Quinta do Paraíso e os vinhos que nascem no Éden da Arrábida
Esta é uma das mais curiosas, luxuosas e belas quintas agrícolas em Portugal. De uma pequena adega, saem vinhos que primam pela pureza e pelo carácter vincado. Tudo num cenário idílico, difícil até de imaginar
Chamaram-lhe Quinta do Paraíso, mas a banalização do uso da palavra “paraíso” fez com que, neste caso, o nome não chegue nem para começar a descrever o sítio. Imerso na vegetação de um imenso vale verdejante, cuja fronteira com o mar é formada por montanhas escarpadas e picos de bruscos recortes, este lugar idílico só poderia chamar-se com legitimidade “do paraíso” caso a designação remetesse incontestavelmente para o original, para o Jardim do Éden. Tudo o que for menos do que isso será pouco, ficará aquém.
A HISTÓRIA
Carlos Alberto Veiga Sicupira, proeminente empresário brasileiro e dono de uma das maiores fortunas do Brasil, que o mundo conhece pela versão diminuta do nome, Beto Sicupira, é o próprio a contar a história e gosta de deixar claro que essa não é sobre ele - embora também o seja, inevitavelmente. Beto começa por explicar como é que ele e a mulher, Cecília, encontraram este paraíso perdido no Parque Natural da Arrábida e como, depois disso, decidiram dedicar-se ao cultivo de diferentes produtos agrícolas, do trigo de barbela aos hortícolas, e passando pela vinha e pelo vinho. Será neste último que nos iremos deter, pois é o vinho o principal motivo da visita a este lugar magnífico. Mas, primeiro, vamos conhecer a história do casal Sicupira e da descoberta da Quinta do Paraíso.
Beto Sicupira é um homem ativo, e provas disso não faltam. Detalhar o seu currículo mergulho e na caça submarina daria (e devia dar) todo um outro artigo, de tal modo é longa a lista de feitos, que inclui até alguns recordes do Brasil e grandes marcas mundiais. Além da paixão pelo mar, partilha com Cecília o entusiasmo pelos passeios de bicicleta.
O casal vive na Europa há já muitos anos, desde o início deste século. Os negócios na Bélgica levaram a família Sicupira a encontrar o seu lugar num sítio central, em França, proporcionando deslocações fáceis por todo o continente, ao mesmo tempo que garantia uma proximidade privilegiada da Bélgica. Durante todos esses anos, desde o início do século, Beto e Cecília aproveitaram para explorar, entre outros destinos, Portugal e, em especial, Lisboa. Essa exploração incluía os passeios de bicicleta.
Certa vez, Beto decidiu procurar no mapa sítios na região de Lisboa onde pudesse expandir esses passeios. Deparou-se com uma intensa mancha verde a sul da capital portuguesa e descobriu depois que se tratava do Parque Natural da Arrábida. Disse então a Cecília “vamos descobrir”. E assim fizeram, desbravando as magníficas estradas e vistas deslumbrantes da serra que dá nome ao parque.
Foi amor à primeira vista. Beto e Cecília fizeram o balanço entre distâncias, paisagens e o mar de possibilidades, concluíram que da Arrábida até ao Aeroporto Humberto Delgado a curta distância representava uma vantagem, ainda mais quando os voos dali para o Rio de Janeiro e São Paulo, as metrópoles onde a família tem residência no Brasil, são numerosos e muito frequentes. Além disso, qualquer ligação ao centro da Europa é, também ela, simples e rápida. E acima de tudo, procurando, certamente encontrariam um lugar de sonho no meio da serra, onde poderiam estabelecer-se. As previsões estavam certíssimas: acharam a Quinta do Paraíso, onde recuperaram a mansão original de acordo com o absolutamente distinto bom-gosto de Cecília - cujo nome completo, Cecília de Paula Machado Sicupira, deverá remeter os mais atentos para publicações sobre, por exemplo, arquitetura, entre outros temas relacionados com artes, cultura e lifestyle.
OS VINHOS
Já existia, quando os Sicupira se mudaram para lá, uma pequena adega na Quinta do Paraíso. O que não existia era vinha, pelo que não era possível fazer vinho. Beto, homem de negócios com vastíssima experiência, sabia que tinha de haver solução. Sem surpresa, havia mesmo.
Num raio de poucos - pouquíssimos - quilómetros em torno da Quinta do Paraíso, foi descobrindo vinhas praticamente ao abandono. São terrenos de pequenas dimensões, não chegando a um hectare inteiro de área, enfiadas num vale da Serra da Arrábida, que é reserva natural, o que, por entre todas as vantagens de proteção que apresenta, dificulta a implementação de meios que dependam de novas infraestruturas, por exemplo. O resultado da combinação de todos estes fatores é, na maioria dos casos, o seguinte: não compensa cultivar a vinha, fazer a poda e muito menos vindimar. A despesa será sempre bastante maior do que o retorno. Dá prejuízo.
Porém, para o empresário brasileiro, este cenário em que o padrão se repetia de vinha para vinha, quando olhado do ângulo certo, apresentava uma oportunidade para todas as partes envolvidas. Foi contactando e conhecendo cada um dos proprietários desses terrenos e estabelecendo acordos de exploração das vinhas. A solução roça a perfeição: as vinhas deixam de dar prejuízo; o facto de serem várias, aumentando o volume global das colheitas, justifica o investimento; os vinhos produzidos na Quinta do Paraíso tornam-se produto de nicho, ultra-exclusivo. Este luxo certificado e irreplicável deu origem a vinhos diferentes de vinha para vinha - em alguns casos, as vinhas estão a distâncias absurdamente ridículas, divididas por apenas uma estrada estreita e, contudo, essa pequena distância faz toda a diferença para o perfil do vinho.
Para trabalhar estas pequenas nuances, quase mágicas, garantindo a expressão máxima de cada terroir, Beto Sicupira chamou Pedro Marques, enólogo com experiência no cuidado e preservação de vinhas e castas sensíveis. Este, diante do contexto oferecido pela Quinta do Paraíso, fez questão de ir mais longe e procurar e identificar uma casta que se julgava extinta: a Bastardinho de Azeitão, que é divergente da tradicional Bastardinho e que apresenta características absolutamente únicas, resultantes, em grande parte, da adaptação da planta às características da Serra da Arrábida.
A partir de uma única vara de Bastardinho de Azeitão, o enólogo conseguiu replicar a planta e, hoje, uma das vinhas da Quinta do Paraíso - porque, entretanto, se plantou vinha dentro da própria quinta - é exclusivamente composta pela casta. Dir-se-ia que, hoje em dia, a Quinta do Paraíso é o santuário da Bastardinho de Azeitão.
A Quinta do Paraíso começou a produzir vinho em 2021. Os vinhos correntemente no mercado são o Doutor do Paraíso, o Murteira do Paraíso e ainda Esteves do Paraíso e Esteves do Paraíso - Paracela Velha, todos nomes que remetem para os proprietários das vinhas. Há novos vinhos quase prontos a sair. No total, há 12 vinhas a produzir uva para a Quinta, sendo que duas delas se encontram dentro do perímetro, enquanto as outras são exteriores.
O ALMOÇO
É num cenário absolutamente idílico que os vinhos da Quinta do Paraíso são dados a provar, acompanhando um agradável almoço no alpendre da mansão. Esta foi recuperada, reconstruída e remodelada, dependendo do caso e da secção do edifício, de acordo com o gosto de Cecília, que faz questão de mostrar as zonas comuns da casa. Elegância e distinção são os adjetivos que melhor podem definir as escolhas, que acabam por misturar, em grande harmonia, elementos tradicionais de diferentes origens - com notória presença de contornos e detalhes muito marroquinos, mas também de madeiras tipicamente portuguesas e de recantos que remetem para o romantismo do séc. XIX - com o conforto e a linearidade da idade contemporânea. Tudo na medida certa, sem excessos nem comedimento.
Esta mansão e a maneira como hoje se apresenta podia servir como ponto de partida para a definição daquilo que é o verdadeiro luxo: a expressão plena do bom-gosto, sem constrangimentos nem comedimentos, mas também sem outra moderação que não seja evitar a ostentação bacoca.
Voltemos ao almoço e à prova: no alpendre da mansão, diante da infinity pool e com o recorte da serra a fazer de cenário, num ambiente plácido e sereno, deparamo-nos com um curioso desenho numa das encostas da Arrábida. E, quando olhamos para os rótulos dos vinhos, compreendemos que aquilo que dantes parecia uma mão - vista de uma perspetiva diferente em cada um dos rótulos - é, afinal, aquilo que agora contemplamos, o desenho que a natureza nos ofereceu em contraste com o horizonte vasto que fica lá por trás.
A qualidade dos vinhos, essa, é garantida pelo processo, que é paciente e recusa qualquer tipo de pressa. A produção é controlada, as edições são pequenas. O objetivo é fazer bons vinhos com todo o respeito pela natureza, pelo terroir e pela fruta que lhe dá origem. Fica a curiosidade de saber se bebê-los noutro contexto será tão prazeroso quanto o foi naquele. É possível que o facto de nos encontramos no Paraíso contribua para sensação global de absoluto deleite.
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