meu próprio trabalho ou através de contactos pessoais, e tenho muitos dentro do setor e fora do setor. De modo que prefiro ser o pai do turismo português pelo exemplo do que pela formação dos filhos.

 Uma Viagem pela Vida, de André Jordan
Uma Viagem pela Vida, de André Jordan

No novo capítulo que acrescentou a este livro fala dos novos tempos de pandemia e refere que "tende" para o pessimismo. Quando olha para o turismo português hoje e pela fase que este atravessa, qual é que é o seu estado de espírito?

Eu acho que o importante é compreendermos que estamos em Portugal, e que Portugal, superando a situação da pandemia, é hoje visto como um local de eleição. É muito especial. Mas também não é para todos. Quer dizer, não é para todos os turistas do mundo. É para o tipo de turista que sente afinidade com o que Portugal é: discreto, seguro, preocupado com a saúde, preocupado com a cultura. E por causa do clima, que tem uma importância enorme da eleição do local. Acontece que o Turismo de Portugal teve imenso trabalho em promover o país, mas preocupou-se mais com a estatística do número de turistas e com a contribuição para a balança de pagamentos. E, realmente, essa área não é muito rentável. Eu não sou contra, acho que faz parte do mercado que nos interessa, mas, na verdade, a área que mais interessa é a área do turismo de qualidade, seja em termos hoteleiros e de resorts como em termos de habitação, ou seja, as pessoas passarem a viver em Portugal ou terem propriedades de férias em Portugal. Esse é o setor mais interessante para o país, e que faz a maior contribuição para o investimento estrangeiro. Recentemente, o Governo decidiu proibir os vistos "dourados" para investimentos em Lisboa e Porto e isto é um erro. É o setor que contribuiu para a balança de pagamentos de uma maneira séria. O investimento estrangeiro não perde vantagens, só traz vantagens. Não pede redução de impostos, não pede nada. É uma coisa que estaríamos em tempo de corrigir.

A seu ver, o caminho passa pelo turismo não em quantidade, mas em qualidade.

Basicamente é isso. Eu não sou contra o turismo de massas, mas como disse uma vez numa conferencia, sou fã de turismo com massa (risos). Não acho que Lisboa tenha um exagero de turistas, nem acho que acabaram com a habitação na baixa de Lisboa, que praticamente já não existia, estava tudo degradado. Ajudaram a reabilitação. Mas não é um turismo que seja rentável, e nós vemos isso agora, porque continuam pessoas a investir em Portugal, apesar de todos os problemas neste momento. Enquanto o turismo de massas acabou completamente.

O que vai acontecer à explosão de hotéis que despontou em Lisboa nos últimos anos? Vamos ver uma cidade com prédios e quartos vazios?

Acho que as pessoas têm sempre imaginação e recursos. Acredito que uma parte substancial dos hotéis vai ser transformada em permanentes, em residências permanentes. Vão fazer um refit. Vai acontecer provavelmente isso com hotéis, transformarem-se em residências permanentes ou em aparthotéis, que é uma coisa que existe muito em certos lugares como no Brasil. Rio de janeiro, São Paulo, e outras cidades têm muitos aparthotéis em que as pessoas moram permanentemente e que têm serviço. Acho que vamos encontrar soluções. Claro que não vai ser fácil para muitos operadores que foram calcular a rentabilidade e as perspetivas e entraram no alojamento local. O alojamento local nunca chegou a ser rentável propriamente, e também sofreu com a falta de regulamentação. Foi num período do Governo de Passos Coelho em que as autoridades do turismo entenderam que não queriam regulamentar esse setor, e isso também veio prejudicar de alguma forma.

Ver Portugal ser eleito o melhor destino da Europa nos "Óscares" do turismo, como ainda recentemente aconteceu, é um impulso para a indústria ou, no final do dia, o que importa são os números?

Os prémios não são propriamente uma fonte de receita (risos). É simpático receber prémios, mas têm um impacto muito relativo. Há muitas listas de prémios, há revistas que publicam os melhores hotéis, os melhores destinos, os melhores disto e daquilo. É uma parte do estilo do mercado, não só no turismo. É uma era que vive muito da promoção de prémios. Não vejo que tenha um grande impacto no mercado, positivo ou negativo. Agora, o Turismo de Portugal tem feito uma bela campanha de promoção do país, e isso tem o seu efeito.

Acha que Portugal olhou para o turismo demasiado tarde?

Não sei responder a isso. Acho que chegou a hora e não posso dizer que é tarde ou cedo. Eu estou há 50 anos a trabalhar na área do turismo em Portugal e é reconhecível a evolução que houve em todos os sentidos, seja no equipamento seja no sentido humano. Não havia profissionais do turismo quando eu comecei, muito menos no imobiliário. E, no entanto, tudo isso se desenvolveu de uma maneira extraordinária. Ainda no outro dia, numa entrevista a um jornal chinês, disse que, quando comecei a trabalhar no Algarve, entre Albufeira e Faro havia três restaurantes razoáveis. Quando abri o Casa Velha, que foi um restaurante emblemático na Quinta do Lago, o dono do restaurante que havia em Almancil, que era um restaurante de carnes bastante bom, ficou muito nervoso, porque eu lhe ia fazer concorrência, roubar clientes (risos). E eu disse: não se preocupe, há para todos. Hoje, entre Albufeira e Faro não duvidaria que há mil restaurantes, e nesses mil haverá 10% bons e os outros restaurantes normais. Aliás, é difícil comer mal num restaurante no Algarve. Há um nível muito bom de restaurantes. É uma evolução extraordinária. Havia cinco ou seis campos de golfe em Portugal. Hoje há 90. Foi uma evolução muito grande e muito devida aos empresários. Mas sempre fomos fracos na promoção, na área do marketing em Portugal.

Estamos em plena segunda vaga de Covid-19 e a aproximar-nos do final do ano. Qual acha que será o grande desafio do turismo em 2021?

É difícil dizer porque não depende só de nós, só da situação de Portugal, mas também dos países emissores e dos principais países emissores que estão com grandes problemas, como é o caso da Inglaterra e da Alemanha. Penso que não vai acontecer assim uma explosão de um dia para o outro. Aos poucos vamos confluindo. Vai haver uma grande competição e vamos ter de ser muito unidos, na promoção, no marketing, como nunca fomos, com o Governo, para recuperar o mercado. E para olhar para o mercado com mais capacidade de gasto e de investimento. Porque o turismo residencial tem sido, realmente, um negócio muito bom para Portugal, e é extraordinário para Espanha. Para ter uma ideia, em Portugal nós temos 50 mil residentes ingleses, Espanha tem um milhão. Claro que não são apenas pessoas ricas, é um pouco de tudo. Mas acho que temos de continuar a trabalhar, a fazer vendas e a envolver mercados.

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