Viver

It’s The End of the World – As we Know It

Ter consciência do que se passa no Planeta é bom. Chama-se awareness. Deixar que tal interfira com a nossa saúde mental, nem por isso. É sofrer de ansiedade ambiental. De uma maneira ou de outra, todos os dias somos assolados por mais uma notícia que ilustra “a última catástrofe” ou “a mais recente calamidade”. Resta saber como conviver com isso.

Foto: Getty Images
21 de fevereiro de 2020 | Pureza Fleming

A opção de se viver alheado do mundo, e de tudo o que nele se passa, é, cada vez mais, uma irrealidade. Mais do que nunca, quer queiramos quer não, todos os dias nos é esfregado no rosto o estado do globo com todos os seus infortúnios – quando foi a última vez que assistiu a um telejornal repleto de boas notícias? Não se lembra? Eu também não. E foi, também, por esse motivo que o hábito de ver o telejornal foi perdendo relevância no meu quotidiano. Mesmo assim, as coisas estão de tal forma que, por mais que fechemos os olhos, havemos de estar sempre informados (ainda que, por vezes, mal informados). A desempenhar essa função, a de nos manter irremediavelmente conectados com o mundo, temos: o Facebook, o Instagram, os meios online, as capas de jornais destacadas nos quiosques com os seus títulos histéricos a gritarem pelo nosso olhar, que tenta, a todo o custo, desviar-se. E depois ainda lidamos com a vizinha de cima, a vizinha de baixo, aquele familiar que adora brindar o almoço de família com um bom drama à escala mundial, o amigo daquele grupo de WhatsApp que não sabe falar de outra coisa. Por mais que tentemos fugir, dificilmente nos conseguiremos esconder — já cantavam os Da Weasel no seu álbum Podes Fugir mas não Te Podes Esconder (2001).

 

Por outro lado, fechar os olhos à desgraça que assola o planeta, também não é a solução ideal a adotar. Em simultâneo, esta também não pode — ou não deve —, passar a tomar conta das nossas vidas, impedindo-nos de… viver. Quando os males do mundo nos afectam de tal maneira que deixamos de conseguir viver sossegados quanto baste (e sossegados não quer dizer adormecidos), significa que estamos a sofrer de ansiedade ambiental ou de eco-anxiety. O termo foi atribuído em 2011, por Glenn Albrecht, ex-professor de sustentabilidade na Universidade Murdoch, na Austrália, e membro honorário da School Of Geosciences, Sydney University, e diz respeito a uma preocupação exacerbada com os impactos reais ou potenciais das mudanças climáticas que pode levar a problemas relacionados com o stress. "Nesta tipo de ansiedade, os pensamentos intrusivos de preocupação com o ambiente são constantes, e podem ocorrer suores, tremuras, respiração acelerada, tensão muscular e aumento dos batimentos cardíacos", explica Cristina Sousa Ferreira, da Oficina da Psicologia. E prossegue: "O termo eco-anxiety é utilizado para salientar a preocupação excessiva com os temas ambientais. Destina-se às pessoas para quem a preocupação com o seu futuro, o dos seus filhos e das futuras gerações, perante o irrevogável impacto do clima, é uma fonte adicional de stress". A psicóloga assegura que, nos consultórios onde exerce, ainda não têm surgido muitos casos em que os sintomas de ansiedade estejam especificamente relacionados com problemas ambientais. Porém, não retira qualquer peso no caso de isso acontecer: "Será que, ao lembrarmo-nos dos incêndios dos últimos anos, em Portugal, e das terríveis consequências que tiveram, não ficamos preocupados e evitamos passeios em zonas florestais em período de verão ou ficamos mais ansiosos se vamos visitar familiares no interior do país?

 

A ansiedade é a resposta fisiológica a uma situação de ameaça e prepara o nosso corpo para enfrentar ou escapar ao perigo rapidamente. Incêndios florestais, tempestades e grandes eventos climáticos podem parecer uma ameaça distante, no entanto, para aqueles cujas vidas foram diretamente afetadas [a ameaça] está bem mais perto. A divulgação de imagens de catástrofes ambientais e de sofrimento de pessoas e animais e, muitas vezes, a impotência perante a força da natureza, torna todos estes eventos mais próximos e confronta-nos com a realidade de que não acontece só aos outros. A nossa perceção sobre os perigos e ameaças decorre através de experiências diretas ou indiretas e, quando se trata de mudanças climáticas, mesmo as pessoas que não sofrem os impactos diretos podem enfrentar aquilo a que podemos chamar de desafio existencial", remata Cristina Sousa Ferreira. Em 2018, a APA (American Psychological Association), realizou um estudo, nos Estado Unidos da América, cujos resultados demonstravam que cerca de 50% das pessoas referiam que as alterações climáticas eram, para si, uma fonte significativa de stress. Num relatório publicado pela revista médica The Lancet, cientistas e especialistas em saúde confirmaram que os impactos das mudanças climáticas estavam a aumentar e a ameaçar sobrecarregar os sistemas de saúde. "É isso que realmente me deixa acordado à noite", exprimiu Nick Watts, diretor executivo do The Lancet Countdown. Um outro estudo, desenvolvido pela Universidade do Arizona, acerca dos efeitos na saúde mental da perceção de ameaça global que são as alterações climáticas, revelou que a resposta psicológica às mudanças climáticas parece variar consoante o nível de preocupação em relação ao ambiente. Os mais preocupados com a natureza, plantas e animais são os que apresentam, habitualmente, os maiores níveis de stress.

 

Neste estudo, foram identificados três tipos de preocupações ambientais: Egoísta, em que há uma preocupação com o impacto direto em si (por exemplo, a poluição impacta os meus pulmões); Altruísta, onde há uma preocupação com a humanidade, no geral, nomeadamente com as gerações futuras; E, por fim, biosférica, na qual a preocupação com a natureza, plantas e animais prevalece. Estes últimos apresentam uma preocupação mais acentuada e uma visão mais global sobre o tema e pensam nas consequências de forma mais globalizada. "A preocupação é futurista: alimenta-se do amanhã, do que pode dar errado, do que nos pode cair em cima. Importa-se com perigos potenciais, com as perguntas 'E se…?’. Qual é, afinal, o objetivo da preocupação? Fazer-nos evitar experiências negativas", deslinda a psicóloga Cristina Sousa Ferreira. Parece, então, que a preocupação é ‘nossa amiga’ e que tem um papel importante na nossa vida, certo? "Não, quando encrava. Quando fica presa nas catástrofes, nas ameaças, nas incertezas para as quais não há uma boa resposta. Quando a preocupação nos leva a níveis de ansiedade demasiado elevados e contínuos, bloqueando-nos, paralisando-nos e impedindo-nos de encontrar respostas adequadas às situações. Aí sim, temos razão de queixa", conclui.

 

Ter filhos: sim ou não?

 

Em 2010, Cláudia Costa e Tiago Lucena largaram a confusão de Lisboa para irem viver o descanso da vida rural que o país lhes poderia proporcionar. Com a mudança de vida, outro tipo de interesses começaram a surgir: "A ida para o campo trouxe, naturalmente, uma crescente curiosidade pela vida na natureza, pelo meio ambiente e ainda por questões ligadas à sustentabilidade". Em 2017, este casal que se encontrava estabelecido na zona da Sertã, na Beira Baixa, teve o desprazer de assistir, na primeira fila, aos incêndios de Pedrogão Grande. Viram as chamas arderem a cerca de quatro quilómetros de sua casa, tinham um apiário com 50 caixas de enxames a 500 metros do fogo e ainda assistiram a um terceiro fogo chegar perto de uma aldeia onde tinham a sua carrinha a ser reparada. O cenário aterrorizador (e tudo as suas consequências durante e após os fogos – burocraticamente falando) levou-os a abandonarem este local do país naquele mesmo ano. Tiago e Cláudia têm 38 anos e não têm filhos. Atualmente, planeiam ter um filho, mas nunca mais do que um. E tal não foi uma decisão tomada de ânimo leve: "Foram anos a pensar se deveríamos ou não fazê-lo. Juntando a óbvia instabilidade profissional que a nossa geração vive, à emergência climática, são poucos os motivos que nos fazem querer ter um filho, senão dar continuidade à nossa linha genética", comenta Tiago. E mantém: "Olhando para o mundo, para aquilo a que nós assistimos [em Pedrogão Grande] e acreditando no pior cenário possível, que pode acontecer já daqui a 30 ou 40 anos, não há nada mais egoísta do que pôr uma criança neste mundo".

 

Um estudo sueco, realizado em 2017, estimou que ter-se menos um filho por família pode economizar uma média de 58,6 toneladas de carbono a cada ano. A propósito do mesmo estudo, foram muitos os questionados que consideraram anti-ético trazer uma criança a um mundo cujo futuro está tão horrivelmente comprometido. Para outros, tal é uma pergunta preocupante. O site BirthStrik coleta depoimentos daqueles que se debatem contra esta questão: "Nos últimos 10 anos, sensivelmente, todo o conhecimento acumulado em torno das mudanças climáticas e do aquecimento global deixou-me cada vez mais nervoso ao pensar em ter filhos", lê-se num dos depoimentos. Para pais preocupados com o meio ambiente, esta acaba por ser outra fonte de culpa e de aflição: nós demos cabo do planeta por ter filhos ou vamos antes arruinar os nossos filhos por tê-los num momento tão atroz? Tal como a Cláudia e o Tiago, são muitos os casais que põem a hipótese de não procriar, num mundo que parece entregue ao caos. Mas há quem vá mais longe nesta lógica de pensamento. O Movimento pela Extinção Humana Voluntária (Voluntary Human Extinction Movement), é um movimento ecológico cujo objetivo é renunciar à reprodução humana. Criado pelo ativista Les Knight, em 1991, defende que as condições e saúde da Terra melhorarão e a escassez de recursos desaparecerá se a Humanidade diminuir voluntariamente a sua população, de forma gradual, deixando de se reproduzir. "Ninguém, nesta altura, consegue justificar a reprodução", afirmou Knight, num vídeo que pode ser visualizado no Youtube. "Solução radical? Se a espécie humana se extinguir, como muitas outras o fizeram, não há problema. 250 mil espécies extinguem-se todos os anos por nossa causa, isso é que é radical", defende Knight. "Somos nós, ou milhões de outras espécies. Não estamos a falar de aumentar as mortes, mas de diminuir as mortes no planeta", conclui. Mesmo perante posições mais extremas como a defendida pelo movimento acima, a ansiedade ambiental não é considerada uma perturbação psicológica e ainda não há dados sobre a sua prevalência. Porém, e tal como confirma aquela psicóloga, "têm-se registado, em algumas pessoas, elevados níveis de stress, com sintomas que incluem ataques de pânico, pensamento obsessivo, perda de apetite ou insónia". É, assim, importante que se desenvolvam características de resiliência, de gestão das emoções e da ansiedade, em vez de se querer eliminar as manifestações protetoras do organismo que preparam para lidar adequadamente com situações de ameaça. "Digo muitas vezes em consulta ‘não queremos eliminar a sua ansiedade, queremos, sim, assegurar que tem as estratégias que lhe permitem geri-la’. A ansiedade é protetora e é a reação física do corpo perante situações de ameaça". "Ignorance is bliss?", pergunto. "Não, a ignorância nunca é uma benção".

 

Saiba mais Facebook, The End of the World, The Lancet Countdown, Pedrogão Grande, ambiente, questões sociais
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