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Opinião. Lionel Messi, o maior da História

Com a derrota da França na final do Mundial do Catar, Lionel Messi colocou um ponto final na maior especulação da última década. Pelé, Maradona e Cristiano Ronaldo são agora meros subalternos do homem que se coroou o melhor da História do futebol, um semideus acima dos meros mortais. Ele é o melhor, o GOAT, o inigualável, o melhor futebolista de todos os tempos.

Lionel Messi celebra a vitória da Argentina depois da equipa derrotar a seleção francesa na Copa do Mundo da FIFA 2022 no Estádio Lusail, 18 de dezembro de 2022.
Lionel Messi celebra a vitória da Argentina depois da equipa derrotar a seleção francesa na Copa do Mundo da FIFA 2022 no Estádio Lusail, 18 de dezembro de 2022. Foto: Getty Images
19 de dezembro de 2022 | Áureo Soares

O futebol, porque do domínio das paixões, tem necessariamente qualquer coisa de infantil, de adolescente, capaz de levar fãs e jogadores, mesmo os mais cerebrais, aos atos mais irracionais, mais cheios de sentimento ou de pesar. 

Lionel Andrés Messi Cuccittini (Rosário, Argentina, 24 de junho de 1987), o pequeno argentino a quem um dia chamaram La Pulga, franzino e irrequieto, é o epíteto disso mesmo, de uma infantilidade quase esquizofrénica: em campo, ele é um rapazinho bem-comportado, o aluno que tira vintes a todas as disciplinas, irrita a competição e nos deixa boquiabertos com a simplicidade com que atinge a glória. Quando perguntou a um "gigante" holandês, durante a flash interview após a partida dos quartos de final, "Qué miras, bobo?", Lionel Messi levou-nos de volta aos bancos da primária – "para onde é que estás a olhar?", "quem diz é quem é". É assim que se sente o adepto do futebol puro, infantil, jovial, quando o vê em campo. Messi é sobranceiro, levitando entre rivais, soltando suspiros quando a bola falha o alvo e murros na mesa quando o colega não atinge a sua superior inteligência e desperdiça um passe ou falha uma desmarcação. 

Lionel Messi beija o troféu da Copa do Mundo da FIFA 2022 no Catar, 18 de dezembro de 2022.
Lionel Messi beija o troféu da Copa do Mundo da FIFA 2022 no Catar, 18 de dezembro de 2022. Foto: Getty Images

Ao tornar-se campeão mundial pela Argentina, Messi tornou-se sem margem para dúvidas o melhor jogador da história do futebol. Já sabíamos que era maior do que todos os outros, mas, ao levantar a taça, encerrou definitivamente a disputa. Ele é Maradona, com mais longevidade, é Pelé, com adversários mais competentes, é Cristiano, com menos músculos e horas no ginásio. Ao contrário de Ronaldo, que nos mostra o quão complicado é jogar futebol, Messi faz-nos crer que também nós poderíamos fazer o que ele faz. Ao contrário de Pelé, as suas piruetas e habilidades servem apenas o propósito do golo. São a arte ao serviço. E enquanto o "bandido" El Pibe levava a bola na sua cantiga, Messi compõe uma sinfonia. Eis a beleza das coisas, o talento de Lionel é natural e displicente, existe e não damos por ele, é soberbo mas não desperdiçado. 

Lionel Messi celebra com os filhos a vitória da seleção argentina na Copa do Mundo da FIFA 2022 no Catar, 18 de dezembro de 2022.
Lionel Messi celebra com os filhos a vitória da seleção argentina na Copa do Mundo da FIFA 2022 no Catar, 18 de dezembro de 2022. Foto: Getty Images

Na final do Mundial do Qatar, sus muchachos derrotaram, num jogo de lágrimas e de suor, uma França que conta com outro dos meros mortais, Kylian Mbappé, autor de um hat-trick que não foi suficiente para bater os argentinos. Foi apenas a segunda vez na história que um futebolista assinou três golos numa final. Desta vez, perdendo. Quando do outro lado está Messi, o extraordinário não chega. Durante anos, observámos as contendas semanais entre o 10 do Barcelona e Cristiano, o 7 do Real Madrid, numa disputa que elevou Ronaldo à estratosfera, golo a golo, bis a bis, hat-trick a hat-trick sem alguma vez atingir a classe, os números e o mito de Messi. Uma competição de recordes: quem tem mais golos nas ligas domésticas, na Liga dos Campeões, pela Seleção, mais golos de livre direto, de grande penalidade, mais eleições de MVP (Most Valuable Player). A saudável competição entre o português e o argentino, dada por terminada, deixa-nos um legado inigualável. Assistimos à história a ser feita em direto nos canais de desporto ou em estádios espalhados Europa e Mundo fora e vimos o contraste entre o bad boy Cristiano, esbracejando, cerrando os punhos, sempre em busca do prejuízo, a tornar-se imortal ele mesmo ao perseguir o argentino. E vimos o argentino sempre calmo, cristalino, reencarnação em campo de um Maradona capaz do impossível. "O mais humano dos deuses," escreveu o uruguaio Eduardo Galeano sobre Diego. Que dizer, então, de Messi, cujo talento não foi desperdiçado entre pecados? Que o mito de Messi é precisamente o de não ser sequer capaz de ser humano. 

Lionel Messi recebe uma peça tradicional árabe, denominada bisht, do Xeque Tamim bin Hamad Al Thani, Emir do Catar, durante a cerimónia de entrega de prémios após a final da Copa do Mundo da FIFA 2022 no Estádio Lusail, 18 de dezembro de 2022.
Lionel Messi recebe uma peça tradicional árabe, denominada bisht, do Xeque Tamim bin Hamad Al Thani, Emir do Catar, durante a cerimónia de entrega de prémios após a final da Copa do Mundo da FIFA 2022 no Estádio Lusail, 18 de dezembro de 2022. Foto: Getty Images

Duas décadas no topo 

Jogam-se os 74 minutos da partida de inauguração do Estádio do Dragão, no Porto, entre a equipa da casa e o FC Barcelona. Estamos em 2003, a um ano da realização do Euro 2004, organizado por Portugal. Na sequência de um lançamento de linha lateral, o árbitro interrompe o jogo para uma substituição na equipa catalã. Com o banal número 14 nas costas, entra pela primeira vez na equipa de seniores um miúdo, com apenas 16 anos e 7 dias de idade. Passaria quase despercebido, num jogo com pouca história, mas foi ali, no Porto, que Lionel Messi fez a sua estreia pela equipa que o lançaria à ribalta. 

Lionel Messi nasceu em Rosário, Argentina. Como em todos outros mitos do futebol, deu cedo nas vistas, e teve na avó Celia a figura que o impulsionou a dar os primeiros passos no mundo do futebol. De corpo franzino, foi diagnosticado como tendo deficiência de hormona de crescimento. Iniciou-se no Newel’s Old Boys e, quase a passar para os rivais do River Plate, acabou por ser observado pelo caçador de talentos do FC Barcelona Carles Rexach. O FC Barcelona pagaria os tratamentos hormonais com cujos custos a família de Messi se debatia e o rapaz aterraria na capital da Catalunha. 15 a 20cm ganhos, estreava-se aos 17 anos na Liga e, aos 21, era já uma das estrelas da equipa-maravilha do treinador Pep Guardiola. 

Lionel Messi
Lionel Messi Foto: Instagram

Depois, escreveu uma das páginas mais bonitas do futebol e do desporto. Com os médios fantasistas Xavi e Iniesta, formou um dos mais poderosos triângulos criativos do futebol moderno e, aos poucos, relegou para segundo plano todos os companheiros de ataque que o treinador colocava a seu lado, fossem eles Samuel Eto’o, um dos melhores africanos de sempre, o egotista sueco Zlatan Ibrahimovic ou o finalizador francês Thierry Henry. A partir de 2015, com Suarez e Neymar formou o trio de ataque MSN, que competia com o BBC (Bale, Benzema, Cristiano) do Real Madrid, quase sempre com vantagem catalã. Com o FC Barcelona, ganhou tudo o que havia a ganhar. A mudança, em agosto de 2021, para o Paris Saint-Germain levá-lo-ia ao encontro de Kylian Mbappé, o prodígio francês que derrotou nesta final do mundial do Catar. 

Lionel Messi com os filhos em Ibiza
Lionel Messi com os filhos em Ibiza Foto: @antonelaroccuzzo

No palmarés tem dez ligas espanholas, quatro ligas dos campeões e sete bolas de ouro – é possível que lhe junte uma oitava. Mas os troféus, inúmeros, e os recordes quase incontáveis, ficam sempre em segundo plano. O que fica de Messi são as suas exibições de luxo, os passes nunca vistos, os golos "impossíveis", que seriam sempre impossíveis com ou sem troféus no palmarés. Mas eles existem e com o Mundial de 2022, as contas estão acertadas, não há contenda. Lionel Messi, o argentino de 1,70m e pés de veludo, inscreveu para sempre o nome no primeiro lugar do pódio. 

Este é o hiperbólico Messi, o Picasso, o Mozart, o Shakespeare do desporto-rei. O GOAT – greatest of all time.
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