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Martinhal. O grupo de luxo português que reinventou as férias em família

Num mundo em que os pais e filhos, maridos e mulheres, se veem cada vez menos, os momentos em conjunto têm de valer a pena. O Martinhal percebeu isso cedo e fez das férias em família o centro da sua proposta − com uma sofisticação única na hotelaria mundial.

Quartos e salas de estar no Martinhal, grupo hoteleiro português para famílias
Quartos e salas de estar no Martinhal, grupo hoteleiro português para famílias Foto: DR
05 de fevereiro de 2026 | Bruno Lobo

"Não existe nenhuma marca de hotelaria de luxo, no mundo, realmente focada nas férias em família como o Martinhal”, garante Roman Stern, cofundador do grupo com a sua mulher, Chitra. Di-lo com a confiança de quem acumulou vários prémios nessa categoria e com a ambição de quem prepara uma nova fase de crescimento, que passa pela expansão em Portugal e pela internacionalização da marca. Este ano preparam-se para inaugurar um novo resort na Praia da Luz, no Algarve, região onde não descartam novos investimentos – agora mais próximos da fronteira espanhola. Depois, Porto, Madeira, Açores e Alentejo surgem como os destinos prioritários, num processo que pretende duplicar um portefólio que inclui atualmente o Martinhal Sagres, Quinta do Lago, Chiado, no coração de Lisboa, e o Martinhal Oriente, no Parque das Nações – um projeto que, além do hotel, inclui residências privadas que podem usufruir dos mesmos serviços de hotelaria. Ali perto, investiram igualmente num hub educacional que conta com uma escola internacional e preparam-se para receber, em 2027, um polo universitário ligado a uma instituição de renome mundial.

Grupo Martinhal reinventa férias em família com hotéis de luxo e sofisticação
Grupo Martinhal reinventa férias em família com hotéis de luxo e sofisticação Foto: DR

Um tratado em hospitalidade

O certo é que a experiência no Martinhal tem uma identidade muito bem definida. Familiar, mas com uma aposta clara “na sofisticação, na arte, na qualidade gastronómica e num serviço irrepreensível”, resume Chitra Stern. Roman acrescenta que muitos dos resorts que se dizem familiares “não são realmente para as famílias, mas antes para as crianças”, classificando-os como “frequentemente demasiado ruidosos” e com uma oferta gastronómica “imprópria para consumo”. Ou isso, ou “separam pais e filhos ao longo da estadia”. No Martinhal, a ideia é oposta: criar contextos onde pais e filhos possam estar juntos, “partilhando experiências e tempo de qualidade. Queremos ajudar as famílias a ligarem-se e a criar memórias juntos”, defendem. Garantem que essa filosofia se reflete em todas as coisas, grandes e pequenas, como menus infantis adaptados a diferentes idades e uma cozinha exigente, “pensada para adultos que gostam de comer bem e querem o mesmo para os filhos”. A arte é outro elemento estruturante, com obras de artistas portugueses como Bordalo II ou Graça Paz espalhadas pelas zonas comuns e privadas, reforçando “o design e uma portugalidade assumida como parte do ADN” da marca.

Férias de família no Martinhal, grupo hoteleiro de luxo em Portugal
Férias de família no Martinhal, grupo hoteleiro de luxo em Portugal Foto: DR

Onde fica Lagos?

O primeiro Martinhal abriu em Sagres, em 2010, mas a história do grupo começou na década anterior, quando Roman e Chitra Stern ainda viviam em Londres e estavam longe de imaginar que Portugal lhes iria mudar a vida. Procuravam oportunidades de investimento e analisaram áreas tão diversas como tecnologia no Reino Unido ou imobiliário na Suíça, mas começaram a descobrir “algumas vantagens competitivas” por aqui, como o facto de “ser membro fundador do euro” – que estava prestes a entrar em circulação –, “estar a realizar um forte investimento em infraestruturas”, financiado por fundos europeus e, last but not least, “ser menos conhecido do que outros destinos, nomeadamente a Espanha”, recorda Chitra. “Um destino ainda por explorar”, sobretudo no Algarve. Nessa altura, a autoestrada terminava em Albufeira, mas estava prevista a sua conclusão até Lagos, e foi por isso no Barlavento que identificaram as melhores oportunidades. A propósito, o casal recorda um episódio curioso, mas revelador do desconhecimento sobre o país: quando contaram aos colegas da PricewaterhouseCoopers – onde ambos trabalhavam – que tinham comprado casa em Lagos, perguntaram-lhes o que iam fazer para a Nigéria.

Construir um projeto a dois

Enquanto jovem casal, tinham decidido construir um projeto em conjunto, acreditando que “seria a forma mais fácil de equilibrar a vida privada, profissional e familiar”. Por sorte complementaram-se de forma muito natural: Ele é “sem dúvida o mais criativo”, refere Chitra, admitindo que “a educação em Singapura não nos prepara para a criatividade”. Chitra é britânica, natural de Singapura e com ascendência indiana. Já Roman é suíço-germânico, de Zurique, e admite que “ela é uma CEO perfeita, excelente a gerir a empresa”, reconhecendo também que é mais fácil encontrá-lo “algures no futuro, a pensar no próximo projeto”. Foi em Sagres que descobriram um loteamento para casas de férias, numa localização excecional, mas com um pequeno defeito: “construir e vender apenas algumas casas de férias não justificava a mudança de Londres”. Queriam algo com impacto, “que pudesse dinamizar a região, criar emprego e, idealmente, garantir vida ao longo de todo o ano”. Montaram o primeiro escritório na cave da casa de Lagos, “praticamente sem janelas”. “Isto começou como um negócio de garagem”, recordam, mas o que imaginaram para Sagres não tinha paralelo com nada do que existia na região – e permanece como um dos resorts mais completos do país. Os primeiros tempos não foram fáceis. As casas-modelo, com piscina aquecida e chão radiante, geraram desconfiança num Algarve pensado apenas para o verão: “Diziam-nos que não fazia sentido e que não íamos vender casa alguma”. Já na fase final da construção enfrentaram o colapso financeiro de 2008, que colocou uma enorme pressão sobre o financiamento do projeto.

Em contrapartida, assistiram ao início de uma política estruturada de promoção turística de Portugal, que consideram ter sido decisiva: “Portugal tem tido os seus melhores cérebros à frente deste setor, e os resultados estão à vista” elogiam. “Atualmente são os outros países que vêm para Portugal aprender como se promove um destino.” Já a aposta na vertente familiar nasceu de uma necessidade sentida pelos próprios após o nascimento dos quatro filhos e da “dificuldade enorme em encontrar hotéis onde todos se sentissem bem”. O facto de se terem mudado para o resort depois de concluído permitiu testar serviços e experiências em primeira mão e ajustá-los às necessidades reais de pais e crianças.

Férias em família com sofisticação no Martinhal, um grupo de luxo português
Férias em família com sofisticação no Martinhal, um grupo de luxo português Foto: DR

Da costa vicentina para o resto do país

A partir daí, a expansão foi progressiva. Em 2015 abriram na Quinta do Lago e, em 2016, avançaram para Lisboa – inicialmente na Quinta da Marinha, em Cascais (revendida aos anteriores proprietários em 2022) e, pouco depois, com o Martinhal Chiado, apresentado como “o primeiro hotel de luxo familiar no centro de uma cidade”. Mais recentemente nasceu o projeto do Oriente, com quartos de hotel nos primeiros pisos e apartamentos residenciais nos últimos. Em paralelo, e no mesmo local, construíram um segundo edifício de escritórios, que viria a ser a sede da Ageas, e um hub educacional, que se tornou numa nova linha de investimento. Curiosamente, cada fase coincidiu com uma grave crise global – subprime, crise das dívidas soberanas e Covid-19 –, o que os obrigou a adaptar-se rapidamente e a reforçar a credibilidade junto da banca e dos investidores.

Férias em família, foco do grupo Martinhal, com hotéis de luxo em Portugal
Férias em família, foco do grupo Martinhal, com hotéis de luxo em Portugal Foto: DR

A aposta na educação

No âmbito do Brexit, Chitra Stern foi convidada pelo governo português para integrar uma missão destinada a atrair investimento direto estrangeiro e, ao fazer a análise SWOT, identificou a escassez de escolas internacionais como um entrave à atração de talento. Inicialmente pensaram desenvolver apenas o projeto imobiliário da escola, mas mais tarde decidiram envolver-se diretamente. A abordagem foi semelhante à da hotelaria: “questionar ideias pré-concebidas e visitar escolas em Nova Iorque, Singapura, Suíça ou Brasil”. Apoiaram-se num relatório do Fórum Económico Mundial que defendia a urgência da modernização do ensino, com foco no pensamento crítico, colaboração e empatia. Nascia assim a United Lisbon International School, uma escola IB com disciplinas de tecnologia, codificação e artes – “porque as artes performativas e visuais são fundamentais para desenvolver capacidades de comunicação, criatividade e confiança para falar em público”. “O nome surgiu durante o primeiro mandato de Trump. Quisemos mostrar que os problemas globais exigem respostas unidas. Queremos formar bons cidadãos do mundo. Empreendedores sustentáveis.” Desenvolvido desde 2022 em parceria com a Duke’s Education, o projeto integra um hub mais amplo que prevê ainda a criação de dois polos universitários, em parceria com instituições internacionais de renome, a partir de 2027.

Seguindo os turistas

A internacionalização será o próximo passo. Para isso, contrataram um Chief Expansion Officer, responsável por identificar oportunidades que passam, numa primeira fase, pelos destinos já frequentados pelos hóspedes habituais, aproveitando essa ligação preciosa. O modelo privilegiará a gestão da operação, mais do que a construção de raiz, seguindo os passos de muitas cadeias internacionais como a Mandarin Oriental, que citam “como referência maior”. No fundo, querem levar para o mundo aquilo que aprenderam a fazer em Portugal: juntar famílias sem abdicar da exigência. É esse equilíbrio - raro e difícil- que acreditam que os vai levar mais longe.

Martinhal reinventa férias em família com luxo e sofisticação
Martinhal reinventa férias em família com luxo e sofisticação Foto: DR
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