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Qual foi a garrafa de vinho mais cara que já vendeu?

Sete escanções dos melhores restaurantes de Portugal partilham as maiores extravagâncias dos seus clientes.

Escanções revelam extravagâncias em restaurantes de Portugal Foto: DR
05 de março de 2026 | Bruno Lobo
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É sempre bom tratarmo-nos bem. Sobretudo com um bom vinho à mesa, mesmo quando o preço aconselha a olhar para o outro lado. Mas quem pode, pode - e nós, se pudéssemos, se calhar também cometíamos uma loucura de vez em quando. Foi o que fizeram alguns clientes dos melhores restaurantes nacionais, como nos contam os próprios sommeliers. Uma lista com muito Pétrus, alguns vinhos portugueses e muitos clientes estrangeiros - especialmente brasileiros. “É preciso compreender a escala do país”, explica um dos nossos escanções. Além de que qualquer um dos vinhos aqui mencionados custaria muito mais no Brasil - “por isso aproveitam quando vêm a Portugal”. 

Nádia Desidério, Head Sommelier no Belcanto 

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“Eram uma família de três, o pai, a mãe e uma criança de 10 anos. Não vinham festejar uma data especial e também não escolheram o menu de degustação, o que significa que não vinham à procura de uma experiência gastronómica. Por isso foi uma surpresa quando pediu aquele vinho”, recorda Nádia Desidério. “E fê-lo de uma forma muito simples, nada ostensiva”, acrescenta. Sendo que “aquele vinho” era um dos mais famosos de Bordéus e do mundo: um Pétrus 2008 e, a 5.551 euros, a garrafa mais cara da carta do Belcanto. “Fiquei a pensar: ‘oh meu Deus, a sério?!’ Não temos pedidos assim todos os dias, mas pela forma tão natural como o fez percebia-se que não era a primeira vez - e isso, curiosamente, deixou-me mais tranquila." Ainda por cima, explica, “foi uma escolha muito acertada, porque pediu a Horta da Galinha dos Ovos de Ouro, como entrada, e o pombo assado como principal — um pastel de massa tenra com terrina de pombo e molho de canela e avelã. Ambos os pratos levam cogumelos e aquele vinho liga muito bem. Sem muito corpo, mas com várias camadas de complexidade." Quando o serviu estava, naturalmente, expectante com a reação do cliente, até porque na altura não o conhecia — “desde então já voltou algumas vezes. É um cliente muito simpático, mas pouco falador ou efusivo, e quando provou disse simplesmente: ‘está perfeito. Pode seguir’.”

Nádia Desidério, Head Sommelier no Belcanto Foto: DR

Elisabete Fernandes, Diretora de Vinhos no restaurante gastronómico do The Yeatman 

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O Yeatman é reconhecido por ter uma das melhores cartas de vinho do mundo (segundo a Wine Spectator), “um estatuto que gostava de manter”, conta Elisabete Fernandes, admitindo que chega a ter “sentimentos mistos quando me pedem certos vinhos, porque já sei que não os vou conseguir repor”. Felizmente não foi o caso, apesar da raridade: o Blandy’s MCDXIX Edição Especial, lançado para celebrar os 600 anos da descoberta da ilha da Madeira, numa edição limitada a 600 garrafas Magnum. “Resulta de um blend com as castas mais típicas da região e de 11 vinhos dos séculos XIX, XX e XXI. O mais velho é de 1863, o mais novo de 2004.” O preço? 8.829 euros. Curiosamente, num dos maiores templos de vinho do Porto, reinou um Madeira. Desta vez o cliente, também brasileiro, era um velho conhecido da casa e “no final de um menu de degustação - foi por alturas do Carnaval de 2023 -perguntou se tinha algo especial para terminar. Como sabia que era um fã de vinhos do Porto e Madeira, acabei por sugerir aquele vinho”. “Os grandes Madeiras são vinhos incríveis e, quando abrimos uma garrafa assim, o aroma enche o restaurante.” O cliente parece ter concordado, pois “disse que tinha sido dos melhores que já tinha bebido, e até fez questão de partilhar com a equipa "Se calhar viu o brilho nos meus olhos ao cheirar o vinho”, brinca. “Cheirava a especiarias e noz-moscada, e na boca não é nada enjoativo. Tem muita frescura e acidez.” Mesmo partilhando com a equipa, não acabou a garrafa, que levou para casa.

Elisabete Fernandes, Wine Director at The Yeatman Foto: DR

João Wiborg, Head Sommelier no Ocean 

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João Wiborg foi eleito recentemente Melhor Sommelier Nacional 2025 nos prémios Mesa Marcada, e recorda-se sobretudo de um Château d’Yquem muito antigo, de 1940, que vendeu “por cerca de 3.000 e tal euros”.  “No Ocean trabalhamos quase exclusivamente com menus de harmonização, mas o cliente tinha feito alguns pedidos muito específicos - um Château Cheval Blanc, por exemplo -, por isso, quando pediu para terminar com algo especial, senti-me confiante para avançar com esse vinho. Era um bom conhecedor e ficou curioso com a possibilidade de provar um Château d’Yquem tão antigo”. Ainda assim, admite que ficou “algo nervoso com o pedido”, até pela idade do vinho, feito no início da Segunda Guerra Mundial. “Sabia que o tínhamos guardado nas melhores condições, mas é impossível saber a história do vinho até chegar a nós.” "Felizmente estava perfeito. Muito diferente dos outros Château d’Yquem que já provei - muito profundo, com muita textura, fruta cristalizada, e ainda com uma acidez muito viva.” Sabe tudo isso porque “o cliente adorou e fez o favor de oferecer um copo”. Este era exemplar único, mas na carta do Ocean ainda encontram outro Château d’Yquem apenas ligeiramente mais novo, de 1942. Preço: 3.125 euros.

João Wiborg, Head Sommelier no Ocean Foto: DR

Marc Pinto, Head Sommelier no Fifty Seconds 

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A garrafa mais cara vendida no Fifty Seconds, no topo do Myriad by SANA Hotel, foi um Quinta do Noval Vintage Nacional 1996, “um dos vinhos do Porto mais icónicos de sempre”, por 4.500 euros. Aconteceu nos primeiros anos do restaurante e o cliente - brasileiro - já era bem conhecido de Marc Pinto, que o descreve como “muito exigente, com um historial de pedidos especiais e até de levar vinhos muito antigos para o restaurante”. Dessa vez pediu o vinho mais caro da carta e a experiência não começou da melhor forma: “O ritual implica abrir a garrafa pelo gargalo, com tenazes, e não consegui à primeira. Sou geralmente muito calmo, mas acontecer-me aquilo com aquele vinho e aquele cliente…” E se já estava nervoso, mais ficou quando o gargalo saltou à segunda tentativa “como uma rolha de champanhe”. Felizmente, o que importa é como acaba - e terminou muito bem. O vinho era magnífico e os clientes adoraram: “Não sei se foi porque percebeu que eu estava muito nervoso, se foi pelo vinho, mas foi o serviço em que aquele cliente esteve mais simpático e descontraído”, remata.

Marc Pinto, Head Sommelier no Fifty Seconds Foto: DR

Leonel Nunes, Head Sommelier no Il Gallo d’Oro 

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Antes de destacar uma garrafa, Leonel Nunes prefere contar a história de um vinho a copo - o Blandy’s Edição Especial 600 Anos, que no restaurante apresentam num carrinho especial e vendem em copos de 5 cl por 350 euros. “Um dia tivemos um casal de holandeses que pediu o menu de degustação mais longo e tornou-se rapidamente evidente que percebiam muito de vinhos portugueses. Começaram com um Torre, do Esporão, de 2014, continuaram com um Reserva Especial, do mesmo ano, e terminaram com um Viúva Gomes de 1969.” No final, repararam que serviam o Blandy’s a copo. “Contaram-me então que tinham comprado esse vinho, mas nunca o tinham provado — escolheram a garrafa número 300, por ser a do meio (numa edição limitada a 600) e como não a queriam abrir, acharam que esta seria a altura ideal.” Começaram por pedir dois copos, mas como o casal na mesa do lado estava a festejar um aniversário, acharam que seria simpático oferecer-lhes dois copos também. É engraçado, porque não se conheciam de lado nenhum.” Foram 1400 euros por 20 cl de vinho, o que não é uma má média.

Leonel Nunes, Head Sommelier no II Gallo d'Oro Foto: DR

Ivo Peralta, Head Sommelier Grupo JNcQUOI 

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Ivo Peralta destaca igualmente um vinho a copo – agora num evento de Pétrus que o JNcQUOI Avenida organizou o ano passado, no qual serviram 60 copos a 850 euros cada (valor total: 51 mil euros). “Não é fácil conseguir tantas pessoas dispostas a pagar 850 euros por um copo”, recorda, lembrando também a raridade de terem tido três garrafas de três litros (2007, 2006 e 2004). “Comprámos diretamente ao produtor.” Mas o evento foi marcante também pela experiência, porque “Independentemente de a conta bancária permitir pagar 4.000 ou 5.000 euros por garrafa, há muita gente que não se sente confortável a gastar tanto dinheiro num vinho. Tivemos muitos casais, cada um com o seu copo. Foi bonito e muito diferente.” Quanto à garrafa mais cara - para não destoar - continuamos na mesma propriedade de Bordéus, colheita de 2006, a 4.500 euros. “Foi tudo muito estranho, porque foi numa passagem de ano de Covid, em que nem sequer festejávamos à meia-noite. Tínhamos de fechar às 22h. Era um grupo de seis pessoas, mas beberam tão pouco que deixaram quase um terço na garrafa. Essa foi a parte boa - acabámos nós a festejar o fim de ano com Pétrus.

Ivo Peralta, Head Sommelier no Grupo JNcQUOI Foto: DR

David Rosa, Head Sommelier no Rocco.

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A garrafa mais cara que David Rosa vendeu foi “uma raridade absoluta”. Um Vinho do Porto Quinta do Vallado ABF 1843, envelhecido em cascos de carvalho e engarrafado em 2025. Foram feitas apenas 24 unidades de 750ml, vendidas a 7500 euros cada. 

“Tratava-se de um convidado residente no Canadá, um verdadeiro apreciador de vinhos, com preferência por raridades e exemplares exclusivos”, explica David Rosa. Durante o almoço foi demonstrando especial interesse pela carta de vinhos do Rocco e uma paixão particular pelos vinhos do Porto, por isso, após a refeição, David levou-o a visitar a garrafeira no piso -1, “onde guardamos as nossas maiores preciosidades.” Entre elas encontrava-se o Quinta do Vallado ABF 1843, e embora o cliente tenha ficado “encantado com a exclusividade da garrafa e com a história da quinta e do próprio vinho”, também “demonstrou uma reserva natural. Afinal, estamos a falar de 180 anos, o que levanta inevitavelmente questões sobre conservação e qualidade”. 

Mas o Vallado oferece igualmente ampolas de 50ml (por 415 euros) e David propôs-lhe o “desafio de experimentar uma ampola para que pudesse avaliar por si próprio. E a reação foi imediata - espanto, curiosidade e entusiasmo” recorda-se. A sua primeira pergunta foi: ‘Como é possível este vinho ter 180 anos!” E acabou por comprar “não só a garrafa de 75 cl, como mais algumas ampolas para partilhar com família e amigos.”

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David Rosa, Head Sommelier no Rocco Foto: DR

 

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