Como é que define o luxo?
Foi mudando ao longo das décadas. A nossa empresa tem quase 40 anos e fomos vendo o luxo ir mudando aos poucos. Hoje viver na área externa, se conectar com a natureza, comprar um produto que dure muito tempo, que não eram valores quando começamos, hoje são valores e considerados luxo. Claro que há o design, o estilo esteticamente interessante, mas diria que o luxo foi mudando ao longo do tempo e foi simplificando a experiência. As pessoas acham que grande luxo é ter uma varanda em casa, um jardim para cuidar e coisas do género. Todo esse conceito, que agora é bem moderno, é uma coisa que sempre permeou a nossa empresa e talvez por isso agora conseguimos, na última década, um crescimento imenso dentro do novo luxo.
Mas considera o luxo um investimento financeiro, emocional ou cultural?
Acho que esse luxo que faz a pessoa sentir-se melhor porque tem uma mala, é efémero. O nosso conceito de luxo destina-se àquela pessoa que quer investir na durabilidade, em alguma coisa que vai levar, que faça sentido, que converse com ela. Justamente um tipo de luxo para quem aposta na permanência. Esse luxo é culturalmente mais forte. Já é antigo, como quando se faziam coisas para os reis, era esse contexto, uma coisa incrível, maravilhosa, porque foi encomendado pelo rei A, B, ou C. O antigo mundo tem toda uma história que no Brasil não temos. Mas o luxo vai-se movendo assim. Creio que é nesse conceito que a Tidelli se encaixa melhor.
Que marcas ou experiências são uma referência para si nesse universo e porquê?
Temos uma atenção especial ao mercado italiano. Os italianos são os papas do design, do renascimento e de tudo que moveu a arte. E especialmente no setor de imobiliário eles são muito fortes, as principais marcas do mundo são italianas. Há uma marca que é referência para nós, que trabalha muito a arte, o design, que é a Paola Lenti, num nível de preço um pouco mais alto que o nosso. Em Espanha, uma empresa chamada Kettal, familiar, com 100 anos, construída pelo avô e hoje gerida pelo neto, tem crescido muito, tem como nós a visão de contratar designers para fazer coleções, que nós também temos no nosso ADN. É uma empresa que nos inspira muito pela permanência e pela solidez do negócio. Vimos também nesses últimos 10 anos essa empresa destacar-se no cenário internacional, é um benchmark importante para nós. Ao mesmo tempo que vimos outras empresas que eram referências de excelência de pessoas ou de famílias ou de setores criativos serem vendidas a grandes grupos internacionais e perderem a sua essência, o seu charme. Diria que essas duas empresas são as que mais nos inspiram hoje.
Como acha que o luxo se distingue da ostentação?
Ouvi de um designer muito importante, colombiano, que trabalhou connosco que dizia se tivesse um casal muito jovem que não tem dinheiro para investir na casa que têm o sonho de ter, dizia-lhes sempre para comprarem uma determinada peça, mesmo cara, mas que tenham a certeza que vão levar para a próxima casa, porque esse é um investimento que nunca vão perder. Há um mundo enorme de possibilidades económicas maravilhosas que adoro, mas tudo aquilo que se comprou para a primeira casa, não se vai levar para a segunda. Há gerações de crianças que cresceram com essa ideia na casa dos seus pais e hoje sabem o que é melhor.
Qual é o papel da exclusividade?
A exclusividade para nós é fundamental. A peça propriamente dita, de alumínio por exemplo, que incorpora a mão de obra e também a marca. A nossa diferenciação foi sempre trabalhar a nossa marca nos mercados de forma exclusiva e essa é a nossa diferença. Entregamos um modelo de negócio juntamente com a exclusividade, não vendemos produtos, vendemos um modelo de negócio.
Crê que o luxo é mais uma questão de conforto, estética, status ou cultura, ou todas?
Creio que todas. Porque quando se vai comprar algo de luxo, ponderam-se todas. É claro que estou a excluir aquele luxo vazio das pessoas que têm muito dinheiro e gastam em qualquer coisa. Mas estou a falar das que veem o luxo como aspiracional. Tem pesos diferentes, mas isso tem a ver com a individualidade de cada um.
Qual foi o último objeto ou experiência de luxo que a marcou?
As experiências que me marcam mais são as de viagem. Acho que o maior luxo que experienciei ultimamente, foi durante uma colaboração com um artista plástico numa exposição de esculturas outdoor nas pirâmides do Egito. Criamos a escultura junto com o artista na fábrica (chama-se Vento– 21 cilindros que se movem conforme o vento e emitem som) para um evento de luxo como nunca tinha visto. O cenário era adequado às pirâmides do Egito e estavam escultores de todo o mundo como o português Vhils. Esse mundo da arte, do design, foi a minha recente experiência de luxo.
Como é que lida com as tendências? Segue ou ignora?
Sempre tive uma boa capacidade de perceber a tendência um pouco antes de acontecer. Antes de chegar ao consumidor, já sei mais ou menos para que lado está indo. Não sei dizer como faço a leitura, mas sempre faço a certa, também porque a moda tem muito a ver com a decoração. Se se consegue ler na moda para onde segue uma tendência, vai repetir-se na decoração. Por exemplo, estive num desfile da Dior nos Jardin des Tuileriesem Paris e vi flores aplicadas, mulheres fluídas, tons pastéis, o que traduz uma tendência. Há quem veja que é uma tendência que daqui a pouco estará nas lojas, na estampa, na cor e na forma. O mundo não está indo para uma visão futurista, está caminhando para uma visão mais romântica, mais fluida, mais antiga, mais nostálgica. O mundo está ficando mais conservador e é preciso ler esse caminho. É sobre para onde tudo está indo e, aí, vou criar uma coleção que converse com a tendência.
Que serviços ou detalhes fazem uma experiência verdadeiramente luxuosa para si?
Digo que o luxo está nos detalhes não na ostentação. É o detalhe do acabamento, da costura, da durabilidade, do desenho que não envelhece, do conforto. Do simples.
O que mais valoriza num hotel?
O conforto. A primeira coisa que um hotel precisa ter é boa roupa de cama e boas toalhas. É onde colocamos o corpo que a sensibilidade é mais elevada. Fui a hotéis lindos que a roupa de cama era má. Pode ser bonito, mas o conforto é fundamental. Se o banho é mau, se o travesseiro é duro, acabou a experiência.
Neste universo, que oferta gastronómica procura?
Sou muito tradicional e não gosto de experimentar coisas novas por isso sou o terror dos chefes de cozinha. Vêm com aquelas comidas mirabolantes e aparece sempre um ingrediente que não gosto. A minha culinária predileta é italiana. Sendo bem sincera, troco qualquer coisa por um bom prato de macarrão.
Que papel é que desempenham as redes sociais neste universo?
As redes sociais são uma ilusão e são o jornal de hoje. É um conteúdo que precisa de estar, mas ninguém se lembra no dia seguinte, não permanece. É diferente, por exemplo, de uma revista. Hoje só se consegue tentar passar um conceito no papel. Sou influenciadora digital e tenho uma rede de seguidores imensa. É fácil ter quase um milhão de visualizações, mas as pessoas que me encontram na rua não sabem quem sou, mesmo que seja meu seguidor, que receba o meu conteúdo, que goste e compartilhe.
Que novos luxos imagina para o futuro?
Coisas simples. O agroturismo e todas essas áreas que aportam tradição. Em decoração, vou resumir em duas frases. Uma delas é da estilista Marta Medeiros, que assinou a nossa última coleção Pérola que disse: o futuro tem alma antiga. A outra, a grande tendência de decoração, é como construo uma casa igual à da minha avó. Sei que é uma quebra de paradigma, mas é um facto. Talvez não vão as marcas, mas o consumidor vai nessa linha.
Que objeto possui que considera luxuoso?
Todas as obras de arte que tenho considero o meu luxo.