Um novo hotel em Terra Brava para descobrir o verdadeiro luxo
Na ilha Terceira, o Torel Terra Brava propõe uma forma diferente de conhecer os Açores, com menos pressa, mais ligação à natureza e às pessoas cá da terra.
Viajar há muito que deixou de ser uma corrida entre destinos e cada vez mais turistas procuram experiências autênticas, pensadas para serem disfrutadas com tempo e fortemente enraizadas na tradição local. Há até quem chame a esta nova gente de viajantes, em vez de turistas – se isso fizer sentido. De qualquer forma, nos Açores, uns e outros encontram-se no mar, à procura de avistar uma baleia.
Porque percorrer o mar a alta velocidade, guiados pelos vigias no topo do Monte Brasil, ver os golfinhos a nadar e a saltar à volta do barco como se fosse uma corrida até, finalmente, avistar um daqueles gigantes dos mares é um momento memorável. Mesmo sem ter direito à clássica imagem da barbatana enorme, a erguer-se das águas, é uma experiência intensa, e difícil de esquecer.
Mas se o whale watching é hoje uma das atividades mais procuradas na ilha, o Torel Terra Brava quis ir um pouco mais mais longe, apostando tudo num conceito de Slow Travel, que convida os hóspedes a viverem uma série experiências curadas para fugir ao óbvio – e foi assim que, poucas horas depois de estarmos no mar, demos por nós no meio de uma manada de vacas, com os pés literalmente na poça e as mãos na teta, a tentar ordenhar ou colocar a máquina de ordenha.
Não foi uma experiência higienizada numa estrebaria, mas em pleno campo, numa estação de ordenha móvel que se desloca de pasto em pasto atrás dos animais. A única concessão ao turista acidental, felizmente, foram umas capas descartáveis para proteger os sapatos, à falta de galochas. Afinal, os Açores são conhecidos por terem mais vacas do que habitantes, e visitar as ilhas sem ter uma experiência deste género não seria realmente a mesma coisa.
Durante muito tempo, “natureza” e “luxo” pareciam conceitos opostos, mas para o urbano desligado que somos quase todos, está bem demonstrado que esta ligação tem um efeito muito mais positivo no nosso índice de felicidade do que um luxo ostentoso – pelo menos se descontarmos o inquilino de uma certa casa branca. Além disso, participar numa atividade local, seja numa vindima, fazer um cesto em vime – ou construir qualquer coisa com as mãos - e ordenhar vacas é a melhor forma de conhecer verdadeiramente um destino, especialmente um como a Terceira, onde a natureza revela a sua exuberância a cada momento.
Ingrid Koeck é uma das sócias do Torel, juntamente com João Pedro Tavares (CEO do grupo), e não esconde a sua felicidade por terem conseguido encontrar esta propriedade para juntar ao portfólio do grupo: “Cresci numa pequena aldeia da Steiermark (Estíria), conhecida como o coração verde da Áustria”, explica. “Adoro a natureza, o verde, e aqui temos tudo isso e mais o mar. Não conseguem imaginar como me sinto neste lugar maravilhoso.”
O Terra Brava é o oitavo destino dos Torel, depois dos Palace de Lisboa e Porto, do 1884, Avantgarde e Saboaria, também na invicta, da Quinta da Vacaria, no Douro, e do Royal Court, em Guimarães. A decoração segue a mesma linha sofisticada das outras moradas, embora numa lógica perfeitamente adaptada à região, “quisemos tornar o hotel numa espécie de espelho da ilha”, explica, chamando a atenção para uma instalação de chocalhos no piso térreo, “criada pelo último artesão da ilha que se dedica a essa arte”, ou para a paleta de cores, que procura refletir os quatro elementos - terra, água, ar e fogo – tão presentes na Terceira.
O hotel conta com 44 quartos e suítes e um spa para relaxar e recuperar das atividades do dia, com tratamentos e massagens à base de produtos biológicos e regionais. Há ainda um bar que prepara as suas próprias infusões para cocktails e um restaurante dedicado ao produto e à gastronomia local, onde não falta a tradicional alcatra cozinhada lentamente em alguidares de barro. O nome, Bistrô Três, remete para a Terceira, mas também para essa santíssima trindade da culinária: carne, peixe e vegetais. A ementa foi desenhada por Guilherme Spalk, do 2 Monkeys, restaurante com estrela Michelin em Lisboa, e no dia a dia da cozinha conta com o chef residente Arley Moreira, brasileiro com raízes bem açorianas.
Em Angra, o hotel fica a praticamente cinco minutos de tudo: do centro histórico, da praia e do Monte Brasil, para onde Ingrid adora ir fazer jogging ou caminhadas. O monte oferece “das vistas mais bonitas de Portugal”, sobre a baía de Angra e o Ilhéu das Cabras, e mesmo estando tão perto da cidade é quase um paraíso perdido: “Corremos ao lado de veados. Literalmente. Eles ficam no caminho a olhar para ti. Onde é que temos isto?”
As caminhadas estão, seguramente, entre as atividades preferidas de muitos turistas, “especialmente americanos e alemães”, mas há muito mais para ver e fazer, como passeios geológicos para explorar as paisagens vulcânicas da ilha - e a chaminé vulcânica do Algar do Carvão ou o túnel de lava da Gruta do Natal são realmente únicos.
A própria cidade de Angra merece bem a descoberta. Património da UNESCO, chegou a ser capital do reino por duas vezes (sendo que, apenas tivemos cinco, com Guimarães, Coimbra, Lisboa e Rio de Janeiro). É verdade que São Miguel pode agora concentrar mais atenções, mas a Terceira foi sempre a capital histórica dos Açores, sede eclesiástica e o local de paragem obrigatória de todas as naus e galeões vindos do Oriente e das Américas – tanto portugueses como espanhóis. Tudo isso marcou o carácter da cidade e poder descobrir esse passado é, por si só, fascinante.
Para quem prefere atividades com mais adrenalina, há voos de parapente com motor, grutas subaquáticas impressionantes à espera de ser exploradas ou a possibilidade de participar numa das famosas touradas à corda. As tradições e a gastronomia estão bem presentes nestes programas, até porque a Terceira é conhecida como a ilha que está sempre em festa. Imperdível será, também, uma visita à DOC dos Biscoitos, uma área diminuta, mesmo em cima do mar, onde as “curraletas” fazem clara concorrência às do Pico, onde as vinhas estão, não só protegidas pelos muretes, como dentro de uma cova – e a qualquer momento a influência do mar pode deitar tudo a perder. Visitar e provar os vinhos de um produtor como a Materramenta pode ser tão memorável (e raro) quanto um avistamento de baleias - e dizem-nos que é uma das atividades preferidas dos turistas nacionais. Não nos surpreende.
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