Viver

Woodstock para capitalistas

Warren Buffett, guru de investimentos multimilionário e o homem que parece nunca tirar férias, fez 88 anos e é adorado pelos seus seguidores. Quem será o seu sucessor? Nada como ir ao evento anual da sua empresa para descobrir.

O terceiro homem mais rico do mundo, com uma fortuna avaliada em 82,5 mil milhões de dólares, a segurar um gelado da Dairy Queen, uma das suas empresas prediletas
O terceiro homem mais rico do mundo, com uma fortuna avaliada em 82,5 mil milhões de dólares, a segurar um gelado da Dairy Queen, uma das suas empresas prediletas Foto: Getty Images
11 de outubro de 2019 | James Coney

Talvez seja por ser tão cândido, expressivo e despretensioso que Warren Buffett é perito em evitar certos assuntos. Ele ri-se, faz uma piada ou, mais frequentemente, um comentário autodepreciativo. O que pensa ele sobre a China? "Estão a fazer um ótimo trabalho sem mim." Cuidados de saúde gratuitos? "Sou a favor de Cherry Coke grátis." Qual a sua opinião sobre o multimilionário Jeff Bezos, da Amazon, que é agora o homem mais rico do mundo – posição outrora detida por Buffett? "Gostava que ele me desse uma transfusão de sangue." E há uma questão que ele evita particularmente: o que vai acontecer a seguir? Por quanto mais tempo irá o Oráculo de Omaha, de 88 anos – que transformou cada 100 dólares investidos com ele em 2,59 milhões de dólares, em 1965, e que jurou deixar a sua fortuna, avaliada em 30 mil milhões de libras, a organizações de caridade –, permanecer aos comandos da empresa que fundou, a Berkshire Hathaway? Quando lhe pergunto sobre o seu plano para a sucessão, ele dá uma das suas gargalhadas suaves e animadas. "O que posso eu dizer-lhe? O dia está a aproximar-se", diz, como se uma referência cómica à sua idade pudesse ser satisfatória. Não sou só eu quem quer saber. Mais de 42 mil outras pessoas afluíram à pacata cidade de Omaha, no estado do Nebrasca, na região do Midwest norte-americano, para a reunião de acionistas anual da Berkshire Hathaway, e que também estão desesperados por uma resposta. Além disso, as suas lojas, as marcas por ele patrocinadas e a indústria turística da cidade dependem dele. Temem, em particular, que a reunião de cada ano seja a última, que este seja o longo adeus de Buffett e que, quando ele se afastar, a empresa e o evento mudem para sempre. É esta sensação de desconforto que faz toda a gente com que converso ao longo de três dias falar no assunto. Teoricamente, um evento anual é uma oportunidade para os investidores inquirirem os executivos da empresa sobre o seu desempenho e estratégia. Em qualquer outra organização do planeta, isto seria tão aborrecido como parece. Na Berkshire, porém, é uma espécie de Woodstock para capitalistas. Aquilo que começou por ser uma pequena reunião na cafetaria da empresa é, agora, uma festa de compras com descontos, piqueniques, cocktails, seminários sobre investir ao estilo Buffett, angariação de fundos para organizações de caridade e noites a comer bifes.

A entrada apoteótica de Warren Buffett, o Oráculo de Omaha, no encontro anual promovido pela sua empresa com colaboradores e acionistas
A entrada apoteótica de Warren Buffett, o Oráculo de Omaha, no encontro anual promovido pela sua empresa com colaboradores e acionistas Foto: Getty Images

No entanto, aquilo que faz realmente toda a gente afluir a este local é venerar Warren, vê-lo e ouvir um pouco da sua sabedoria. Isso, dizem-me os frequentadores habituais do evento, torna-se mais difícil a cada ano que passa. Enquanto, no passado, Buffett convivia ou tocava músicas de sua autoria no ukulele, agora ele entra e sai. À medida que as tradições chegam, lentamente, ao fim, isso aumenta os receios em relação ao futuro.

É difícil ignorar a centralidade da posição ocupada por Buffett – é impossível escapar ao seu rosto: o placard com a sua imagem é a primeira coisa que vemos ao desembarcar do avião. Vemos o seu rosto em patos de borracha, caixas de chocolates e botas de cowboy. Está estampado em pilhas de copos de plástico, crachás, carrinhos de corda e roupa desportiva. O seu nome está gravado na parte de trás de diamantes de 80 mil dólares e no fecho de um colar de pérolas de 62 mil dólares. Um pai e o seu filho, de 10 anos, originários de São Francisco, mandaram fazer fatos de Warren Buffett a condizer. É um culto – e os fiéis querem ver o seu guru.

No Reino Unido, a reputação de corretores famosos foi desfeita pelo escândalo em torno de Neil Woodford, o antigo gestor de fundos britânicos que foi obrigado a trancar o dinheiro dos seus investidores num cofre após os lucros colapsarem. Como um perito em investimentos me disse: "Estes investidores começam a acreditar no seu próprio mito. No final, a sua sorte chega ao fim."

A euforia é sempre grande neste encontro que reúne gente oriunda de vários pontos do globo. Uma acionista tira uma selfie com a imagem em tamanho real de Mr. Buffett
A euforia é sempre grande neste encontro que reúne gente oriunda de vários pontos do globo. Uma acionista tira uma selfie com a imagem em tamanho real de Mr. Buffett Foto: Getty Images

Mas não para Buffett, pelo menos por enquanto. A sua ascensão tornou-se lendária. Buffett começou a investir naquilo a que chama "beatas de cigarro", empresas com apenas mais uma baforada. Ele comprava-as baratas, vendendo-as com lucro quando as ações ganhavam um último fôlego. Essa estratégia tornou-o milionário. Em 1965, tomou posse da Berkshire Hathaway, uma empresa têxtil de New England à beira da falência. Depois conheceu o homem que viria a ser o seu fiel conselheiro, assessor e amigo, Charlie Munger, que convenceu Buffett a mudar de tática. Em vez de comprar empresas razoáveis a preços fabulosos, começaram a comprar empresas fabulosas a preços razoáveis e a ficarem com elas – um princípio que se tornou conhecido como value investing e se tornou o estilo de Buffett. Um bom exemplo é a See’s Candies, uma cadeia americana de lojas de chocolate. Buffett diz que se um homem comprar uma caixa de See’s Candies para a namorada num primeiro encontro e conseguir um beijo, "vai ser meu cliente para o resto da vida". E remata: "Não interessa o preço dos chocolates."

Buffett adora – adora mesmo – as empresas nas quais detém participações, que incluem atualmente a Coca-Cola, a Heinz, a Fruit of the Loom e a Apple. Ele transformou a Berkshire numa mistura de holding gigante com dezenas de marcas e um fundo de investimento. A estratégia deu frutos. Desde 1965, o preço das ações da Berkshire bateu o recorde do mercado acionista dos EUA em 2.570.000 por cento. Isto tornou Buffett o homem mais rico do mundo e os investidores que se mantiveram a seu lado – muitos dos quais famílias de lavradores da região do Nebrasca – também ficaram seriamente ricos. Se a sua sagacidade lhe granjeou respeito, foram os seus valores populares que lhe conquistaram adoração. Buffett é o homem de negócios que evitou a burocracia e as armadilhas da riqueza, optando por manter a sua empresa no Midwest e não em Wall Street. Ele dirige um império com cerca de 20 funcionários, sem instalações fabulosas, departamento jurídico ou de recursos humanos e sem gabinete de imprensa. Buffett não usa máscaras. Ele ainda vive de forma frugal, na mesma casa na zona ocidental de Omaha que comprou em 1958 e até há pouco tempo ainda conduzia o seu próprio carro até ao trabalho.

Filho de um congressista republicano, Buffett tornou-se democrata devido à sua primeira mulher, Susie, que foi quem lhe deu a ideia de doarem quase toda a sua fortuna. Dois anos após a morte de Susie, em 2004, Buffett anunciou que iria fazê-lo e sugeriu que os seus amigos multimilionários seguissem o seu exemplo.

"É claro que o dinheiro que ele deu a ganhar aos investidores é importante", diz Jeffrey Hogan, consultor de seguros, de Connecticut, que participa no oitavo evento, "mas é muito mais do que isso". E prossegue: "Temos de perceber todos os antecedentes dele. Buffett e Munger têm estilos de vida bastante normais. São bem-educados e tratam bem as pessoas." Hogan, de 56 anos, é um exemplo dos muitos americanos comuns que detêm ações da Berkshire Hathaway. Ele usou 2.500 dólares das suas poupanças para comprar as suas primeiras acções, há 30 anos. A mulher, Jennifer, ficou furiosa. Era o único dinheiro que eles tinham de reserva e estavam a poupar para comprar uma casa. "Foi uma coisa muito não Buffett", admite. No entanto, foi uma das melhores decisões que ele já tomou. Enquanto via os seus dois filhos, e agora os seus dois netos, crescerem, ele investiu mais.

"Esse dinheiro é, agora, um fundo para pagar a universidade dos nossos netos. Por isso, eu continuo a vir ver o Warren e o Charlie em pessoa enquanto ainda é possível, para ouvir o que eles têm para dizer e…", e começa a rir-se, "e ter esperança".

Patinhos de borracha com roupas de super-heróis imitando os rostos de Buffett e do seu vice-presidente, Charlie Munger, à venda no encontro
Patinhos de borracha com roupas de super-heróis imitando os rostos de Buffett e do seu vice-presidente, Charlie Munger, à venda no encontro Foto: Getty Images

Buffett faz a sua primeira aparição no evento, sem fanfarra, na sexta-feira à tarde, quando aparece para um dia de compras nas bancas de algumas das suas marcas. É como um "buraco negro" no enorme salão de eventos. Subitamente, o oxigénio e o som são sugados e todos os seres humanos são atraídos na sua direção. Ele conduz um carro de golfe e vem acompanhado por Munger, que tem 95 anos e precisa de uma bengala para andar.

"Vocês só cá estão porque eu estou muito velho", diz, enquanto o seu percurso é travado por uma barreira de pessoas a tirarem fotografias. Ele permanece no salão apenas o tempo suficiente para fazer algum nougat de nozes no balcão da See’s Candies. Quando ele sai, sento-me num banco ao lado de duas mulheres que conversam animadamente sobre as bancas que visitaram. Pergunto-lhes de onde são, presumindo que são velhas amigas, mas elas acabam de se conhecer. É o 20.º encontro de Laura Wimmer, de 61 anos, de Buffalo, Illinois, e o 25.º de Sally Benecke, uma nativa do estado do Nebrasca com 73 anos. "É isto mesmo", diz Sally. "É uma comunidade de pessoas que pensam da mesma maneira. Todos queremos ouvir o que o Warren e o Charlie têm para dizer. E depois, claro, há as compras." E, oh!, se esta gente compra. Mais de 16.500 pessoas entram pelas portas, na sexta-feira, e a maioria gasta ali centenas de dólares. Junto das recordações das marcas Buffett e Berkshire Hathaway, há equipamentos eletrónicos, seguros, casas móveis e barcos a motor com descontos enormes. Todos parecem ter comprado um pequeno aspirador sem fios, um Readivac Storm, por metade do preço: 50 dólares. A Heinz vende o seu novo condimento, o Kranch, um molho de salada misturado com ketchup, ao início da tarde. A reunião anual principal ocorre no sábado, num gigantesco salão de eventos que costuma servir de palco de concertos de música pop. A fila começa a formar-se às 10 horas da noite anterior, quando dois jovens canadianos chegam com os seus sacos-cama enrolados e se instalam no chão em cimento. Às quatro horas da madrugada há um fluxo constante de pessoas e, meia hora depois, a fila dá a volta ao quarteirão. No total, um número estimado em 25 mil pessoas junta-se na fila mais igualitária de todos os tempos. Não interessa quem são, quanto investiram ou durante quanto tempo, todos aguardam a sua vez. O único requisito é ter, pelo menos, uma ação da Berkshire. Há estudantes universitários com calças de fato de treino e hoodies, casais de classe média na casa dos 50 e dos 60 anos, empresários multimilionários de fato, famílias bem vestidas e – outro sinal da mudança que varreu a empresa nos últimos anos – centenas e mais centenas de chineses. As amizades são instantâneas, alimentadas por valores partilhados. Um tema quente é o anúncio, feito por Buffett na noite anterior, de que a Berkshire acaba de comprar ações da Amazon pela primeira vez. O selo de aprovação faz o valor da Amazon subir 20 mil milhões de libras em poucos minutos. Warren faz e Wall Street copia.

"Não fui eu que as comprei", explica Buffett, que já admitira noutras ocasiões que falhara ao não se aperceber do sucesso da gigante tecnológica. A sua confissão é significativa porque significa que a sua equipa principal tomou uma decisão de investimento importante, enquanto, no passado, todas as decisões teriam sido tomadas por ele.

Quando as portas do centro de eventos se abrem, finalmente, às sete horas da manhã, os devotos correm para a primeira fila. Não há lugares reservados, nem se pode guardar lugar para ninguém.

Warren Buffett, CEO da Berkshire Hathaway e o vice-presidente Charlie Munger participam na reunião anual de acionistas de 2019 em Omaha, Nebraska
Warren Buffett, CEO da Berkshire Hathaway e o vice-presidente Charlie Munger participam na reunião anual de acionistas de 2019 em Omaha, Nebraska Foto: Getty Images

Buffett chega aos salões adjacentes às seis e meia. Apenas meia dúzia de representantes da comunicação social e donos de bancadas estão no local para recebê-lo. Ele está descontraído: veste um fato escuro largo e sapatos macios e tem as mãos nos bolsos. O que tomou ao pequeno-almoço, pergunto-lhe. "Uns golos de Cherry Coke." Ele responde amigavelmente às perguntas com uma educação sem floreados. É impossível imaginá-lo atrapalhado. Quando um assunto lhe agrada, ele dá uma resposta mais longa, com exemplos bem escolhidos para ilustrar o seu ponto de vista, como, por exemplo, a sua opinião sobre a bitcoin. "O que é?", pergunta. "É uma concha. Não é um investimento. É uma peça de jogo. Está associada a imensas fraudes. Algumas pessoas perderam imenso dinheiro com ela. A bitcoin não produziu nada. Imagine que eu arranco um botão do seu casaco e lhe ofereço mil dólares por ele. Talvez o possa vender por dois mil, mas, afinal de contas, aquele botão só serve para uma única coisa. Posso passar-lhe um cheque de um milhão de dólares. Mas esse cheque vale um milhão de dólares? Não é o valor da caneta. Não é o valor do papel. É porque eu tenho um milhão de dólares depositados algures."

São pérolas de conhecimento genuínas como esta que os acionistas da Berkshire procuram e granjearam a Buffett a alcunha de Oráculo de Omaha. Nas poucas horas que passo na sua companhia, ele consegue classificar o Brexit como um erro, dizer que os maus banqueiros e as suas mulheres deveriam ser privados das suas fortunas e dar o seu selo de aprovação à Boeing, apesar da tragédia dos erros de software que poderão ter causado dois despenhamentos. No entanto, a sua sinceridade só serviu para levantar mais questões sobre o motivo pelo qual não é mais claro em relação ao seu sucessor. Ao atravessar o salão de eventos, ele faz uma pausa para comer um gelado na banda da Dairy Queen, outra das suas marcas preferidas. Ainda nem são sete horas.

Em anos anteriores, Buffett competiu num jogo de atirar jornais com o seu bom amigo e fundador da Microsoft, Bill Gates, tentando acertar com um exemplar do Omaha World-Herald no tapete da porta de uma casa. Este ano isso não vai acontecer, dizem-me, sem acrescentar qualquer explicação. A sala de concertos enche-se até à capacidade máxima – 40 mil pessoas – e os acionistas começam a sentar-se nas escadas. Quando o holofote azul incide, finalmente, sobre Buffett e Munger, é difícil escapar ao fenómeno – todos, incluindo Gates, o chefe da Apple, Tim Cook, e alguns dos nomes mais famosos de Wall Street, estão aqui para ver dois velhotes com fatos escuros sentados atrás de uma secretária. Pode não ser o espetáculo mais fabuloso à face da Terra, mas é certamente o mais rico. Apesar de terem percorrido longas distâncias até um estado agrícola no Corredor dos Tornados, os banqueiros de investimento e os gestores de fundos fiduciários de Nova Iorque são rotineiramente gozados por Munger e por Buffett devido à sua ganância e ouvem os seus comentários com um sorriso silencioso. Quando as perguntas começam, Buffett beberica uma lata de Coca-Cola e responde pormenorizadamente enquanto Munger come nougat de amendoim. Quando é a vez de Munger falar, ele acaba de mastigar, inclina-se na direção do microfone e profere frases curtas e sábias. São uma dupla fabulosa. Um rapaz de 12 anos pergunta-lhes como lidam com a gratificação adiada de ter ações. "Ou sai-se do útero com o gene da gratificação adiado ou sai-se a precisar de tudo imediatamente", diz Munger. "O Charlie sabe bem do que está a falar", acrescenta Buffett. "Tem oito filhos. É um especialista em inato ou adquirido." A grande questão de quem vai assumir o lugar de Buffett e de Munger surge, acompanhada pela sugestão de que Ajit Jain e Greg Abel, os dois assessores seniores de Buffett e os homens que se pensa virem a ser os seus sucessores, devam estar no palco com eles. Buffett evita a questão, dizendo que é demasiado complicada. Mais uma vez é uma resposta, mas não a que todos querem ouvir.

Bill Gates e Warren Buffett num evento organizado pela Columbia Business School em 2017, em Nova Iorque
Bill Gates e Warren Buffett num evento organizado pela Columbia Business School em 2017, em Nova Iorque Foto: Getty Images

Na manhã seguinte, junto-me a quatro mil acionistas para uma corrida de caridade de cinco quilómetros na baixa de Omaha porque… bem, basicamente porque Warren disse "Corram". Um grupo de 28 mulheres vindas da Índia dá passos de corrida na linha da partida, cantando em bengali. Para muitas pessoas presentes neste grupo, com idades compreendidas entre os 30 e os 60 anos, esta é a sua primeira viagem ao estrangeiro, mas beneficiam de uma recente autonomia financeira, graças a Buffett. O grupo chama-se Millennium Mams e é uma organização que pretende promover a literacia financeira entre as donas de casa indianas. O seu fundador, Bishnu Dhanuka, ensinou-as a seguirem os princípios de Buffett e elas não só assumiram a gestão das finanças familiares, como os seus investimentos pagaram os custos desta aventura em Omaha. E estão a divertir-se à grande. "As mulheres da Índia não costumam gerir o dinheiro da casa", diz Rachna Prasad, de Calcutá. E esclarece: "Mas com as nossas aulas e seguindo Buffett, conseguimos fazê-lo. É possível ver a diferença que isso faz na autoconfiança e no orgulho sentidos por todas." Esta história e outras como esta serão o legado de Buffett. Na noite de sexta-feira, ele aparece de surpresa num evento não oficial para mulheres investidoras, apresentando conjuntamente com a autora, Laura Rittenhouse. São apenas meia dúzia de convidados e ficam todos visivelmente pasmados quando o Oráculo avança, cuidadosamente, até à frente e se voluntaria para responder a algumas perguntas. "Isto já deveria ter acontecido", diz. "Quando alguém me contacta com uma ideia para um investimento, eu não lhe pergunto se é homem ou se é mulher. Não faz diferença. As ações não sabem quem são os donos." Ele permanece no local durante cinco minutos, mas o seu conhecimento de causa é fundamental. Quando os investidores chineses começaram a frequentar a reunião anual da Berkshire, há uma década, houve boatos sobre descontentamento. Em 2018, porém, Buffett apareceu numa reunião para cumprimentar um grupo de cerca de 700 pessoas. Agora os chineses são bem-vindos e são tantos que as lojas contratam intérpretes adicionais e os nativos de Omaha recebem formação cultural. A próxima aparição de Buffett é tema de conversa entre os acionistas. Locais habituais, como o Gorat’s Steakhouse, onde ele jantará com Gates, no domingo, estão cheios de pessoas que querem vê-lo. Num piquenique organizado no parque de estacionamento do Nebraska Furniture Mart (propriedade de Buffet), os acionistas fazem planos para visitarem a joalharia de Borsheim (igualmente propriedade de Buffett), porque em anos anteriores ele jogou ténis de mesa no local contra a campeã americana Ariel Hsing, sua protegida. No domingo, a Borsheim está à pinha. Os acionistas da Berkshire têm um desconto de 30 por cento e nove dos 15 diamantes assinados por Warren Buffett já foram vendidos. Procuro a peça mais cara da loja, um anel com um diamante rosa no valor de 2,2 milhões de libras, mas fico desiludido ao ver que está a ser experimentado e parece provável que venha a ser comprado. Buffett aparece à uma e meia. A mesa de ténis está montada, mas ele não vai jogar, dizem-me. Mais uma tradição abandonada. Em vez disso, ele joga póquer com Gates. Buffett fica durante uma hora e meia, bebericando Cherry Coke e conversando com Gates sobre séries de televisão. Os turistas chineses tiram selfies à distância, mas não tardam a aborrecer-se e vão assistir aos jogos de ténis de mesa. No final, resta meia dúzia de pessoas: dois dos homens mais ricos do mundo, alguns fãs de póquer e alguns jornalistas. Buffett levanta-se para ir embora e, quando ele se esgueira pela porta dos fundos, eu grito: "Adeus, Mr. Buffett." Ele para, faz um sorriso caloroso, acena e vai-se embora.

O estilo de Warren

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Aos 88 anos, Buffett ainda vai ao escritório na maior parte dos dias e lê até seis horas por dia. Isso permite-lhe escrutinar, cuidadosamente, as contas das empresas, de modo a detetar o mais ínfimo pormenor que espera ter escapado aos outros. Grande parte do seu estilo de investimento foi influenciado pelo livro The Intelligent Investor, de Benjamin Graham, publicado originalmente em 1949. Ele segue duas regras de investimento do livro. Regra n.º 1: nunca perder dinheiro. Regra n.º 2: nunca esquecer a regra n.º 1.

Comprar boas empresas a preços razoáveis
Buffett começou por comprar empresas moribundas baratas na esperança de conseguir um último aumento do seu valor em bolsa antes de as vender com lucro. Com a Berkshire Hathaway tornou-se famoso pelos investimentos com valor: encontrar boas marcas com uma carteira de clientes fiéis e produtos difíceis de imitar. Hoje em dia, ele detém grandes posições na American Express, Duracell, Heinz e Fruit of the Loom. "Se formos donos da Coca-Cola, somos donos de um bocadinho de milhões de pessoas", disse em tempos.

Ser frugal e começar a poupar cedo
Buffett ainda vive na casa que comprou, em 1958, por 31.500 dólares, numa rua sossegada de um bairro residencial de classe média, na zona ocidental de Omaha. Ele costuma tomar o pequeno-almoço no McDonald’s, a caminho do escritório, onde escolhe uma de três refeições, dependendo de quão rico está a sentir-se. Antes de sair de casa, pede à mulher, Astrid, que lhe deixe 2,61, 2,95 ou 3,17 dólares trocados para ele comer. Ele é também um poupador dedicado e acha que as pessoas devem começar novas. "Cada dólar que poupamos antes de termos uma família deve valer 10 dólares quando temos uma."

Dar a organizações de caridade
Foi Susie, a primeira mulher de Buffett, que incentivou a sua filantropia. Ele acredita piamente que quem tem deve dar a quem não tem. No entanto, nem todos conseguem doar 30 mil milhões de libras. Muitos investidores da Berkshire Hathaway seguem a regra 10/10/80 rule: dão 10 por cento, poupam 10 por cento e gastam 80 por cento.

Investir com paixão
Se é uma pessoa emotiva no que diz respeito a investimentos, não vai alcançar bons resultados, disse Buffett. No entanto, ele sente paixão pelas empresas onde detém participações e é frequentemente visto a beber Coca-Cola e a comer gelados Dairy Queen. Buffett também é conhecido por guardar ressentimentos. Quando ainda estudava, fez venda a descoberto de ações da AT&T – apostando que as ações iriam descer de valor – porque era a empresa na qual os seus professores tinham investido as suas poupanças para a reforma. Ele veio a adquirir a Berkshire Hathaway porque o presidente desta tentou enganá-lo, subtraindo um oitavo de ponto ao valor de cada ação.

Exclusivo The Sunday Times Magazine/Atlântico Press
Tradução: Erica Cunha e Alves

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