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A Amazon é realmente contra o racismo?

Alguns membros do movimento antirracismo Black Lives Matter alegam que, apesar de mostrar o seu apoio, a empresa mantém parcerias comerciais com a polícia.

Foto: Instagram @jeffbezos
07 de julho de 2020 | Vitória Amaral

Numa altura e em que as manifestações contra o racismo se multiplicam um pouco por todo o mundo, a Amazon tem partilhar comunicados nas suas redes sociais a encorajar a reforma da polícia norte-americana e o movimento antirracismo Black Lives Matter. No entanto, crê-se que o gigante da tecnologia mantenha políticas internas e práticas de gestão que apenas perpetuam o problema.

No Twitter, a Amazon apelou ao fim da "abordagem injusta e brutal às pessoas negras" nos Estados Unidos, acrescentando o lema do movimento à sua conta oficial. O seu CEO, Jeff Bezos, por sua vez, já demonstrou o seu apoio na sua conta pessoal do Instagram, exemplificando um email em que responde pessoalmente a clientes contra o movimento. No entanto, alguns ativistas argumentam que se trata apenas de uma fachada, já que a empresa continua a ter parcerias comerciais com a polícia quase em todo o país, mantendo uma abordagem obsoleta colaboradores não-brancos.

Jacinta Gonzalez, membro do grupo ativista Americo-Latino Mijente, acusou a empresa de "perpetuar políticas e tecnologias que stão claramente a prejudicar as comunidades negras". Esta acusação viria a ser corroborada pelo grupo ativista de trabalhadores conhecido como We Won’t Build It (contra a construção do muro entre o México e os EUA), que comprovou que a Amazon já prestou vários serviços a agências como a Imigração e Alfândega dos EUA, conhecida pela sua brutalidade.

Os registos públicos lançados em 2018 revelaram que a empresa teria vendido o seu software de reconhecimento facial às forças policiais, o Rekognition, que identifica caras em qualquer câmara de vigilância (em vídeo ou fotografia). Além de promover os seus serviços de marketing, a Amazon promete assim uma eficácia impecável do software, que funciona em conjunto com as câmaras do corpo de policia em tempo real. Uma experiência realizada pela ONG União Americana pelas Liberdades Civis em 2018, no entanto, mostrava que o Rekognition confundia 28 membros do Congresso dos Estados Unidos que não eram brancos com pessoas que estavam ou já tinham estado presas. A Amazon apenas comentou em fevereiro deste ano que não tinha conhecimento da quantidade de departamentos policiais que estavam a utilizar esta tecnologia.

Desde então, vários grupos a favor dos direitos humanos também apelaram a que os departamentos policiais eliminem qualquer parceria com a subsidiária da Amazon, a Ring (uma empresa de sistemas de vigilância doméstica) depois de milhares de agências policiais e até civis o utilizarem como um meio de violar certos direitos dos cidadãos não caucasianos. Um artigo da Vice News em 2019 revelou que os não brancos têm mais possibilidade de ser vigiadas na app da Ring, a Neighbors, uma espécie de rede social de "vigilância de bairro" através da qual os utilizadores podem publicar vídeos e fotos de pessoas "suspeitas" captados pelas câmaras de segurança das suas casas. De acordo com um mapa da Ring, a app colabora com mais de 1,300 esquadras policiais por todos os EUA- um aumento de 300% em relação às 400 em agosto de 2019, cuja continuação a Amazon se recusa a confirmar ou desmentir.

Os registos passados do gigante tecnológico no que toca aos trabalhadores são outro indício de que a demonstração de apoio à igualdade racial feita por Bezos pode não se aplicar na prática. Um caso que recentemente ganhou bastante reconhecimento mediático foi o de Chris Smalls. Depois de trabalhar na Amazon durante 5 anos, Smalls foi despedido pouco depois de ter organizado um protesto no armazém da empresa em Staten Island, Nova Iorque, contra a falta de equipamento de proteção e de subsídio para os trabalhadores expostos a situações de alto risco durante a época da pandemia do novo coronavírus. Numa reunião entre executivos cuja gravação foi obtida pela Vice News, o consultor geral David Zapolsky disse que Smalls não era "inteligente, nem bem-falante", além de que com o reconhecimento mediático que recebera na altura, deveriam investir em "explicar detalhadamente porque é que a conduta do organizador foi imoral, inaceitável e relativamente ilegal", fazendo de Chris Smalls a "cara de todo o sindicato e movimento" para depois explicar as normas de segurança da Amazon.

O seu despedimento viria a ser feito sob a alegação de que teria sido pedido a Smalls que ficasse em casa durante 14 dias depois de ter estado em contacto com um colega infetado, pondo outros colaboradores em risco durante o protesto. Este, em contrapartida, alega que o caso positivo nunca foi comunicado aos trabalhadores, motivando-o a contactar os serviços de saúde pública e eventualmente organizar a manifestação. Este caso foi alvo de grande polémica, especialmente entre alguns políticos como o Presidente da Câmara Municipal de Nova Iorque, Bill de Blasio e Bernie Sanders, que chamou o despedimento de "vergonhoso", dado que retaliar contra os trabalhadores que se manifestam coletivamente pelas suas condições laborais é ilegal segundo a lei federal.

Infelizmente, a Amazon não é a única empresa cujos laços com a força policial têm sido postos em questão desde os protestos despoletados pela morte de George Floyd à custa da brutalidade policial. Este é também o caso da plataforma de alojamento local Airbnb que, apesar de demonstrar publicamente o seu apoio ao movimento Black Lives Matter, foi inúmeras vezes criticado por participar na gentrificação de bairros predominantemente negros e na expulsão dos seus residentes originais.

Saiba mais Black Lives Matter, racismo, Amazon, Jeff Bezos, brutalidade policial, viver, polícia, tecnologia
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