Quantos podem ter o privilégio de fundar uma marca em nome próprio? A Casa Landeiro Wines não veio do zero. Nasceu das várias ambições empresariais e motivações familiares de Luiz Landeiro, e tudo isso lhe custou anos de planeamento e sacrifícios. Ele só ainda não sabia que seria produtor de vinho. Sabia que queria ir à procura das suas origens e que teria capacidade para criar algo seu, deixar um legado aos seus filhos. A ideia levou anos a maturar, mas viu finalmente a luz do dia. Ou o fundo da garrafa.
Durante cerca de ano e meio, a contar de 2024 - um tempo absolutamente record -, Luiz Landeiro, ao lado da mulher, Graziela, reuniu um elenco de luxo para o ajudar a erguer a marca, procurar uma propriedade, estabelecer uma equipa de campo, fazer acontecer a vindima, apresentar o vinho à comunidade. Foi bem sucedido: essa apresentação aconteceu a 5 de dezembro de 2025, em Nisa, o Para Nisa tinto 2024 foi provado por dezenas de pessoas radiantes por esta cidade do Alto-Alentejo, conhecida pelos seus trabalhos na olaria, ter, finalmente, um vinho à sua altura. Mas, como escrevíamos, tudo começou bem atrás, podemos afirmar mesmo que a missão se iniciou silenciosamente há quase três décadas. Quando Luiz Landeiro tinha 20 anos, traçou para si um desejo que, no fundo, seria uma meta: ser financeiramente independente, deixando de estar subordinado a um chefe, até aos 45 anos. Quando estava prestes a fazer 46, despediu-se, e o seu desígnio cumpriu-se. Com uma visão empresarial que denuncia que a alma do negócio lhe corre nas veias, Luiz é Engenheiro Civil de profissão (com pós-graduação em Logística e MBA em Gestão Empreendedora), e nasceu no Brasil, em Itapemirim, no estado de Espírito Santo, tendo crescido numa cidade vizinha (Cachoeiro de Itapemirim). O trabalho levou-o a viver em Toronto, no Canadá, mas também na Malásia, em Ipoh. No seu país, passou por outras cidades como São Luís, no Maranhão, e Rio de Janeiro, antes de se estabelecer por fim na Flórida, onde vive atualmente com a mulher, Graziela, e seu braço direito no projeto, e os filhos (estabelecer, como quem diz, porque como nos conta Luiz, mais à frente nesta conversa, ele sente-se do mundo, e de parte nenhuma).
Histórias de família. Do Brasil à Galiza, até ao Alto-Alentejo
Quando Luiz e Graziela visitaram Portugal pela primeira vez, ficaram maravilhados com a autenticidade e a simplicidade dos pequenos sítios. Só pessoas com bom gosto podem apreciar essas duas qualidades. Isto porque, a certo ponto da sua vida, Luiz foi à procura de ligações aos seus antepassados, originários do Norte de Portugal e da Galiza. Foi, aliás, na Galiza que nasceu o seu bisavô paterno, tendo depois rumado ao Brasil à procura de uma vida melhor. Numa dessas viagens, achou uma fábrica chamada “Carnes Landeiro”, em Barcelos, e nessa sequência acabou por dar de caras com uma garrafa em cujo rótulo se lia “Quinta do Landeiro”. Não pertencia à família, mas a propriedade já tinha sido a vinícola Casa do Landeiro, que parou de produzir na década de 80 [do século passado]. Esta é uma das muitas idiossincrasias das histórias dessa busca, e Luiz não chegou a conhecer nenhum familiar. Essa viagem foi o clique para entender aquilo que queria fazer, realmente, para dar continuidade ao legado da família na Península Ibérica, que seria fundar uma casa de vinhos. Sentiu mesmo que era essa a missão.
“Eu só comecei a apreciar vinho tardiamente”, começa por contar Luiz Landeiro, à mesa, num simpático restaurante em Nisa. “O Brasil é quente, bebemos mais cerveja, mas há 20 anos que o mercado do vinho começou a crescer no Brasil, começou a moda dos wine clubs, faziam-se assinaturas de packs para receber em casa, e eu também comecei a consumir mais [vinho]. Tornou-se um programa familiar, no Brasil, receber as pessoas em casa para tomar um vinho em casa, até pela situação da violência no Brasil. Isto coincidiu com o meu crescente interesse pelo vinho, e também com esta história maluca de ir à procura das raízes da família”, esclarece. “Comecei pelo sobrenome Landeiro. Fui à Galiza. Eu tenho 48 anos, e antigamente não havia internet para procurar alguém assim. Até aos anos 90, só podia consultar documentos da família. Mais tarde, encontrei menções a este nome tanto em Espanha como em Portugal.” Depois da viagem a Barcelos, que foi há 10 anos, Luiz quis honrar os seus familiares. “Quis homenagear os meus antepassados, recriando essa conexão e a forma de o fazer foi através do vinho [...], ao longo destes anos estudei sobre vinho, até chegar a quatro propriedades possíveis, e é nessa altura que o Vasco [Magalhães] entra na história.” Depois, como dizíamos, tudo aconteceu muito depressa.
O terroir, das vinhas à uva
Vasco Magalhães, gestor do projeto e responsável pela empresa The Wine Office, foi o peão fundamental neste jogo vinícola. Foi ele quem visitou os primeiros terrenos que seriam propriedade de 30 hectares dos Landeiro, a Tapada do Fental, cujo terroir é caracterizado pelos seus solos argilo-arenosos, uma exposição solar abundante, invernos húmidos e verões curtos e quentes. “Quando me pedem este tipo de trabalho, tenho sempre de considerar vários pontos que integram um projeto vitivinícola”, começa por explicar. “Não é apenas a vinha, as castas ou solo, é também a sua localização, a sua história, a comunidade que a envolve, a sua beleza e o potencial de cativar qualquer um que lá vai. Quando cheguei a Nisa, encontrei um sítio (foi o último) que, apesar de ter uma vinha a precisar de ser recuperada, preenchia todos os requisitos com que qualquer produtor sonha, uma localização especial, uma zona de transição entre o Alto-Alentejo e a beira interior, ideal para vinhos elegantes numa região muitas vezes associada a vinhos mais intensos e poderosos, um solo diferente onde o granito (tão associado a outras regiões), marca a sua visível presença, e água”.
Para Luiz, este é um sítio especial, “fora da rota dos vinhos [...], penso que só não estamos na área demarcada porque simplesmente não há muitos produtores, aqui; há aqui um microclima muito diferente, há abundância de água, no caminho há serras... Quando analisámos o solo, vimos que havia manchas de xisto, numa das nossas parcelas, e também há outras mais argilosas. No futuro, queremos tirar mais proveito disso e personalizar cada vinho, de cada parcela”, ambiciona Luiz. O nome da propriedade - Tapada do Fental - acaba por ser uma espécie de ónix, uma vez que Fental é uma pequena aldeia galega, situada algures entre Lugo e Ourense, onde nasceu o bisavô José Landeiro. Desta aventura, resulta um primeiro vinho tão harmonioso como Graziela descreve o que para si deve ser um bom vinho tinto.
Para Nisa 2024: afinal, que vinho é este?
As uvas que foram usadas para esta espécie de vinho-piloto vêm de duas parcelas (no total, a vinha tem 14 hectares), uma mais jovem, da qual veio 50% do Aragonês, e outra de Vinhas Velhas, de onde veio a Alicante Bouschet (predominante nesta parcela), a Grand Noir, a Castelão e a Trincadeira, tudo isto sob orientação do experiente enólogo Mário Andrade. Na equipa também entrou Nuno Magalhães, uma referência incontornável na viticultura. E recentemente juntou-se à equipa o não menos brilhante José Luís Marmelo, eleito Viticólogo do Ano 2024 na Gala dos Melhores do Ano da Grandes Escolhas. Diego Armés é o diretor de comunicação da Casa Landeiro Wines, tendo apanhado o barco pouco depois do início do projeto, aliando-se a outros profissionais (fotografia, design, vídeo, pós-produção).
O que esperavam, Luiz e Vasco, deste primeiro vinho? “Este seria sempre um vinho de resultado imprevisível, é o primeiro, uma espécie de episódio piloto onde vamos sentir a reação das pessoas e, ao mesmo tempo, perceber o que ali temos de bom e o que precisamos de corrigir”, esclarece Vasco. “Este Para Nisa 2024 é exatamente isso, uma amostra crua deste terreno, das suas vinhas e das suas castas, um vinho de baixa intervenção, muito puro no seu perfil e que demonstra que, apesar de estarmos numa zona mais alta do Alentejo, o calor e a intensidade da fruta também são possíveis se assim o entendermos. É um excelente começo numa jornada que, tal como numa boa série de televisão, vai ter muitos “plot twist” que, esperamos, agarre o espectador e o deixe ansioso pelo próximo episódio”, reforça. Para Nisa 2024 é, para Luiz, um vinho que precisa de um olhar atento. “Ele tem um primeiro impacto forte, mas à medida que o vamos tomando ele vai amaciando, e desce suave”. É um alentejano puro, direitinho, equilibrado. “Tem muita força, mas à medida que abre, torna-se uma verdadeira surpresa.” É uma viagem sensorial, acredita. Diz isto a sorrir, com um semblante misterioso como quem diz que está só a começar.
Planos para o futuro: adega e enoturismo
Luiz Landeiro tem grandes planos para si, para Nisa e para a Tapada do Fental. “Queremos preservar uma das parcelas que tem cerca de dois hectares e vinhos com 40 anos”, adianta. “Como eu sou de Gestão, nunca iria entrar num negócio destes sem fazer o masterplan. Uma das primeiras coisas que fiz foi pôr tudo por escrito, planear, sabia bem que a implantação total da vinha, da adega e do enoturismo não seria feita imediatamente”. Vasco esclarece: “neste momento estamos em fase de replantação da vinha onde iremos apostar sobretudo em castas brancas, tradicionais nesta zona do Alentejo e perfeitamente alinhadas com aquilo que procuramos para os nossos vinhos”, garante. Ao mesmo tempo, tal como disse Luiz, vão recuperar a vinha já existente “para estabilizar e melhorar a sua produção para que no futuro consigamos pôr em prática aquele que é o nosso desígnio, uma verdadeira interpretação do terroir, baseada numa viticultura de precisão, enologia e vinificação criteriosa, para produzir vinhos que contem a história de cada parcela da Tapada do Fental.” Ficamos à espera dos próximos capítulos e, para já, provemos o vinho.