Madrid, cidade infinita
Esgotados os roteiros e visitados os pontos mais turísticos, há toda uma nova cidade para descobrir. Uma Madrid secreta e pulsante que se reinventa a cada dia, onde velhos edifícios ganham vidas novas, numa prova de charme inesgotável.
Já é tarde. Da janela do quarto de hotel, na Calle de Atocha para onde Máxima viajou a convite do Turismo Espanhol, observo a cidade, finalmente mais silenciosa, e lembro-me da frase proferida por uma amiga que, há uns largos anos, trocou a rotina estafada de Lisboa por uma vida nova na capital espanhola: “Em Madrid nunca é tarde demais”. Referia-se ao ritmo da cidade, às ruas que nunca ficam completamente desertas, à sensação de não-solidão que só algumas cidades grandes parecem saber proporcionar. Mas falava também de esperança, de segundas oportunidades.
A Madrid pela qual Patrícia Martins se apaixonou. Licenciada em História de Arte, esta portuguesa que já se sente mais confortável no castelhano do que no português “cada vez mais enferrujado”, foi-se encantando pela cidade e pelas oportunidades em que a cidade se desmultiplica, como um caleidoscópio de novidades para descobrir. Responsável pelo marketing da Real Fábrica de Tapices (localizada num edifício histórico, em estilo neomudéjar, na zona do Retiro) é ela quem nos abre a porta e nos faz uma visita guiada pelo novelo de histórias que tece a identidade daquele que é um dos lugares especiais (e quase alternativo, de tão inusitado) da capital espanhola.
Fundada em 1721, esta fábrica é, por excelência, o sítio onde se elaboram tapeçarias, tapetes e reposteiros. Inicialmente, trabalhava apenas para a família real, mas, com o tempo e a necessidade, foi-se abrindo aos mais diversos clientes que procuram o seu expertise para novas criações, mas também para restaurações. Recorrendo a técnicas tradicionais, as mesmas que se punham em prática no século XVIII, conta com uma equipa alargada de artesãs e especialistas, sobretudo mulheres — especialistas nos nós turco e espanhol, tingimento e restauro. Saberes ancestrais, num sítio único. É deste difícil equilíbrio entre passado e futuro, entre o visível e o oculto, que parece renovar-se o charme de uma cidade antiga, mas que de velha parece ter muito pouco — tão evidente que é a sua energia.
Portal underground
É hora de almoço e a zona de entrada que dá acesso ao La Ferreteria, na Calle Atocha, já está bem preenchida. Instalado num edifício centenário que, em tempos, acolheu uma das mais antigas lojas de ferragens da cidade (funcionou entre os anos de 1888 e 2916), o restaurante preserva as paredes revestidas com os armários de madeira onde, antigamente, eram guardadas as ferragens. São essas peças pequenas, metálicas e simbólicas, que continuam a decorar as portas e as paredes. Apontamentos de história que funcionam com um puzzle decorativo e quase encantatório, tal é a vontade de percorrer cada detalhe com o olhar. “Tudo o que encontraram foi usado como decoração”, explica instantes depois uma das empregadas de mesa, acrescentando que o facto de a proprietária do restaurante ser, ela própria, uma colecionadora de arte, ajudar a explicar a harmonia estética e a forte presença de obras de arte. Ultrapassadas as zonas da entrada e do bar, o espaço desmultiplica-se em pisos inferiores, numa espécie de labirinto surpreendente, com acesso a outras camadas de História. Os andares subterrâneos ocupam o espaço que, no passado, pertencia ao Convento Real de Loreto, fundado em 1585 por Filipe II para acolher meninas órfãs. As cinco salas acolhedoras, com tetos em abóbada e paredes em tijolo exposto, transformam-se em bolhas intimistas que combinam na perfeição com uma carta equilibrada que consegue ser sofisticada e moderna sem nunca prescindir de uma sensação de conforto. Em última análise, é essa a sensação que persiste quando abandonamos a atmosfera mais tranquila do restaurante e reemergimos no bulício da Calle de Atocha.
Compras com (c)alma
A tarde ainda não vai a meio quando encontramos a sorridente Leslee Jabola, uma filipina que trocou a terra natal pela capital espanhola e que, hoje, trabalha como gestora na Galeria Canelejas. É ela quem nos acompanha numa visita pelo interior do espaço comercial que concentra num só lugar algumas das mais conceituadas marcas de luxo, como a Dior (a maior loja de Espanha), Giorgio Armani, Hermès, Louis Vuitton, Saint Laurent, Tom Ford, Cartier ou Rolex, entre outras, afirmando-se, mais do que um espaço comercial, como um novo destino turístico, para quem procura luxo e sofisticação. Antes de entrarmos, pede-nos que olhemos, uma vez oito mil metros quadrados de fachadas e, num exercício de imaginação, tentamos recuar no tempo.
Localizado num ponto estratégico, entre a Calle de Alcalá, a Calle de Sevilla, a Plaza de Canelejas e Carrera de San Jerónimo, e constituído por sete edifícios emblemáticos, em tempos ocupados por bancos, a zona foi erguida pela antiga burguesia espanhola entre o final do século XIX e o início do século XX, fazendo parte do património arquitetónico da cidade. Completamente fechado entre os anos de 2004 e 2013, o quarteirão acabaria por ser dinamizado pelo grupo formado pelas empresas OHLA e Mohari Hospitality, que adquirem este património em 2012. Depois de vários anos de obras e do desenvolvimento de um novo conceito com múltiplas vertentes, o hotel Four Seasons (o primeiro de Espanha) acabou por inaugurar em 2020, incluindo também as 22 e luxuosas residências privadas (uma delas propriedade de Cristiano Ronaldo). A nossa anfitriã prefere passar ao lado dos milhões implicados nessas transações e saltar diretamente para o interior do edifício onde sobressaem concept stores arrojadas e mármores lustrosos, num espaço imaculado e quase caleidoscópico. Os clientes mais abonados podem requisitar vários serviços exclusivos, como o de personal shopping, visitas guiadas ou parcerias com museus locais. E mesmo que qualquer uma das atividades propostas pareça impossível, vale sempre a pena entrar para tomar um café, admirar (de forma gratuita) os belos vitrais em art déco e ver de perto os antigos e imponentes cofres que estavam nos pisos subterrâneos e foram recuperados.
Cosmopolita e castiça, Madrid consegue ser tudo sem nunca deixar de ser ela própria. Ao contrário de muitas outras capitais internacionais, que vão vendo comprometidos os seus traços mais genuínos, a cidade parece conseguir integrar o que mais de moderno ecoa de fora sem nunca pôr em causa as suas características mais genuínas. É por isso que continua a ser fácil encontrar propostas locais e autorais, sejam elas mais conservadoras ou verdadeiramente arrojadas. São disso exemplo os chapéus criados por Alexia Álvarez De Toledo na loja inaugurada em 2020, na Calle de Cervantes. Feitos à medida, e à medida de diferentes ocasiões, são o remate final que eleva qualquer look (e que chega a qualquer parte do mundo, já que as criações disponíveis na loja podem ser entregues ao domicílio). (Literalmente) mais fora da caixa, são as criações de Andres Gallardo, uma marca que traz uma nova abordagem à joalharia e acessórios, combinando materiais contrastantes, como a pele e a cerâmica. Na loja-estúdio localizada no bairro de Las Letras, um estoico resistente à gentrificação, é possível admirar e comprar best-sellers, como os coelhos em porcelana que decoram jóias, malas e carteiras. Irresistíveis até para a cantora Rosalía, uma das clientes da marca.
Labirinto artístico
Uau. É a palavra sussurrada que mais vezes ecoa numa visita pelo SOLO CVS, um dos mais recentes (e interdisciplinares) espaços artísticos da capital espanhola. Localizado no número 36 da Cuesta de San Vicente (é daí que vem a sigla que lhe dá nome), inaugurou no verão passado, por fases, sem pressas nem sobressaltos. Instalado no espaço anteriormente ocupado pela centenária tipografia Rivadeneyra, soube preservar essa faceta mais industrial, acrescentando-lhe doses de charme e de surpresa que tornam qualquer visita numa experiência imersiva – e que ultrapassa claramente aquilo que habitualmente consideramos expectável numa incursão artística. É que além da arte propriamente dita e do diálogo que ela estabelece entre si, é também o próprio espaço que eleva a visita, criando uma sensação permanente de inesperado.
Projeto pessoal de um visionário casal de mecenas, Ana Gervás e David Cantolla (ela, pertencente à família proprietária da cerveja Mahou, ele, criativo ligado à animação e aos videojogos, elemento da equipa criadora da personagem Pokoyo), surge da vontade de partilhar com o público uma impressionante (e diversificada) coleção de arte contemporânea. Assim inaugura em 2018 o SOLO Independencia, (junto à Puerta de Alcalá, em Madrid), palco de mais de mil peças de arte internacional, a que se juntou também o SOLO Castanedo (na Cantábria). Para breve, está também prevista a chegada a Portugal, com a inauguração (ainda em data a anunciar) do SOLO Lisboa. O novo CVS tem uma atmosfera experimental e modular, em permanente transformação, bem à imagem do espaço, amplo o suficiente para acolher zonas mais convencionais como a galeria Bowman Hall, que apresenta quatro a cinco exposições por ano, e projetos mais alternativos, como Movimiento 37, que reflete a relação entre a tecnologia e o ser humano. Não falta sequer uma sala de cinema (para expor videoarte) ou um bar recheado de vinis (entre outros espaços privados reservados para clientes e eventos particulares).
Mais do que um simples espaço expositivo, pretende-se que seja um laboratório em permanente atividade, estimulando a criação e apoiando (através de 15 a 20 bolsas anuais) artistas de todos os pontos do mundo. Quem passa nesta artéria, numa zona menos conhecida e visitada da capital espanhola, dificilmente imagina o muito que esconde por detrás daquela fachada: um mundo de diálogos artísticos, desconcertantes, surpreendentes, inspiradores, incessantes. Bem à imagem de uma cidade em permanente reinvenção e desmultiplicação que consegue ser ainda mais surpreendente na profundidade do que já é à superfície.
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