Sabores / Prazeres

Como se parece um rosé em 2026?

No mínimo, mais interessante que há uma década. É o que prova o novo Quinta do Sampayo Rosé 2025, que fomos conhecer ao Algarve, a convite dos proprietários, Ana Macedo e Pedro Emídio.

Marco Crespo - Enológo Quinta do Sampayo
Marco Crespo - Enológo Quinta do Sampayo Foto: DR
08 de maio de 2026 | Rita Silva Avelar

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Longe vão os tempos em que o rosé era remetido para o verão, categorizado como vinho de recurso, de segunda, de pouco entendimento sobre vinho, e até de mulheres, de uma perspetiva mais machista. Também graças ao crescente bom gosto de produtores, enólogos e viticultores, o rosé passou a ocupar um lugar de maior mérito nas prateleiras. Não diríamos já ter atingido o máximo de prestígio, mas caminha para um lugar mais digno. É nesse lugar que já está o Quinta do Sampayo Rosé 2025, de apenas 1250 garrafas.

Confecionado a partir de uvas de colheita manual, com desengace total seguido de uma ligeira prensagem, passou por decantação estática a frio durante 48h, passou por fermentação em depósito de inóx a temperatura controlada de 15ºC durante 15 dias. Os seus 50% de Castelão (de vinhas com 29 anos) com 50% e Aragonez (de vinhas com 25 anos) fazem deste um vinho leve (teor 12%), fresco, com uma acidez balanceada, sem ser desinteressante, e com a novidade da certificação vegan. Tem corpo, surpreendente por não ser o clássico rosé ligeirinho. Está estruturado e alinha-se com o conceito que Ana Macedo e Pedro Emídio, advogados de profissão, estão a solidificar desde 2022.

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Ainda há quem use a expressão “vinho de mulheres” num tom pouco elogioso, quando a realidade os desmente por completo. A história do vinho mostra que, se algo merece esse rótulo, então estamos a falar de alguns dos melhores vinhos do mundo.

Quem os ouve falar, emocionando-se, até, parece que já têm as mãos na terra há mais anos. Isto explica-se porque o projeto Quinta do Sampayo pertencia ao pai de Ana, que por inviabilidade comercial não conseguiu concretizar todos os desígnios que tinha para a quinta, e acabou por cessar o negócio em 1995. Só quase 20 anos depois Ana viria a desafiar o marido para pegarem na quinta, quando, em 2021, visitaram o sítio com os filhos e sentiram uma ligação à terra. Agora que os conhecemos, podemos chamar-lhe chamamento.

“A maneira de convencer os nossos filhos a ir à quinta pela primeira vez foi dizer-lhes que íamos conhecer o burro Abílio. Era o burro dos nossos caseiros. Aquele dia, para mim, foi mais do que uma visita. Foi o reencontro com o campo e com a terra. Andarmos no meio das vinhas, com eles, a alegria nos olhos das crianças a explorar a terra, as memórias que me vinham à cabeça, tornou-se evidente que eu tinha algo para fazer na Quinta do Sampayo. Esta foi a nossa motivação para desenvolver um projeto que honrasse a quinta, mas que tivesse um propósito maior: o de preservar o meio ambiente, cuidar da terra e das vinhas, e criar um legado para as gerações vindouras” explica, a segurar as lágrimas, Ana Macedo.

Quinta do Sampayo
Quinta do Sampayo Foto: DR

Nesta pequena introdução, a produtora emociona-se a falar da herança que quer deixar com a Quinta do Sampayo, que além do vinho também produz , uma novidade, uma vez que provém de um olival tradicional com 1000 oliveiras galegas (cuja colheita foi feita em outubro de 2025, manualmente)

“A nossa vinha já está a florescer com uma vitalidade impressionante, a fauna regressou à terra, criando uma harmonia que nos enche o coração, a flora embeleza o espaço, e cria um equilíbrio do ecossistema. Acreditamos que tudo o que nasce na terra ganha vida e chega ao copo, e é isso que queremos partilhar”, continua. Pedro Emídio sabia que queriam fazer algo diferente nos vinhos do Tejo.

“A minha filha tem 12 anos, o meu filho tem 9, e pensámos no que gostaríamos de lhes deixar daqui a 30 anos. Pensámos em ser absolutamente sustentáveis, logo no primeiro ano conseguimos logo 70% na pontuação da certificação de sustentabilidade. Mais do que isso, decidimos ser regenerativos com a ajuda do André Domingos, o nosso viticultor. No Tejo, somos das quintas mais regenerativas. Quisemos perceber como é que, com os materiais que já existem, podíamos ter um cuidado acrescido com o que temos. Percebemos que uma terra melhor produz plantas melhores.”

Quinta do Sampayo - além do vinho também produz azeite, uma novidade na quinta
Quinta do Sampayo - além do vinho também produz azeite, uma novidade na quinta Foto: DR

O que significa isso do regenerativo? Cria-se ecossistema de insetos, fauna de porte médio, uso de pastoreio na fase de dormência das vinhas, e usando lãs nas linhas da vinha.

Não há anos fáceis no meio agrícola, 2025 foi um ano que marcou a quinta e o meu percurso profissional” esclareceu André Domingos, mais tarde, no lançamento oficial do rosé, num dos terraços do Pine Cliffs, com vista para o mar, e o logótipo da casa projetado numa encosta rochosa.

“Começámos a implementar práticas verdadeiramente regenerativas, as nossas vinhas necessitam de muito trabalho, no entanto o ano foi positivo a nível de qualidade e produção. A escolha das nossas castas para este rosé foi assente naquela que é a nossa visão para os vinhos: usar castas nacionais, vamos buscar a autenticidade das castas mais rústicas e características da nossa região.”

Na enologia está Marco Crespo, desde 2023, que ajudou a criar o portfólio existente da Quinta do Sampayo, no qual se incluem o Colheita 2023 Tinto, o Colheita 2023 Branco, o Quinta do Sampayo Branco 24 e o Quinta do Sampayo Tinto 24 - vinhos que tivemos oportunidade de provar ao longo de 24h.

“A inspiração para este rosé nasce de um desejo, de um pedido, porque tal nunca tinha sido feito na quinta”, afirma o enólogo.

Quinta do Sampayo Rosé 2025
Quinta do Sampayo Rosé 2025 Foto: DR

“A quinta tem cerca de 30 anos de existência [fica no Vale da Pinta, um terroir com solos marcadamente argilo-calcários] porque não fazer um rosé desta vez, com uma nova equipa, novas ideias e novas formas? E conseguimos. O rosé tem tanta categoria como qualquer outro vinho, nós fazemos vinho com a nossa herança, com as castas que temos na quinta, e fazer vinho com uma vinha com 5 ou 10 anos não é o mesmo que fazer com uma de 25 e 29, com plantas adultas em pleno percurso. A vindima foi realizada antes dos brancos, feita com muitas idas à vinha, muita medição, muito pensamento, e com a tentativa de retirar o melhor deste Castelão e deste Aragonez. Tínhamos frescura, acidez natural, com um ph mais baixo que o normal para uvas tintas, e é isso que assegura toda a firmeza ao vinho”, conclui Marco Crespo.

Nota-se, tal como nos tons de voz de Ana e Pedro, uma admiração, tanto por parte do enólogo, como do viticultor, pela Quinta do Sampayo. Num visível mood de celebração, os produtores lembram-nos de levantar o copo e brindar. É isso, afinal, que o vinho faz: juntar pessoas para que possamos celebrar uma pequena conquista. E essa pequena, que é enorme, para a família, são as preciosas 2500 garrafas de um rosé do verão de 2025.

Onde?

R. Comendador Francisco Firmino Ribeiro da Costa, Quinta do Sampayo, 2070-553 Vale da Pinta, Cartaxo

Contactos:

geral@quintadosampayo.pt

+351 243 248 021

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