Serra da Estrela. Estrada fora até aos refúgios do Burel Mountain Hotels
Foi na vila de Manteigas que nasceu o Burel Mountain Hotels. Inclui duas casas históricas transformadas em pequenos hotéis de charme e, de caminho, foi também resgatada uma fábrica de burel do século XIX. A Must conta-lhe como foi passar aqui dois dias com boa comida, caminhadas pela serra e tinas de água quente e borbulhante. Sinta-se à vontade para roubar o roteiro.
Regra geral, estar enfiado numa banheira com quatro pessoas que mal se conhece, ao relento e a fazer conversa de circunstância aos berros porque o vento e a chuva fortes a isso obrigam, pode soar estranhamente desconfortável. Regra geral. E, no entanto, apesar de estar um frio de rachar, de tal forma que alguns de nós faziam acompanhar os seus fatos de banho com gorros de lã grossa, o ambiente era de amena cavaqueira. Os pinheiros à nossa volta dobravam ao sabor do vendaval e em cima das nossas cabeças aterravam escassas mas grossas gotas de chuva. Ou talvez fosse granizo ou mesmo neve. Quem sabe? A água, como já deve ter adivinhado, estava quente e borbulhante. E a banheira não era uma banheira. Ou, aliás, era uma banheira, mas não das que está a pensar – era um ofurô, uma banheira tradicional japonesa, uma espécie de tina circular, mais funda do que uma banheira ocidental e feita com ripas de madeira, a fazer lembrar uma pipa serrada ao meio. Este foi um dos pontos altos da viagem de dois dias que a Must fez à Serra da Estrela, em meados de fevereiro, para conhecer o Burel Mountain Hotels, que inclui duas unidades hoteleiras boutique e uma fábrica de burel, o tecido de lã tradicional desta zona.
A Casa das Penhas Douradas, uma unidade com quatro estrelas, foi o primeiro hotel que nos acolheu e o primeiro a abrir portas, em 2010. Tem 15 quartos e duas suites, uma das quais toda forrada a madeira e com tetos inclinados, que é um verdadeiro mini chalet de sonho. Neste hotel, o ambiente é um misto de casa moderna com apontamentos rústicos e um toque de museu. Aqui encontramos um corredor inteiro dedicado à história da primeira expedição à Serra da Estrela, em 1881, com fotografias, cartas, mapas e outros objetos alusivos. As salas comuns – com lareira e amplas janelas com vista para a serra – estão decoradas com equipamentos de esqui com mais de 100 anos. Todo o espaço do hotel é extremamente acolhedor e dá vontade de passar horas estirada num sofá revestido a burel, de camisolão de lã, leggings e meias grossas, a ver a chuva fustigar árvores e janelas até ser hora do chá. Sim, porque, tanto aqui como na Casa de São Lourenço, entre as 16 e as 18 horas serve-se um chá bem guarnecido de iguarias doces e salgadas.
A seguir, se conseguir resistir à tentação de voltar para junto da lareira com um bom livro debaixo do braço – o hotel tem biblioteca e livros em todos os quartos –, o melhor que tem a fazer é ir dar umas braçadas na piscina de água quente ou deixar-se ficar de molho no ofurô. E, claro, no spa tem diversas opções de massagens e tratamentos, sem esquecer o duche Vichy, que combina técnicas de massagem com a pressão exercida pelos jatos de água, promovendo um relaxamento profundo e ajudando na libertação de tensões acumuladas, entre outros benefícios.
Faça por gastar o máximo de calorias possível porque vai arrepender-se se não chegar esfomeado ao Nubbin, o restaurante da Casa das Penhas Douradas. Não é costume a Must recomendar sopas, mas, leitor, coma a sopa. Na verdade, coma todas as sopas. Coma sopa a todas as refeições. São todas incríveis. A Sopa de Castanhas e Boletos da Montanha com Croutons é das coisas mais deliciosas. E quem comeu a Sopa do Pastor com Croutons e Azeite Virgem disse o mesmo. Ao jantar, o creme de Couve-Flor com Gambas Selvagens, Legumes Asiáticos e Coentros provou ser outra maravilha. Vale a pena optar por um dos menus de degustação: o Flora, vegetariano, que custa 50 euros por pessoa, e o Expedicionário, que custa 60 euros. Ambos têm opção de harmonização de vinhos.
Entre almoço e jantar, ficaram também na memória o Brás de Cogumelos com Ovo a Baixa Temperatura e Cebolinho, os Ovos Rotos com Cogumelos Frescos e Presunto Reserva, bem como o Lombo de Bacalhau de Cura Tradicional Lascado com Açorda Cremosa de Tomate. Para sobremesa, deixe-se tentar pelo Creme de Maçã da Cova da Beira Assada com Crumble de Especiarias e Sorbet de Limão e Gengibre, ou pelo Bolo de Requeijão, Doce de Abóbora e Sorbet de Limão. Tudo a puxar para o tradicional e para a produção local, mas com um twist de modernidade.
Recolhemos aos nossos quartos confortáveis e espaçosos, bem comidos e bem bebidos, mas apreensivos. O programa do dia seguinte incluía uma muito desejada caminhada pela serra, ainda com umas boas reservas de neve, mas a ventania furiosa continuava a açoitar as nossas amplas varandas com vista para o bosque e a expedição parecia cada vez mais improvável.
E, no entanto, o dia amanheceu com um sol esplendoroso que se manteve pela tarde fora. Partimos em busca de neve e de vistas amplas e desafogadas, o que não é difícil porque a Casa das Penhas Douradas fica a 1500 metros de altitude. Fomos acompanhados por João Pedro, um dos guias do hotel que leva, frequentemente, os hóspedes através destes trilhos. Este é um dos serviços que o hotel disponibiliza e que é oferecido a quem lá fica. Todos os dias há caminhadas – contando que a meteorologia permita. Para quem gosta de natureza, o passeio é um deleite – tirando a parte de até os caminhantes frequentes parecerem desajeitados e com problemas de equilíbrio ao lado de João Pedro, que fez o caminho todo com as mãos nos bolsos. Este nosso líder de expedição é versado em paisagem, botânica, fauna, flora, arquitetura e tudo o mais que seja relevante naqueles caminhos. Ouvi-lo é como estar dentro de um documentário da National Geographic.
A caminho do miradouro do Fragão do Corvo passamos por uma casa muito bonita, de arquitetura típica, com exterior em chapa de zinco pintada. Chama-se Casa Elvira e pertence à família de Afonso Costa, que continua a vir aqui passar férias (a família, não o próprio), tratando a Serra da Estrela como o Balmoral da realeza britânica. Do miradouro, a 1440 metros de altitude, temos uma vista panorâmica sobre a vila de Manteigas e o Vale Glaciar do Zêzere e é possível também ver o Observatório Meteorológico das Penhas Douradas. Lá longe vemos também o telhado da Casa de São Lourenço, para onde partiremos de seguida, e que fica a 1250 metros de altitude.
Os Burel Mountain Hotels dispõem de um programa que vale muito a pena experimentar e que inclui duas noites na Casa das Penhas Douradas seguidas de outras duas noites na Casa de São Lourenço. O curioso é que o trajeto de quatro quilómetros entre uma casa e outra é feito a pé, na companhia de um guia. As malas, como é óbvio, vão ter ao destino por outros meios. Ambos os hoteis têm inúmeros programas e atividades, incluindo muitas a pensar em hóspedes com estadias de longa duração e que querem conhecer a Serra da Estrela de fio a pavio. Mas se só puder prescindir de um fim de semana comprido, esta opção das quatro noites com caminhada entre hóteis junta o melhor de dois mundos.
A Casa de São Lourenço abriu em 2018 e é uma unidade hoteleira de cinco estrelas, com 17 quartos e quatro suítes. A diferença entre as cinco estrelas de um e as quatro, do outro não é muito notória. E isso é um elogio tanto para a Casa das Penhas Douradas como para João Tomás e Isabel Costa, o casal por detrás de toda a ideia e que, curiosamente, não são filhos da terra, mas simplesmente duas pessoas que se apaixonaram pela zona e pelas qualidades do burel. A equipa de ambos os hotéis é a mesma – ora estão num, ora estão no outro – e isso promove uma familiaridade muito reconfortante. A maior diferença reside, talvez, na decoração, que na Casa de São Lourenço é dedicada ao burel – tetos, paredes, mobiliário – sendo um verdadeiro festim para os olhos e para as pontas dos dedos. Esta unidade é, talvez, mais sofisticada. A Casa das Penhas Douradas é, talvez, um pouco mais acolhedora, fazendo lembrar uma casa de família quentinha e confortável (mas de uma família abastada, pois claro). Enquanto na Casa de São Lourenço os quartos são todos diferentes e um pouco mais opulentos, e o restaurante, Fatiga, é um pouco mais elegante – para isso muito contribuem as cores escuras, a lareira central e o piano de cauda, sem esquecer a vista panorâmica.
Chegámos ao Fatiga depois da longa caminhada pela serra, portanto, fatigados (pun intended) e com um apetite bastante saudável. Aqui, impressionou, novamente, a sopa: um Creme de Cenoura Assada com Requeijão de Seia e Cebolinho. A Bochecha de Porco Ibérico com Esmagado de Batata, Cogumelos Salteados e Molho de Mostarda foi muito elogiada, mas não por mim, que escolhi um delicioso Arroz Cremoso de Beterraba, Espargos Grelhados e Cebola Crocante (não se deixe dissuadir pelo costumeiro sabor terroso da beterraba porque este prato é mesmo excelente). Tal como no Nubbin, vale a pena experimentar um dos menus de degustação: dois de quatro momentos, com opção vegetariana e convencional, e um de cinco momentos, que custam respetivamente, 50, 65 e 80 euros, todos com opção de harmonização de vinhos.
Ao jantar, como era véspera do dia dos namorados, fomos agradavelmente surpreendidos com o menu preparado para a efeméride e que seria servido no dia seguinte. Não vale a pena falar de uma seleção gastronómica que já passou e que não vai a tempo de experimentar, excepto para dizer uma coisa. E se está já a adivinhar que vou falar da sopa, tem razão. Vou mesmo. Desta vez, foi um Creme de Ervilhas com Copita de Porco que foi dos melhores que já provei – rivaliza apenas com um outro, consumido em Paris há mais de 10 anos, mas isso é história para outro dia.
Importa dizer que nem só de iguarias gastronómicas vive um grupo de jornalistas e, entre o almoço e o jantar ainda houve tempo para conhecer a Burel Factory e para relaxar nas águas quentes e borbulhantes do spa da Casa de São Lourenço. Todos os hóspedes de qualquer uma destas duas casas têm direito a uma visita guiada à fábrica do burel. Se ainda não lhe tiverem dito, aqui ficará, certamente, a saber que a vila de Manteigas não deve o seu nome à produção de lacticínios, mas às mantas – ou “mantecas”, como eram chamadas – que aqui se produziam (e continuam a produzir), nomeadamente, capas para os pastores se protegerem do frio, do vento e da chuva. E o burel protege mesmo. Feito com lã de ovelhas bordaleiras, nativas da região, é conhecido pela sua resistência, densidade e capacidade de isolamento térmico e acústico – razão pela qual reveste muitas das paredes da Casa de São Lourenço.
Até se transformar em burel, a lã passa por um processo de fiação, tecelagem e pisoamento. Esta última fase é a mais importante, é o momento em que o tecido é batido e lavado com água quente, o que faz com que as fibras encolham e se entrelacem, criando uma peça de tecido forte e compacto. Na prática, o tecido encolhe cerca de 40%. Aquilo que uma pessoa tem terror que aconteça quando mete uma camisola de lã na máquina de lavar, aqui é o efeito desejado.
Na Burel Factory ainda é possível ver em funcionamento teares do século XIX, do tempo da Revolução Industrial, que não só ainda trabalham na perfeição, como são usados para fazer as peças mais delicadas. A fábrica encontrava-se em processo de insolvência e foi adquirida pelos proprietários dos hotéis, com o objetivo de salvar uma tradição enraizada na história da região, assegurando postos de trabalho e a transmissão do conhecimento dos ofícios da lã às novas gerações. Tendo esta componente museológica, também não falta aqui, como é costume nos museus, uma loja onde o visitante poderá comprar peças iguais ou semelhantes às que acabou de ver a ser produzidas.
Regressamos à Casa de São Lourenço para um merecido momento de descanso antes do jantar, desta vez a sós. E apesar de o ofurô estar em manutenção, a piscina interior tinha um pequeno corredor aquático que dava para um piscina mais pequena, no meio do jardim, onde havia botões que faziam a água borbulhar. O fim de tarde foi passado assim, em perfeita solidão, debaixo de chuviscos, a ouvir os grilos e o barulho das folhas agitadas pelo vento.
Onde? Casa das Penhas Douradas – Penhas Douradas, Manteigas / 275 981 045; e Casa de São Lourenço – Amieiros Verdes, Manteigas / 275 098 932. Como chegar? Se não quiser ir de carro, pode ir de comboio (se não houver constrangimentos na circulação). A estação mais próxima é Belmonte-Manteigas. (O autocarro também é uma opção, em cujo caso fica na Covilhã). Peça um transfer quando fizer a sua reserva. Preços? A Casa das Penhas Douradas tem quartos entre os 189 euros e os 202,50 euros, e suítes, entre os 234 euros e os 333 euros. Já na Casa de São Lourenço, os quartos e suítes custam, mais ou menos, entre 350 e 540 euros por noite.
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