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Salas de espera secretas em aeroportos a que poucas carteiras podem chegar

Bem-vindos ao mundo mimado das salas de espera VIP, apetrechadas com bicicletas estáticas de última geração, chefs com estrelas Michelin e obras originais de Warhol.

Foto: Unsplash
24 de fevereiro de 2023
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O documentário sobre Harry e Meghan, febrilmente assistido, começa com o príncipe filmando-se a si próprio na Suíte Windsor, em Heathrow. Esta sala regiamente batizada não faz parte da oferta regular da British Airways no principal aeroporto de Londres – pertence ao pouco conhecido mundo das salas de espera secretas em aeroportos.

Ao passageiro mais criterioso poderá ser perdoável pensar que as salas de espera da 1ª classe são o pináculo das viagens de luxo. Talvez os pontos de fidelidade tenham sido obcecadamente poupados para aquelas horas preciosas de comida e bebida gratuitas, com a garantia de um cadeirão. O mais provável é o acesso ter sido concedido como regalia de uma viagem em classe executiva. Mas, independentemente de como os passageiros vão dar consigo a apreciar um belo salmão fumado no buffet de pequeno-almoço já na área de embarque, têm de conseguir resignar-se com o facto de haver espaços privados ainda mais exclusivos no aeroporto. 

Foto: Pexels

Estas suítes secretas estão escondidas em sítios confidenciais dos terminais, que permitem aos passageiros VIP esgueirar-se rapidamente por postos de check-in e de segurança sem precisarem de se arrastar por uma longa fila de espera ou serpentear através da correnteza de lojas duty free. Muitas vezes, a viagem para estas salas de espera começa bem antes de o aeroporto estar sequer à vista: carros privados transportam os passageiros de alto nível diretamente da sua porta para um desses aposentos sagrados da aviação. À sua espera estão vinhos requintados e luxuosas espreguiçadeiras; em alguns aeroportos internacionais, os convidados serão provavelmente os únicos utilizadores daquele espaço.

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Há, como é óbvio, variações da oferta. No Aeroporto de Frankfurt, a Lufthansa tem em funcionamento uma série de salas de espera, o cúmulo das quais é uma suíte privada com capacidade pare até oito pessoas. As sumptuosas salas estão equipadas com vastos sofás macios, amplas áreas de trabalho – pode assumir-se que o principal utilizador seja o sobrecarregado homem ou mulher de negócios – e uma luxuosa casa de banho. Quando chega o momento de embarcar, os passageiros podem ser discretamente transportados da suíte para o seu avião num carro com motorista

Foto: Lufthansa

Os estofos da Lufthansa são, admitamos, um gosto bastante difícil de adquirir. Isto, no entanto, não constituiria qualquer problema no Aeroporto Internacional de Hong Kong, onde os convidados podem pedir decoração personalizada das salas, a par de todas as comodidades habituais, tais como transfers em limusina e verificação de passaportes na sala de espera. 

Não é só o príncipe Harry que goza deste serviço extraordinário: no centro VIP do Aeroporto Schiphol de Amesterdão há salas exclusivamente reservadas para a família real holandesa. Para aqueles que não estão na linha de sucessão para um trono, o acesso às salas mais privadas pode ser comprado, embora este provavelmente deva ser muito mais caro do que até um bilhete de avião na classe mais alta.

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O acesso também pode ser concedido se a companhia aérea o considerar uma pessoa suficientemente importante: uma celebridade de 1ª categoria (ou um político de alto escalão) provavelmente teria o mesmo tipo de dispositivo de segurança que requer um check-in secreto. É por isso que não é provável que vá encontrar a Taylor Swift num terminal a gastar a sua última meia dúzia de euros num Toblerone ou mesmo a deambular pela sala de espera da 1ª classe no Aeroporto JFK. A entrada naquelas salas poderá surgir em resultado de um qualquer capital cultural, mas há também os passageiros ultrafrequentes, cuja clientela é crucial para as margens de lucro das companhias aéreas – e, por isso, acedem a esses espaços sagrados graças a uma astuta manobra comercial. 

Christina Lawford, que gere a DiamondAir International, empresa que organiza serviços de viagem de luxo, diz que a personalização e a privacidade são as principais preocupações do passageiro VIP. Houve uma altura em que as suítes presidenciais eram usadas unicamente por diplomatas, diz ela: "Especialmente em aeroportos geridos pelo Estado, as salas mais privadas estavam exclusivamente reservadas para políticos e altos-quadros governativos. A Suíte Windsor começou, fundamentalmente, como um sítio para a realeza esperar pelos voos." Na maior parte do tempo, por conseguinte, aqueles sítios estavam sempre vazios. 

Foto: Lufthansa

Contudo, agora os aeroportos permitem o acesso a "indivíduos detentores de elevado património líquido [i.e., executivos de topo] e celebridades de alto nível", além daqueles que estiverem dispostos a pagar por tal privilégio. Uma estada de três horas na Suíte Windsor, por exemplo, vai sair a qualquer plebeu pelo preço de cerca de 4.000 libras [pouco mais de 4.500 euros]. No LAX, um serviço semelhante equivale a uma relativa machadada no orçamento de 2.800 dólares [perto de 2.600 euros] por pessoa.

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Lawford diz que existe um mercado considerável de passageiros abastados que estão ansiosos por "passar pela experiência do jato privado, independentemente de qual seja a sua transportadora", que é o que a sala de espera secreta proporciona. Que não se trata de um Clube Delta Sky sobrelotado, isso é certo, mas aquela mesma ânsia – de fugir à multidão para ter uma perspetiva desafogada do ecrã das partidas e um lugar de espera confortável – parece ser evidente, independentemente do estatuto.

Embora o percurso sem atritos, desde a porta de casa até ao embarque possa ser apelativo, são as comodidades dentro da sala que realmente realçam a pompa. Comida com estrelas Michelin é servida por um mordomo, assistentes pessoais para compras podem ir buscar artigos às lojas Gucci ou Harrods. Em Heathrow, os convidados são transportados com motorista em BMW Série 7 da porta de sua casa até à suíte, por uma estrada de acesso privada. As paredes estão decoradas com uma coleção rotativa de obras de arte de Warhol, Bacon e Banksy, escolhidas por um curador. 

Foto: Schiphol

A capacidade de personalizar a experiência é, evidentemente, muito atrativa. "Criámos spas pop-up nas salas de espera para os convidados que realmente querem relaxar", diz Lawford. "Mas também velámos pelos apetites de uma banda de rock que só queria mesmo era ter à disposição pãezinhos de bacon e um kit de barbear." As celebridades, segundo parece, são realmente pessoas tal como nós. 

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Foto: Schiphol

Nem todas as companhias aéreas ou aeroportos têm estes espaços ultrassecretos (Lawford conta cerca de 100 no mundo inteiro), mas muitos têm capacidade para os criar. A muito elogiada Virgin Clubhouse em Heathrow, por exemplo, abriu em 1993 para os clientes da classe executiva. Não é algo que se desconheça, exatamente: aquelas banquetas altas, vermelho-vivo, são bastante inesquecíveis. Porém o clube pode ser transformado para os VIP mais dedicados a Branson: lá vêm as portas corrediças e as divisórias opacas, que criam uma bolha exclusiva dentro de espaço já de si exclusivo. A ala da Classe Superior tem o seu próprio balcão de bagagens e canal de segurança, além de bicicletas estáticas Peloton e peritos mixologistas à mão – mas para as celebridades em viagem com as respetivas famílias, o espaço privado é a comodidade mais desejada. 

Tendo em conta que as viagens estão agora a regressar aos níveis pré-pandemia, todos nós parecemos estar em ânsias por uma experiência calma nos aeroportos. Mas para aqueles que as possam pagar, as comodidades da 1ª classe já não são suficientes. Bares com charutos inebriantes e adegas geridas por sommeliers estão muito bem para os passageiros de 1ª classe, mas para os mais ricos de entre nós, uma porta opaca (e aquele BMW Série 7) é ainda mais valiosa.

Sophie Dickinson / The Telegraph / Atlântico Press

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Tradução: Adelaide Cabral
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