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A história secreta do coronavírus

O termo foi cunhado em 1968 quando um microscópio eletrónico mostrou a superfície do vírus em forma de coroa, semelhante à camada externa do sol.

Foto: Adli Wahid | Unsplash
16 de abril de 2020 | Aline Fernandez

Por volta de 1920, cerca de 35% das pessoas com constipações tinham vírus que os cientistas não conseguiam identificar. Mais de quatro décadas mais tarde, em 1965, Dorothy Hamre, pesquisadora da Universidade de Chicago, transformou este problema num desafio e começou a estudar as culturas de tecidos de estudantes com gripes. Descobriu assim um novo tipo de vírus, que ficou conhecido como 229E, o primeiro coronavírus humano descoberto.

Em 2016, em Atenas, Grécia, uma professora de 45 anos foi às urgências do Hospital Hygeia com febre acima dos 39 graus, tosse seca e dor de cabeça intensa. A mulher era não fumadora e sem grandes problemas de saúde mas, ao ser examinada, notou-se que a parte inferior do pulmão esquerdo tremia quando esta respirava. Os médicos trataram-na com antibióticos, pois pensavam ser mais um caso de pneumonia bacteriana. Porém, o seu estado piorou e o teste laboratorial de pneumonia deu negativo.

Com o passar dos dias a respiração da professora começou a falhar, então recebeu oxigénio e mais medicamentos. Foi só então que foi testada para várias estirpes da gripe e outras doenças respiratórias graves. Tudo deu negativo, incluindo os testes mais sérios — nomeadamente para SARS e MERS —, e único teste que deu positivo surpreendeu a equipa, que resolveu refazê-lo. Comprovaram que a paciente estava infetada com 229E, o mesmo vírus que a pesquisadora Dorothy Hamre descobriu em 1965.

Na mesma época da descoberta de Dorothy, um grupo de investigadores em Inglaterra, liderado por David Tyrrell, isolou o que parecia ser um novo tipo de vírus e descobriu que se assemelhava ao que havia sido isolado na década de 1930 em galinhas com bronquite. Era um coronavírus e o primeiro a infetar humanos. Também na década de 1960, o pesquisador da Escola de Medicina de Harvard Ken McIntosh fazia parte de uma equipa do National Institute of Health dos Estados Unidos da América, que também procurava as causas da gripe comum. A sua equipa acabou por descobrir o que agora é conhecido como OC43, outro coronavírus humano comum que ainda hoje causa infeções respiratórias.

Enquanto hoje são realizados estudos biológicos com rigor de contenção e de segurança, vale a pena lembrar que o cuidado não era o mesmo há meio século. Mesmo que a descoberta dos coronavírus como o 229E e o OC43 tenha gerado grande burburinho dos media na época, que acreditavam que a ciência estava perto de derrotar a gripe comum, a comunidade científica não se concentrou ativamente em investigá-los profundamente até ao surgimento da síndrome respiratória aguda grave, em 2003.

A razão era simples, estes vírus causavam doenças relativamente leves, que podiam para ser tratadas como quaisquer outras gripes, com redutores de febre e supressores de tosse. Mas depois do surto da SARS — que se propagou por 29 países com 8.096 pessoas infetadas e 774 mortes —, que os cientistas voltaram a dar atenção a esta classe de vírus. "Quando surgiu a SARS, o mundo dos coronavírus mudou repentinamente e ficou muito maior e muito mais técnico", lembra o pesquisador da Escola de Medicina de Harvard Ken McIntosh à revista Forbes.

Foi então quase 50 anos após a sua descoberta, em 2012, que se sequenciou o genoma completo do 229E. Os coronavírus têm o maior genoma de RNA de qualquer um dos vírus animais, ou seja, há ainda muitos segredos a serem descobertos. Por isso, mesmo apesar dos esforços, ainda não se sabe a razão de três coronavírus — SARS-CoV-1, MERS-CoV e SARS-CoV-2 (a fonte da pandemia do Covid-19) — se terem propagado entre países e apresentarem sintomas mais graves e maior taxa de mortalidade do que os outros quatro coronavírus humanos conhecidos.

O que se sabe que têm em comum são os morcegos. Também é sabido que todos os coronavírus conhecidos que infetam humanos geralmente se espalham para outro animal antes de finalmente chegar aos seres humanos. Foi o que aconteceu com estes através do morcego, com o OC43 pelo gado e o MERS-CoV a partir de camelos.

Uma vez nos humanos, uma das características que tornam os coronavírus tão difíceis de combater são os diferentes sintomas e o impacto na saúde de toda a população. Basta reparar o que acontece agora, em plena pandemia do vírus Covid-19, há pessoas que são assintomáticas e muitas outras que não resistem à doença. Os efeitos e estragos dessa nova infeção ainda não têm fim, mas já garantem uma única certeza: é que nunca mais os coronavírus deixarão de ser pesquisados, porque podem mutar-se com relativa facilidade e não podemos e nem queremos ver um cenário pior do aquele em que nos encontramos.

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