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“Quiet quitting”: tão simples quanto fazer-se (só) aquilo para o qual se está a ser pago

São muitos os que estão em modo “quiet quitting” há já algum tempo e o mesmo se passa com o subsequente “quiet firing”. Verdade seja dita, não há nada de novo neste panorama.

'O Insustentável Peso do Trabalho' (1999)
'O Insustentável Peso do Trabalho' (1999) Foto: IMDB
21 de setembro de 2022 | Pureza Fleming

"Quiet quietting", em português "demissão passiva", é a frase que originou o mais recente fenómeno digital no Tik Tok. A expressão, que se refere ao universo laboral é, de certa maneira, inapropriada: "Desistir silenciosamente" não significa, necessariamente, afastar-se de um emprego e, muito menos, desistir-se deste. Expressa, isso sim, um renunciar da vigente cultura do trabalho que "propõe" que se "vista a camisola" a troco de cada vez menos benefícios para o funcionário. Dito por outras palavras: que impõe que se trabalhe mais ou que, pura e simplesmente, se esteja mais disponível, interessado e motivado, enquanto as condições oferecidas pelo empregador, ora se mantêm, ora entram num vertiginoso declínio que pouco ou nada corresponde àquilo que se dá à empresa.

Quando, há dias, eu ouvi falar pela primeiríssima vez no "quiet quitting", não me apercebi de imediato do que é que se tratava. Supus que fosse algo relacionado com um despedimento que se ia "cozinhando lentamente", tal como os próprios termos indiciam. Após uma mera pesquisa realizei que, não só não era nada disso — porque não é —, como eu mesma, de certa maneira, já havia aderido a esta tendência — mesmo antes desta ser considerada uma "trend". Eu não sabia, nunca soube, mas eu entrei em modo "quiet quitting" há já uns bons pares de anos quando decidi tornar-me freelancer. Tudo começou quando eu comecei a deduzir que o custo-benefício da minha vida profissional se encontrava extremamente desequilibrado. Punha as coisas na balança e via as horas de trabalho tomarem conta do meu dia inteiro, com demasiadas vezes a entrar pela noite adentro e fins de semana; via as minhas idas ao yoga, por exemplo, disciplina que pratico religiosamente há cerca de vinte anos e que já me fez poupar numa data de médicos e psicólogos, tornarem-se num stress — era mais uma corrida desenfreada que fazia durante a hora de almoço do que qualquer outra coisa considerada zen — ia num pé, regressava no outro. E voltava ao trabalho esbaforida para enfrentar mais uma longa tarde de labuta. Um contrassenso, portanto. Constatei que levava esta estranha forma de vida para pagar as contas que, evidentemente, existem e têm de ser pagas, mas pouco mais. E pensei para mim mesma: "Isto não é vida". Repeti vezes sem conta: "Isto não é vida".

"Desistir em silêncio" significa também saber dizer que "não"

Não é nem cinismo, nem apatia, conforme se pode ler em alguns textos espalhados pela Internet a propósito do tema. Trata-se apenas de se pôr os interesses do funcionário à frente dos interesses da empresa. E tal passa muito por aprender-se a dizer que não: não às tarefas fora do estipulado, não às horas extras, não aos telefonemas e aos e-mails em horários descabidos — ou seja, nas horas fora do expediente —, não ao dar desmesuradamente à casa quando o troco é cada vez menor. Importa frisar que dizer que "não" não significa trabalhar-se menos em qualidade: o funcionário cumpre as suas tarefas e cumpre-as bem, o objectivo não é ser despedido, mas tão somente impôr os seus limites.

Em conversa com o jornal The Guardian, Maria Kordowicz, professora associada de comportamento organizacional da Universidade de Nottingham, Inglaterra, e diretora do centro de educação e aprendizagem interprofissional, descreve o "quiet quitting" como "fazer-se o mínimo necessário para se sobreviver no trabalho, sem deixar que este se imponha noutras áreas das nossas vidas". O mesmo artigo menciona um relatório global da consultora Gallup para o ano de 2022 que demonstra que apenas 9% dos trabalhadores no Reino Unido se sentiam engajados ou entusiasmados com o seu trabalho. Uma pesquisa da equipa do National Health Service (NHS), realizada no outono de 2021, por sua vez, mostrou que a moral havia decaído de 6,1 para 5,8 numa escala de 1 a 10, e o engajamento de equipa teria caído de 7,0 para 6,8. "Desde a pandemia que a relação das pessoas com o trabalho tem sido estudada de várias formas, e, por norma, os resultados, para todas as profissões, apontariam para que sim, a maneira das pessoas se relacionarem com o seu trabalho mudou", somou Kordowicz. Para aquela professora, pode estar na base desta realidade um desejo por parte dos funcionários em encontrarem um melhor equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal, como por exemplo não trabalharem fora do horário de trabalho alocado ou deixarem de colocar a implacável produtividade acima do seu bem-estar".

Num artigo publicado no site Very well mind, Paula Allen, líder global e vice-presidente sénior de pesquisa e de bem-estar na LifeWorks, aponta alguns do sinais que podem ser indicativos de alguém que está em "quiet quitting":

  • Diz que "não" a tarefas que se encontram fora da descrição do trabalho original;
  • Não responde a e-mails ou a mensagens fora do horário de trabalho;
  • Sai do trabalho à hora certa;
  • Está menos envolvido emocionalmente com o trabalho;
  • Apresenta menos espaço para a "superação";
  • Demonstra um menor interesse em ir mais além de forma a garantir uma promoção na empresa.

No fundo, a "demissão passiva" não passa de uma nova designação para um conceito já antigo: o desengajamento dos funcionários.

"Quiet firing": a resposta dos empregadores

Nas últimas semanas, a expressão "quiet quitting" viralizou nas redes sociais, demonstrando uma suposta nova tendência do mercado de trabalho em que os funcionários de uma empresa não vão além das suas funções básicas, uma vez que não se sentem motivados para a dedicação plena. No seguimento, surgiu como resposta: o "quiet firing".

A expressão "despedir silenciosamente" surge por parte da gerência da empresa e consiste em criar condições de trabalho pouco ou nada favoráveis para um funcionário, forçando-o, basicamente, a pedir a demissão. Em vez de o confrontar ou de, simplesmente, o demitir, os líderes das empresas vão, gradualmente, tornando o ambiente de trabalho tão insuportável que não resta ao funcionário senão abandonar a empresa. Especialistas em recursos humanos explicam ao The Washington Post que há várias práticas que podem afetar o colaborador, incluindo cortes nas promoções, cortes nos feedbacks, diminuição das tarefas e até da jornada de trabalho. Os supervisores não criam, necessariamente, um ambiente de trabalho hostil, mas insatisfatório, isolado e sem espaço para o crescimento profissional. "Este conceito é uma forma controversa e não confrontacional de convencer os funcionários a deixarem uma empresa, mas não é uma abordagem aconselhável", apontam. A par do que aconteceu com o "quiet quitting", que despertou discussões intensas sobre a prática estar certa ou errada, o "quiet firing" também gera debate. Há quem considere a medida eficaz para as empresas que estão a planear demissões ou para lidar com casos muito específicos de funcionários com um baixo desempenho. No entanto, a maioria dos especialistas em recursos humanos são contra o "quiet firing". De acordo com estes, a melhor forma de se lidar com a tendência do "quiet quitting", é as empresas olharem para as suas práticas de gestão e identificar o porquê dos colaboradores estarem a adotar aquele tipo de comportamento. Os empregadores preocupados com o "quiet quitting" devem-se questionar acerca do trabalho dos funcionários e das condições oferecidas.

Na verdade supostas novas tendências do "quiet quitting" e do "quiet firing" existem há décadas sob outros nomes. Porém, só porque não são uma novidade não significa que não apresentem problemas reais. Talvez esteja na altura de olhar para eles.

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