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Ai Weiwei: “A minha obra só se tornou relevante porque encontrei tantas dificuldades”

Chega à Cordoaria Nacional a maior exposição na Europa do artista e ativista chinês Ai Weiwei. Dissidente, sem pudores, fala sobre a censura, sobre o negócio em que os festivais de cinema se tornaram, sobre a importância dos artistas, e sobre a sua nova vida no Alentejo.

Foto: cortesia Ai Weiwei studio
05 de junho de 2021 | Joana Moreira

Os sons dos obturadores das câmaras não param, mas Ai Weiwei (Pequim, 1957) não parece minimamente incomodado. Pelo contrário, move-se com naturalidade, aproxima-se das suas obras e até interage com elas quando percebe o que os fotógrafos pretendem. Na conferência de imprensa um dia antes da inauguração de Rapture, a exposição que abriu ao público na última sexta-feira na Cordoaria Nacional, em Belém, e que fica patente até finais de novembro, o artista chinês observa em silêncio o seu trabalho marcado pelo ativismo. Das 85 obras ali presentes, em 4 mil metros quadrados, algumas nunca as tinha visto fora do estúdio. "É a primeira vez que as estamos a pôr todas juntas e provavelmente a última", diz.

Ai Weiwei
Ai Weiwei Foto: Bob Wolfenson

O artista, que chegou a estar preso e a ser alvo de perseguições pelo Governo chinês, escolheu Portugal para viver e trabalhar. "Sinto-me confortável aqui", admite. No Alentejo ouve o galo ao amanhecer, tem galinhas e gatos e vai ao mercado de frescos onde lhe dizem: "O mundo é tão grande, porque veio para Montemor?". Assevera que foi natural, que não foi uma escolha, que baseia as suas decisões no instinto. Elogia o clima, a comida ("mesmo para os [elevados] padrões chineses"), e o conforto do país. Portugal retira-o dos "confrontos", dá-lhe espaço.

A exposição em Lisboa já estava a ser falada antes de o artista fazer do território nacional a sua morada – entre a sua chegada e um almoço combinado com o curador de Rapture, Marcello Dantas, Weiwei comprou uma casa no Alentejo. Depois, pôs-se à estrada e viajou pelo país para descobrir as práticas, técnicas e tradições dos artesãos portugueses. Algumas resultaram em obras que estão agora nesta exposição. Não falando as mesmas línguas "encontraram uma linguagem das mãos", diz o curador. Nas duas alas da Cordoaria Nacional encontra-se porcelana, mármore, azulejos, cortiça. Há um autorretrato, logo à entrada, uma escultura em cortiça produzida pela Corticeira Amorim. "O meu trabalho tem sempre por base o entendimento do passado, e a Arte é chave para percebermos o que aconteceu numa nação ou no caráter de uma nação. Por isso, a todo o lado que vou presto atenção aos artesãos, e a minha experiência de trabalho [com os artesãos portugueses] foi muito saudável", lembra Ai Weiwei, acrescentando: "Eu aprendo com eles e eles aprendem comigo. É uma troca com muito significado".

Imagens da exposição na Cordoaria
Imagens da exposição na Cordoaria

A censura e o papel dos artistas hoje

Apesar dos constrangimentos da pandemia, não se pode dizer que Ai Weiwei não tenha tido um ano produtivo. Criou, fez filmes e lançou um projeto em colaboração com o Ebay de venda de máscaras pensadas no seu estúdio em Berlim. Os lucros angariados reverteram para Organizações Não Governamentais, como a Human Rights Watch, os Médicos Sem Fronteiras ou a Refugees International. Perguntamos-lhe se este é o tempo em que o mundo mais precisa dos artistas. "Diria que este é o pior tempo para artistas, escritores, cantores. Simplesmente porque não temos artistas, escritores ou cantores, que queiram saber da condição humana. São muito poucos. Ou então são muito poucos aqueles cuja voz consegue ser ouvida. Os artistas só querem ter sucesso, ou ficar ricos, ou ser celebridades. Não vejo muitos artistas... A Universidade produz artistas todos os anos e a forma como educam é completamente... Não tem nada a ver com Arte (...). Acho que é o pior momento da História humana. Os artistas, escritores não estão realmente focados ou a contribuir para a luta humanitária."

Imagens da exposição na Cordoaria
Imagens da exposição na Cordoaria

As causas humanitárias são também o grande tema das obras cinematográficas do artista plástico. O seu mais recente filme é Rohingya (2021), um documentário sobre a crise dos refugiados, que quis levar ao Festival de Cinema de Cannes, sem sucesso. "Os meus filmes sempre foram rejeitados pelos grandes festivais de Cinema. O que é compreensível, porque todos os festivais de Cinema, os grandes, não os pequenos, porque esses continuam muito mais independentes, mas os grandes, como Veneza, Berlim ou Cannes, todos têm como comprador o grande mercado da China. Os festivais de Cinema tornaram-se um negócio, e estão à procura de compradores, e a China é o maior mercado cinematográfico do mundo, já ultrapassou os Estados Unidos, que é agora o segundo. Por isso os festivais enquanto negócio não podem receber os meus filmes", assegura. "Os meus filmes criticam não só a China, mas [há] também o meu nome. Se estiver nesse festival, a delegação chinesa pode cancelar o negócio. A China é muito severa em relação a isso", diz.

Além do constante alerta para a censura no seu país de origem, da qual a sua vida também é prova, Ai Weiwei aponta para a existência de uma autocensura europeia: "Há também uma autocensura que acontece na Europa, em todas as instituições culturais. Em universidades, centros de investigação, acho que é muito perigoso que isto esteja a acontecer em toda a Europa e nos Estados Unidos."

'Snake Ceiling', localizada na Galeria Nacional de Praga
'Snake Ceiling', localizada na Galeria Nacional de Praga Foto: Cortesia Coleção Privada

O perigo, contudo, nunca demoveu Weiwei de criar. Pelo contrário, é um traço do seu perfil, um dos mais influentes da Arte contemporânea, eleito como o artista mais popular do mundo em 2020 pelo The Art Newspaper. "Acho que a Arte está sempre a tentar encorajar as pessoas a serem elas próprias", diz aos jornalistas. Se assim for é possível conhecer o que move Ai Weiwei nesta exposição. Logo à entrada, sobre as cabeças dos visitantes paira Snake Ceiling (2009), uma instalação no formato de uma cobra, constituída por centenas de mochilas de crianças, representativas dos estudantes mortos no terramoto de Sichuan, China, em 2008. Há também obras sobre o período em que esteve preso, sem acusação, na China, em 2011. "Acho que a minha obra só se tornou relevante porque encontrei tantas dificuldades", confessa. "As pessoas que tentam bloquear-me, ou apagar-me, ou censurar-me, fazem-me sentir que devo ser muito importante. Porque é que estes superpoderosos estão tão importados comigo, com as reações de uma pessoa privada? Por isso tenho de trabalhar, enfrentar a minha própria consciência e defender a liberdade de expressão, os direitos humanos", remata.

A importância, a resistência e as obras de Ai Weiwei podem ser vistas na Cordoaria Nacional, em Belém, até 28 de novembro.

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