Conversas

Pedro Oliveira e o regresso dos Sétima Legião: “Queremos emocionar o público”

Os Sétima Legião estão de volta para dois concertos comemorativos dos 40 anos de carreira, que servem também para homenagear em palco o produtor e teclista do grupo, Ricardo Camacho, falecido em 2018.

30 de novembro de 2022 | Miguel Judas

Embora efémero (por apenas duas noites), o regresso dos Sétima Legião aos palcos é um dos momentos musicais do ano, como se comprovou, aliás, pela velocidade com que voaram os bilhetes para os concertos da Culturgest, marcados para quinta e sexta-feira (1 e 2 de dezembro). O motivo, mais que óbvio, é a celebração dos 40 da banda, tal como também já havia sido feito em 2012, aquando das três décadas de carreira. Desta vez, porém, há ainda uma outra razão, porventura ainda mais importante, como sublinha o vocalista e guitarrista Pedro Oliveira nesta entrevista à Must, que é a de homenagear em palco o teclista Ricardo Camacho, desaparecido há quatro anos e um dos grandes responsáveis, enquanto produtor, pelo sucesso dos Sétima Legião. "É alguém que nos continua a fazer muita falta, vai ser a primeira vez que vamos tocar sem ele", refere o músico, que em 1982, com os amigos Nuno Cruz (bateria) e Rodrigo Leão (baixo), formou os Sétima Legião, à época pouco mais que uma banda de adolescentes influenciados por nomes como New Order, Joy Division ou Echo & the Bunnymen. O primeiro single, Glória, saiu apenas um ano depois, pela Fundação Atlântica, a editora criada por Miguel Esteves Cardoso, Pedro Ayres Magalhães e Ricardo Camacho. Pouco tempo depois também este último se tornaria membro da banda que deixou para a memória coletiva da música portuguesa temas como Noutro Lugar, Sete Mares ou Por Quem Não Esqueci, agora de novo recordados nestes concertos, nos quais se apresentará com a formação de sempre: Pedro Oliveira (voz e guitarra), Rodrigo Leão (baixo e teclas), Nuno Cruz (bateria, percussão), Gabriel Gomes (acordeão), Paulo Marinho (gaita de foles, flautas), Paulo Abelho (percussão, samplers) e Francisco Menezes (coros), sendo Ricardo Camacho substituído por João Eleutério, músico que faz parte da banda de Rodrigo Leão.

Os Sétima Legião estão de volta por duas noites
Os Sétima Legião estão de volta por duas noites

Porque é que decidiram regressar aos palcos, depois de uma ausência tão prolongada?

Os 40 anos são uma data importante e a exemplo do que já havíamos feito em 2012, quando assinalámos as três décadas com um concerto, pensámos que seria uma boa ocasião para regressar aos palcos. E existe outra razão, que para nós até é bastante mais importante, que é a de homenagear o Ricardo Camacho, um dos grandes responsáveis pelo sucesso dos Sétima Legião e de quem sentimos uma falta imensa.

Como vão ser estes concertos para a banda, no sentido em que serão os primeiros sem Ricardo Camacho?

Vamos sentir muito a falta dele em palco. Confesso que no início nem concordava muito com este regresso sem ele, mas depois conclui que seria uma bonita homenagem. Mas vai ser duro, porque é uma falta física muito forte para a banda. Sentimos falta da disciplina dele nos ensaios, por exemplo. E há sons que só ele conseguia fazer e são irrepetíveis. Por outro lado, vamos ter a felicidade de ter connosco o Francisco Menezes, que hoje é embaixador de Portugal em Madrid e já não tem tanta disponibilidade. E no lugar do Ricardo vai estar o João Eleutério, que toca há anos com o Rodrigo Leão e além de um enorme músico também já é como se fosse família.

É isso que os Sétima Legião são, uma família?

Somos amigos desde miúdos e isso condiciona muito todas as decisões que tomamos, porque ao contrário de certas bandas, em que cada um seguiu o seu caminho, nós estamos juntos muitas vezes, apesar de não tocarmos ou ensaiarmos de forma tão regular.

Qual é o segredo para a música dos Sétima legião ter envelhecido tão bem e soar, ainda hoje, tão atual como então?

Se envelheceu assim tão bem não sei, não me sinto capaz de fazer essa avaliação, mas há de facto algumas canções que ficaram na história, sim, e essa sensação de que conseguimos criar algo que continua a tocar as pessoas honra-nos muito. Poderá também haver um lado mais nostálgico para o público, por estas canções recordarem um tempo importante das suas vidas, mas também poderá haver algo mais, não sei. De qualquer forma só me honra que, passado todo este tempo, as pessoas continuem a gostar da nossa música.

"Só me honra que, passado todo este tempo, as pessoas continuem a gostar da nossa música.", confessa Pedro Oliveira

Quando é que tiveram noção que a vossa música se tinha tornado tão transversal?

Foi algo que aconteceu quase de um dia para o outro, a partir do momento em que as nossas canções começaram a passar na rádio. Éramos o que se pode chamar uma banda de culto, com poucos fãs mas muito fiéis, e um dia, ao fazermos a primeira parte do concerto do Lloyd Cole, tínhamos o público todo a cantar as nossas letras.

Sendo que as vossas referências iniciais até eram bastante alternativas, digamos...

Sim, os Joy Division ou os New Order, era esse o som e o imaginário que nos influenciava e também por isso foi tão importante o ingresso na Fundação Atlântica, que víamos como uma espécie de Factory portuguesa. Era a nossa editora de sonho e editar lá um single aos 17 anos e logo depois um álbum foi isso mesmo, a realização de um sonho. Era a primeira vez que entrávamos num estúdio a sério e lembro-me que gravámos tudo em apenas dois dias (risos), porque o aluguer era bastante caro.

É nessa altura que o Ricardo Camacho ingressa no grupo?

Sim e a partir do segundo disco começa a sentir-se a sua influência e também do Gabriel Gomes, que entretanto também havia entrado. A chegada deles abriu muitos e novos caminhos para a nossa música, que passou a ser bastante mais eclética, com os resultados que se conhecem.

Com a chegada de novos membros a música da banda tornou-se
Com a chegada de novos membros a música da banda tornou-se "mais eclética"

Como vai ser o alinhamento destes concertos?

Quando decidimos avançar colocámos muitas hipóteses em cima da mesa, mas optámos pelo formato mais fácil e tocarmos o mesmo alinhamento do concerto dos 30 anos, que demos em 2012. O nosso principal objetivo é emocionar o público e para isso temos de tocar todas as músicas que todos estão à espera de ouvir.

E há alguma possibilidade de um dia termos um regresso à séria dos Sétima Legião com temas novos?

Já falámos várias vezes disso, até porque o Ricardo deixou algumas coisas inacabadas que um dia gostaria de ver concluídas. Mas para isso é preciso tempo e hoje todos nós temos vidas muito diferentes, que nem sempre nos permitem ter essa disponibilidade. Vamos ver, é algo que ainda continua em aberto...

A banda já falou várias vezes sobre um possível regresso
A banda já falou várias vezes sobre um possível regresso

 Sétima Legião – 40 anos

Culturgest, Lisboa. 1 e 2 de dezembro, quinta e sexta, 21h. €30

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