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Branko: "Este disco serve tanto para dançar noite fora como para quando se está sozinho em casa a lavar a loiça"

Branko está de regresso com OBG, um álbum que apresentou online, a partir de locais tão inusitados como a isolada Serra da estrela ou uma Avenida da Liberdade deserta. Com isso descobriu uma nova sonoridade, mais introspetiva, que tanto pode ser celebrada na pista de dança como servir de banda sonora para a vida do dia a dia.

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03 de junho de 2022 | Miguel Judas

Já lá vão 16 anos desde que um grupo de miúdos da Amadora anunciou ao mundo ao que vinha, com um primeiro disco de título bastante premonitório – From Buraka to the World. Sobre os Buraka Som Sistema já quase tudo foi escrito: correram o planeta e tornaram Lisboa no epicentro de uma nova música, eletrónica e urbana, nascida na periferia mas pronta para conquistar o mundo. Foi sobre este legado que João Barbosa, o músico, produtor e dj mais conhecido por Branko, 42 anos, se tornou, também ele, numa referência internacional da música eletrónica urbana, como artista, mas também enquanto editor, produtor de programas de rádio ou apresentador de programas de televisão. Um artista completo, como se vê, que descobriu um novo caminho durante a pandemia, mais virado para dentro, mas igualmente aberto ao mundo. É essa premissa de OBG, o novo álbum de Branko, que, como o título deixa adivinhar, é assumido nesta entrevista como um manifesto de gratidão.

A quem é que este título agradece?

A toda gente que não deixou de estar presente. O título resume um sentimento de gratidão enorme, porque quando a pandemia nos tirou o tapete, percebi que, por baixo, havia afinal uma rede enorme para me amparar, suportada por pessoas atentas a novas formas de comunicar. E essas pessoas acabaram por chamar outras, que se calhar nunca antes tinham ligado à minha música.

Foto: Lisa Lankes

É para elas, este álbum?

Não sei. Sei é que é um álbum feito sem pensar tanto em quem o vai ouvir. E isso permitiu-me um certo regresso às origens, no sentido mais rudimentar do processo criativo, que se tinha tornado muito mais social, digamos assim, nos últimos anos, devido às constantes digressões e colaborações, e agora voltou a ser muito mais solitário.

Será este um álbum muito mais virado para dentro, não só a nível pessoal, mas também na forma como parece ter redescoberto um novo conceito de portugalidade para a sua música?

Isso deveu-se muito às paisagens dos sets que fiz durante a pandemia. Tentei sempre tornar cada atuação num momento único, com música que se adequasse ao local e o set da Serra da Estrela - será talvez sítio aquele onde isso se sentiu mais. Por outro lado, houve também um lado de memória que foi despertado nesse processo, muito embora essa portugalidade tenha sido um exercício consciente. Essa redescoberta tornou-se muito estimulante, através de artistas como o Pedro Mafama ou a Rita Vian e o facto de ter trabalhado com eles despertou-me ainda mais interesse.

Foto: Lisa Lankes

Daí esse lado mais contemplativo e introspetivo do álbum, tão contrastante com o conceito de festa que é lhe habitualmente associado?

Esse lado mais contemplativo também tem a ver com tudo o que passámos, enquanto sociedade. Deixámos de sair, de estar com pessoas e passámos a ter mais tempo. Só tínhamos duas opções: chorar pelo que estávamos a perder ou encontrar novas formas de comunicar para chegar às pessoas. Foi importante trazer esse lado mais introspetivo para o álbum, que tanto pode servir para dançar noite fora como banda sonora para um jantar de amigos ou enquanto se está sozinho em casa a lavar a loiça. De certa forma, acho que me consegui explicar melhor enquanto artista.

O disco OBG
O disco OBG

Em que sentido?

Por defeito, a música eletrónica serve para ser dançada e não para ser ouvida com grande profundidade intelectual. Neste álbum, pela primeira vez, consegui trazê-la para fora dos clubes e dos festivais e com isso torná-la mais questionada e transversal. Normalmente, quando acabo de atuar, as minhas redes socais são inundadas com vídeos de gente a beber ou a dançar e agora recebo perguntas sobre as pesquisas que fiz, sobre os sons que usei, como e porque os usei.

Sentiu uma maior valorização do artista, e não apenas do DJ?

Passou a haver uma maior valorização sobre o processo de pesquisa que conduz a determinado som ou a determinada canção e isso é muito interessante. E importante.
Saiba mais Branko, OBG, Album, Disco, Música, Entrevista
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