Viver

O que os homens não entendem nas mulheres

Para os homens, é roxo. Para as mulheres, também. Mas pode ainda ser lilás, magenta, lavanda, beringela… Este é apenas um exemplo subtil de como algo aparentemente simples pode ser entendido de formas diferentes – e dar azo a discussão. Voámos de Vénus a Marte para saber o que é que eles não conseguem perceber sobre elas. E, pelo caminho, ficámos com vontade de sussurrar: “You know nothing, Jon Snow.”

19 de novembro de 2019 | Maria Wallis

Disclaimer: este artigo não deve ser levado muito a sério. Ou melhor, deve ser levado a sério, mas só até onde um artigo sobre as diferenças entre homens e mulheres deve ser levado – mais ou menos até à barca do inferno. Se alguém se sentir magoado, ou incomodado, existem vários planetas à disposição. Porém, receamos que até mesmo lá existirão quezílias insolúveis sobre a guerra dos sexos. Comecemos pela Ciência. Em tempos de comoção social não é fácil relembrar as controversas "diferenças biológicas" – mas elas existem. O cérebro dos homens é oito a 13 por cento maior que o das mulheres. Isso não significa que sejam mais inteligentes, antes pelo contrário. Um estudo realizado pela Universidade de Edimburgo, divulgado em 2017, concluiu que o cérebro das mulheres é mais desenvolvido em certas zonas ligadas à inteligência. Eles são, claramente, melhores no raciocínio matemático, muito mais práticos, mais irrequietos e confirma-se que são excelentes a realizar tarefas… uma de cada vez. Pensam menos uma hora por dia (ao todo, terão cerca de oito mil pensamentos), são menos preocupados e mais narcisistas. As mulheres têm melhor memória, são mais sociáveis e, em compensação, confirma-se que são (muito) mais emocionais e… complicadas. Um estudo publicado na revista Psychological Science, em 2011, concluiu que as mulheres se sentem mais atraídas por homens cujos sentimentos não são claros, como se gostassem da sensação "quanto-mais-me-bates-mais-gosto-de-ti." Até aqui, nada de novo. O problema é quando estas diferenças passam do papel para o dia-a-dia

Pergunto ao meu amigo N., de 42 anos, se está disponível para partilhar algumas coisas que nunca vai entender numa mulher. Em qualquer mulher. "Até quando?" Receio o pior. "Ele nunca vai ser capaz de fazer isto de uma forma prática", penso. Para ele, mais do que uma catarse, isto vai ser um empurrão para o abismo. Não me engano. A resposta chega no dia a seguir, bem cedo. "É relativamente estúpido responder a esta pergunta porque seria generalizar o género feminino e acontece que o meu conhecimento das mulheres inclui exclusivamente mulheres que fogem a qualquer definição, rótulos e, sobretudo, dimensões superficiais e previsíveis. Portanto, genericamente, a mulher é por norma incompreensível, sobretudo quando se quer perceber e compreender com maior profundidade. Ainda para mais, para um homem com uma natureza feminina desenvolvida como eu. Mas num exercício menos filosófico, o que me é incompreensível na mulher resume-se a isto: uma apetência enorme para o sofrimento – as mulheres sofrem tanto; a incoerência autodestrutiva entre o que realmente querem e o que atraem; e, finalmente, a facilidade com que se deixam iludir. Espero que a nova geração de mulheres encontre um melhor equilíbrio entre o sonho e a realidade." Nada do que leio me choca. É tudo verdade. Se se quiser floreados, nunca se deve entrevistar um homem que ama as mulheres mais do que a vida. Adiante.

"Sinceramente, acho que a única coisa que talvez ainda me surpreenda numa mulher é a sua inesgotável capacidade de sofrimento... E, talvez, alguma inocência incorrigível... Ou melhor, o facto de não querer ver determinadas coisas óbvias normalmente relacionadas com os homens. Em geral, a mulher é melhor que o homem. Mais forte emocionalmente, mais madura, mais resolvida, mais prática e, sobretudo, com muito melhor noção do que quer e do que fazer para chegar a isso. Mas ali no meio alguma coisa falha e muitas repetem o mesmo erro infinitamente... Uma espécie de ‘bate-me que eu gosto’, que não entendo bem, que é mais típico no sexo feminino do que no masculino. E depois há ali uma espécie de não querer ver que também não entendo bem… O que quero dizer é que levam a cegueira voluntária longe demais." Só aparentemente um bon vivant é mais distante dos dilemas da condição humana. V., de 41 anos, surpreende pelo interesse com que aborda estas questões emocionais. Mais ou menos como M., de 35 anos, que confessa não entender uma série de coisas, nomeadamente "até onde levam os amuos para vencer uma discussão. São capazes de ficar eternamente amuadas, distantes, para provar um ponto". Ou "o sexto sentido. É uma arma que têm muito potente, mas descalibrada. Serve quando acertam e acham que é carta livre e que justifica tudo". E acrescenta algo que faltava em todos os testemunhos recolhidos: "A maturidade. Muito, muito desigual à dos homens, desde cedo se nota... Faz imensa confusão acompanhar um rapaz e uma rapariga desde cedo com a mesma idade e o mesmo percurso. A rapariga irá sempre anos e anos à frente, muito mais evoluída." Injusto, para eles, um trunfo, para elas, e uma diferença abissal de comportamentos entre os dois.

Seriam páginas e páginas de leitura, mas o resumo possível da conversa com A., de 41 anos, que procura incansavelmente compreender as mulheres, assenta em dois pontos: "Porque é que são tão ‘cabras’ umas para as outras? A solidariedade feminina é um mito urbano?" e "Qual a diferença entre tampões e pensos higiénicos?!" São dúvidas recorrentes nestes diálogos. Entre as coisas que L., de 37 anos, nunca vai entender estão a "tensão pré-menstrual, muito porque nunca passarei por isso", e "o quanto se preocupam com o que as outras mulheres pensam delas". Fico sem argumentos. Sei que é verdade, apesar de não saber porquê. Mudo de estratégia ? será que gerações diferentes têm inquietações diferentes? K., de 29 anos, dispara três dúvidas que deviam vir em manuais de instruções: "Crises emocionais sem razão de fundo, just because I woke up like this.  Qual é o critério para um bad hair day – para mim, o cabelo delas está sempre igual! E qual é o ângulo bom e o ângulo mau da fotografia?" D., de 28 anos, também não demora a responder. "Overthinking. Porquê complicar? Tudo e mais alguma coisa…" E acrescenta, sem medos. "Lack of confidence. Lindas, maravilhosas, independentes, inteligentes. Para que serve essa insegurança toda que fingem que ninguém vê, mas está sempre lá?" [Por esta altura, confesso-me assustada com tamanha perspicácia.] "Time. Para que é preciso tanto tempo para tudo? Porquê fazer parar o mundo e fazer esperar sem fim todo o mundo? Se é às 9, a hora certa para chegar é às 9.10, depois disso é falta de noção. Aplica-se a todas as mulheres que conheço." Além da utilização de estrangeirismos, as preocupações de interlocutores mais novos são diferentes – mas nem por isso opostas: o "demoro cinco minutos" de uma mulher será, quase sempre, proporcional a uma meia-hora e é irritante para um homem de qualquer idade; um bad hair day, que à letra significa "hoje o meu cabelo está pior que mau, por isso o meu humor está de cão", nunca será plenamente aceite por quem demora dois minutos a tratar da cabeleira; e as crises emocionais "disparatadas" ? bom, deixemos isso para o divã da psicóloga…

Do outro lado do ecrã está T., de 40 anos, um dos seres mais genuínos que conheço. Em que me pode ajudar nesta peregrinação em terras de ninguém? "Acho que percebo e entendo as mulheres plenamente." Não me espanta. "Talvez a competição seja a cena mais estranha entre miúdas. E as dores de parto. De certa forma, impressiona-me como se preparam psicologicamente para essa dor." É uma preocupação quase comovente. As suas dúvidas não se prendem com acções que atingem os homens, mas com características eminentemente femininas. Desculpa-se por "ter ajudado pouco". Em sua defesa, explica: "Convivi muito com actrizes" [risos]. Talvez ele seja dos poucos homens que realmente entende que a resposta certa para "Está tudo bem, querida? Pareces estranha…" é um sim que significa não – sempre, em todas as ocasiões, a não ser que estejamos dentro da Tiffany. Termino esta busca com B., de 40 anos de dúvidas existenciais nunca  formalmente assumidas. "Tendo em conta que são todas diferentes e com as suas manias é impossível generalizar… Não entendo a parte de tratar mal alguém quando no fundo estão interessadas. Não entendo a falta de capacidade de dizer, directamente, qual é determinado problema, optando por enigmas ou esquemas para nos sentirmos de determinada maneira e, em consequência, fazer determinada coisa que talvez, e eu disse talvez, resolva o problema." Somos assim tão complicadas, pergunto? Não há nada mais simples que te incomode, tipo ‘Porque é que vão à casa de banho em grupo?’ "Para darem beijos na boca sem os homens verem, como é óbvio." You know nothing, B.

Como dizem os americanos, the struggle is real. Longe de estarmos irremediavelmente de costas voltadas (que não estamos), o que nos separa é tão forte como tudo o que nos aproxima. De outra forma não haveria música, nem poesia, nem arte abstracta, nem amor. No final do ano passado, contemplo esta luta em genealogias mais avançadas, numa entrevista publicada no semanário SOL entre José António Saraiva, antigo director do jornal, e o seu filho, José Cabrita Saraiva, a propósito do centenário do nascimento de António José Saraiva, reconhecido intelectual e historiador. A pergunta que encerra a "conversa familiar" diz muito sobre a importância deste tema. "Se ele hoje fosse vivo, que pergunta gostarias de lhe fazer?" [Reflecte em silêncio durante uns vinte segundos.] "Olha, talvez lhe perguntasse se ele já tinha conseguido compreender as mulheres. Numa das conversas mais íntimas que tivemos, ainda em Paris, falou-me da tua avó, dos problemas que teve com ela e dizia-me que nunca tinha percebido as mulheres – embora, como eu disse, ao longo da vida tenha tido várias. E eu tenho o mesmo sentimento." 

 

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