Conversas

Mariana Morgado Pedroso: “O verdadeiro luxo está na intemporalidade”

A CEO e Owner da Architect your Home, com presença nos mercados nacional e internacional, escolhe a sua prancha de bodyboard como um dos seus objetos mais luxuosos. Mas há uma explicação: um objeto com o qual se relaciona com o oceano onde sempre revive experiências únicas e tudo flui com naturalidade.

Mariana Morgado Pedroso Foto: DR
20 de março de 2026 | Augusto Freitas de Sousa
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Como define luxo?

Na qualidade de arquiteta, luxo é a luz natural que entra no momento certo, é o silêncio proporcionado por um bom isolamento, é a fluidez entre interior e exterior, é a autenticidade dos materiais que envelhecem com dignidade. Não se mede pelo custo, mas pela qualidade do desenho, pela precisão da execução e pela forma como o espaço eleva o quotidiano de quem o habita.

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Considera-o um investimento financeiro, emocional ou cultural? 

O luxo pode ser simultaneamente um investimento financeiro, emocional e cultural, mas raramente é apenas um deles. É um investimento emocional porque o verdadeiro luxo está na forma como o espaço faz sentir: conforto, pertença e identidade; e é cultural, pois a arquitetura dialoga com o contexto e com a memória do lugar. No fundo, para um arquiteto, o luxo mais sofisticado é aquele em que o investimento financeiro serve uma visão emocional e cultural, e não o contrário.

Que marcas ou experiências são referência para si neste universo e porquê? 

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As experiências de estadia são o que mais destacaria, pela marca que deixam no nosso espírito. Uma boa experiência de hospitality, seja pela relação que se cria com o staff que nos acolhe, seja pelas várias atividades que se podem desenvolver é algo que reflete o luxo na sua essência. Exemplo disso é uma estadia no São Lourenço do Barrocal, com a sua calma e arquitetura discreta, ou no Six Senses Douro Valley, com as vistas incríveis sobre o rio e um spa de onde saímos prontos para o que for preciso. 

Como se distingue da ostentação? 

Cada vez mais, o verdadeiro luxo é menos sobre ostentação e mais sobre autenticidade, escassez, personalização e significado – valores que também dialogam profundamente com a arquitetura. É a experiência diária elevada pelo desenho. Um projeto luxuoso respeita e interpreta essa dimensão, acrescentando significado, não necessariamente ostentação. 

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Qual o papel da exclusividade? 

A exclusividade na arquitetura reside na singularidade da resposta. O seu papel é criar espaços que não poderiam existir para mais ninguém, naquele lugar específico, com aquele cliente específico. É a personalização profunda – na implantação, na materialidade, na relação com a luz e na escala – que transforma um projeto em algo irrepetível. Exclusividade também significa tempo: tempo para pensar, desenhar, detalhar e executar com rigor. Na arquitetura de luxo, a exclusividade afasta-se da ostentação e aproxima-se da autoria, da precisão e da adequação absoluta ao contexto e ao utilizador. No fundo, o papel da exclusividade é elevar a arquitetura de solução funcional a expressão cultural e pessoal, tornando o espaço não apenas habitável, mas verdadeiramente único. 

O luxo é mais uma questão de conforto, estética, status ou cultura? 

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O luxo, na sua forma mais sofisticada, é a síntese equilibrada desses quatro elementos. Destacaria a estética, pois traz identidade e é onde a minha profissão intervém – é a harmonia das proporções, a escolha criteriosa dos materiais e a sensibilidade ao detalhe que transformam o funcional em extraordinário. O status existe, inevitavelmente, como dimensão simbólica, mas é o que menos me diz neste contexto. O luxo comunica posicionamento e distinção social, mas, quando se limita a isso, torna-se superficial. A cultura é o que lhe dá profundidade: a relação com o contexto, com a história, com o saber-fazer, com a memória e com os valores de quem habita o espaço – isso é o verdadeiro luxo. 

Qual foi o último objeto ou experiência de luxo que a marcou? 

Um Tag Heuer vintage da minha mãe. Uso-o como uma jóia, mais do que como uma peça funcional. 

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Como lida com tendências? Segue ou ignora? 

Estou atenta, mas não sigo tendências cegamente. No luxo, seguir tendências pode ser tentador, mas depender delas é arriscado, embora ignorá-las não seja sequer hipótese no mundo de hoje. Ainda assim, no universo do luxo, e especialmente na arquitetura, a obsessão por tendências conduz à obsolescência rápida, que é o oposto do luxo. O verdadeiro luxo está na intemporalidade. Um projeto de luxo pode dialogar com tendências – sustentabilidade, materiais naturais, minimalismo, tecnologia invisível – mas deve fazê-lo de forma crítica e coerente com a identidade do cliente e do lugar. Na minha opinião, seguir tendências é fácil. Criar algo que permaneça é mais raro. E raridade, no luxo, é valor. 

Que serviços ou detalhes fazem uma experiência verdadeiramente luxuosa para si? 

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Acima de tudo, a hospitalidade. Uma experiência verdadeiramente luxuosa constrói-se menos na ostentação e mais na precisão invisível dos detalhes: a boa comida num restaurante, a antecipação das necessidades e o respeito pelos tempos de cada pessoa num hotel, e a sensação de personalização numa loja. São fatores que, para mim, distinguem uma experiência luxuosa. 

O que mais valoriza num hotel? 

Num hotel de luxo, o que mais valorizo é a combinação entre atmosfera e serviço invisível. Primeiro, e por defeito da profissão, destaco a qualidade do espaço: luz natural bem trabalhada, isolamento acústico irrepreensível, proporções generosas e materiais autênticos. O quarto deve ser um refúgio: silencioso, confortável, com uma cama excecional e uma casa de banho pensada quase como um spa privado. Depois, o serviço que antecipa sem invadir. A verdadeira sofisticação está na descrição: eficiência sem ostentação, disponibilidade sem pressão, atenção personalizada sem formalismo excessivo. Valorizo também a identidade do lugar. Um hotel de luxo não deve ser genérico; deve refletir a cultura, os materiais e a narrativa do contexto onde se insere. Por fim, algo cada vez mais raro: tempo e serenidade. Um hotel verdadeiramente luxuoso faz-nos desacelerar e, quando um espaço consegue alterar o nosso ritmo interior, isso é luxo no seu estado mais elevado. 

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Neste universo, que oferta gastronómica procura? 

Comida autêntica, bem confecionada, servida em doses equilibradas e num espaço bem pensado.

Que novos públicos estão a entrar no universo do luxo? 

Um dos grupos mais relevantes são os Millennials e a Geração Z de elevado rendimento. Diferentemente das gerações anteriores, valorizam menos a ostentação e mais a experiência, a autenticidade, a sustentabilidade e a personalização, o chamado luxo experiencial. Procuram luxo com propósito. São globais, informados e exigem inovação, flexibilidade e design contemporâneo. À partida, devemos considerá-los consumidores conscientes, que procuram luxo sustentável: materiais éticos, processos transparentes, impacto ambiental reduzido e responsabilidade social. 

Que papel desempenham as redes sociais? 

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As redes sociais desempenham hoje um papel paradoxal no luxo: ampliam a visibilidade, mas desafiam a exclusividade. Por um lado, são uma poderosa ferramenta de narrativa e posicionamento. Permitem às marcas comunicar valores, bastidores, processos artesanais e identidade estética à escala global. O luxo deixou de ser apenas visto em revistas especializadas e passou a ser vivido em tempo real, através de imagens, vídeos e storytelling cuidadosamente curado. Por outro lado, a exposição excessiva pode diluir a aura de raridade. Nas redes, tudo é imediato e replicável, o que obriga as marcas a serem mais estratégicas na forma como mostram, quanto mostram e a quem mostram. As redes também transformaram o consumidor de luxo: tornaram-no mais informado, mais exigente e mais atento à coerência entre discurso e prática. A estética continua importante, mas a autenticidade e os valores ganharam peso. 

Que novos luxos imagina para o futuro? 

Em arquitetura, os novos luxos do futuro serão menos sobre excesso e mais sobre qualidade invisível. Imagino um luxo centrado no tempo e na tranquilidade: casas pensadas como refúgios absolutos, com controlo acústico avançado, privacidade real e espaços que desaceleram o ritmo de vida. Vejo também o luxo da saúde integrada: edifícios que promovem o bem-estar através da qualidade do ar, da luz circadiana, de materiais não tóxicos, do contacto com a natureza e de espaços dedicados ao equilíbrio físico e mental. A minha expectativa é que o luxo do futuro será silencioso, consciente e profundamente humano. 

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Que objeto possui que considere luxuoso? 

Destacaria a minha prancha de bodyboard, um objeto simples através do qual me relaciono com o oceano e revivo, vezes sem conta, experiências que são sempre únicas no momento em que acontecem. Para mim, isso é luxo: a riqueza sensorial, o tempo dedicado a mim própria, a interação com a natureza no seu estado mais puro. O luxo verdadeiro acontece quando nada distrai, nada falha (e, mesmo quando algo falha, está tudo bem) e tudo flui com naturalidade – exatamente como me sinto quando estou no mar.

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