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Convento do Espinheiro, um hotel clássico que já recebeu reis e rainhas

Agora chegou a nossa vez de desfrutar deste grande clássico da hotelaria nacional, em plena cidade de Évora.

Foto: D.R.
14 de outubro de 2020 | Bruno Lobo

Uma boa história tem sempre um episódio mais picante, e o desta é particularmente delicioso. Corria o ano de 1490 e a princesa Isabel, filha dos reis católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela, chegava a Évora para casar com o príncipe Afonso de Portugal, filho de D. João II. 

Todos os casamentos reais serão importantes, mas este era particularmente relevante, pois firmava a paz entre os dois países desavindos, e faria do "nosso" D. Afonso rei de duas das mais importantes coroas da Europa. Era o casamento do século, portanto. Infelizmente o príncipe viria a morrer poucos meses depois da boda, mas para a nossa história importa reter que foi aqui que a Infanta se instalou, com toda a sua comitiva. E foi também aqui que recebeu a visita do noivo, e os dois príncipes não souberam - ou não quiseram - esperar pelo casamento para celebrar a sua "união". Foi consumada nessa noite, nesta casa de Deus, e para mais "no quarto mais perto da capela". Um cronista chamou-lhe "o ajuntamento real" e o pecado chocou naturalmente a moral e os bons costumes da época. Até de Deus, pois diz-se que nessa noite rebentou uma tormenta tão forte que  derrubou um torreão do convento. O quarto, esse, continua de pé, ganhou o nome da infanta e é hoje um dos mais procurados do hotel. Obviamente.

Bar do Convento Espinheiro
Bar do Convento Espinheiro Foto: D.R.




O Convento do Espinheiro, Historic Hotel & Spa abriu portas há exatamente 15 anos, uma bonita idade, mas que não contabiliza os muitos séculos de tradição que já leva na arte de bem receber - e cujos ecos chegaram evidentemente até nós. D. João II era "visita" frequente, tal como D. Sebastião ou D. Manuel I, e não era certamente por serem mal recebidos. O convento pertencia à ordem de São Jerónimo, uma ordem intelectual muito popular nesse tempo em Portugal (basta lembrarmo-nos de um famoso mosteiro de Lisboa) e, a julgar pelo tamanho da adega, os próprios monges também não se tratavam mal.

Vista de drone do Convento
Vista de drone do Convento Foto: D.R.




Hoje, nessa adega cuja construção foi supervisionada por Diogo de Arruda, o mesmo que desenhou a famosa janela do Convento de Cristo, fica o restaurante Divinus, um dos ex-libris do hotel. O cenário é realmente magnífico, mas que peca na criação de um ambiente mais sofisticado ou intimista, muito por culpa da iluminação demasiado presente. A carta é extensa, de inspiração alentejana e os pratos preparados eminentemente com produtos locais, alguns da própria horta. Aguardamos para um futuro próximo a possibilidade de recuperação de algumas dessas antigas refeições conventuais para a carta, até porque estão bem descritas e detalhadas nos registos de época, sobretudo as dos dias de festa… 

Na adega cuja construção foi supervisionada por Diogo de Arruda, o mesmo que desenhou a famosa janela do Convento de Cristo, fica o restaurante Divinus
Na adega cuja construção foi supervisionada por Diogo de Arruda, o mesmo que desenhou a famosa janela do Convento de Cristo, fica o restaurante Divinus" Foto: D.R.







Na antiga cozinha do convento funciona outro restaurante, o Oliva, onde até existe uma mesa no lugar do antigo fogão de chão, debaixo de uma enorme chaminé.  A inspiração é italiana, com destaque para as pizzas, e o que parece um contrassenso na realidade resulta muito bem, sobretudo para famílias com filhos mais pequenos. Tem ainda uma bonita esplanada virada para os jardins interiores, pelo que se o tempo permitir, está-se especialmente bem.

Restaurante Oliva
Restaurante Oliva Foto: D.R.




A recuperação do Espinheiro foi uma obra notável do grupo de hotelaria português que gere o convento, que encontrou toda a estrutura num tal estado de abandono que "doía na alma", como disse em tempos José Hermano Saraiva. Um monumento em risco de ruína foi totalmente recuperado, historicamente preservado e aberto ao público. Tudo isso sustentado num negócio de hotelaria, e é inegável que tem outro encanto ficar num lugar com um passado riquíssimo, que se cruza tantas vezes com a própria história do país. No entanto, como hotel tudo isso de pouco valerá se falhar na hospitalidade que se exige a um 5 estrelas, e é aqui, felizmente, que o Espinheiro brilha mais alto: desde o serviço atencioso e afável às melhores casas de banho deste lado dos Urais (vão perceber quando aqui se hospedarem…) tudo se conjuga para uma experiência memorável.

Capela do Convento Espinheiro
Capela do Convento Espinheiro Foto: D.R.




Tanto para fazer e tão pouco tempo

Há uma forma mais simpática e confortável de nos adaptarmos aos constrangimentos da pandemia e é por isso que nos ligam do Espinheiro para marcar previamente os serviços ou os horários do pequeno almoço e das refeições, se assim pretendermos. Algumas experiências até são oferta, como a visita guiada ao mosteiro para ficar a conhecer melhor um pouco esta história, seguida de uma prova de vinhos. Será mais uma forma simpática de nos receber do que propriamente uma prova séria, mas se for caso disso aconselhamos uma visita à Fita Preta, de António Maçanita, com quem o hotel tem parceria e onde se produzem alguns dos melhores vinhos alentejanos. Consoante as datas, poderá também participar noutros workshops para colocar a família inteira com a mão na massa: doçaria conventual ou cozinha alentejana, aprender a fazer pão, gelados caseiros, broas de azeite, ou aulas de cerâmica, porque nem tudo gira à volta da gastronomia. E que tal passar aqui o Halloween? está a ser preparada uma festa - secreta - especial, por isso não se esqueça de colocar as fantasias na mala.

O convento esconde ainda um templo de tranquilidade, que apesar da modernidade é bem capaz de ser um dos locais em melhor comunhão com o passado. Pois se antigamente reis e rainhas para aqui vinham em retiro espiritual, agora é no centro de Wellness que vamos encontrar um conjunto de tratamentos para revitalizar o corpo e o espírito. Porque sabe mesmo bem ser assim mimado.

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