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Américo Pinheiro: “Luxo é uma edição a preto e branco da Fábula de Veneza, de Corto Maltese”

O logótipo da marca diz quase tudo – “Ferreira de Sá Tapetes de luxo desde 1946”. Américo Pinheiro lidera uma empresa fundada há 80 anos em Espinho que desenvolve coleções exclusivas para inúmeros projetos em mais de 60 países.

Américo Pinheiro
Américo Pinheiro Foto: DR
02 de outubro de 2026 | Augusto Freitas de Sousa Adicione como fonte preferencial no Google

Como define luxo?

Luxo é uma manhã de inverno com céu azul, sentado numa cadeira de madeira sob a areia da praia, a beber um cappuccino, diante de um mar infinito, no meio das pessoas de quem gosto.

Considera-o um investimento financeiro, emocional ou cultural?

Não consigo pensar em luxo como investimento, mas tem a ver com objetos ou experiências que nos tocam profundamente. Profundamente emocional.

Que marcas ou experiências são referência para si neste universo e porquê?

Gosto muito do sentido cénico da Moncler – o contexto define a emoção. Gosto muito do que o Jonathan Anderson fez com a Loewe – a manufatura, o detalhe, a arte ao serviço da estética. Gosto muito do mobiliário Van Rossum - acho simples, inesperado, brutal. A última coleção da Ferreira de Sá (como não?), Além Tejo, tem algo. Há ali uma autenticidade, um silêncio, um saber antigo, uma estética, um gesto técnico, uma subtilidade… tudo tocante.

Como se distingue da ostentação?

Eu sou mais pela discrição, mas o luxo é democrático. Cada um escolhe o seu e utiliza-o como muito bem entender (ostentação incluída).

Qual o papel da exclusividade?

Se está associado a uma verdade intrínseca – por exemplo uma peça excecional, magnificamente pensada e que apenas pode ser feita por um artesão que demora quinze anos a aperfeiçoar a sua arte – faz sentido. Vejo a exclusividade crescentemente usada para aumentar o preço de objetos desinteressantes.

O luxo é mais uma questão de conforto, estética, status ou cultura?

Relaciono luxo ao ato criativo, à manualidade, ao ponto de vista único, à cenografia do objeto, à estética e design.

Qual foi o último objeto ou experiência de luxo que o/a marcou?

Ultimamente, por razões inconfessáveis, voltei a deparar-me com o Livro do Desassossego, do Fernando Pessoa. Um enorme luxo, que consumo sem moderação.

Como lida com tendências? Segue ou ignora?

Tenho muita dificuldade em encaixar o conceito de tendências nas indústrias criativas. Vejo com muito interesse o que as diferentes indústrias criativas fazem, incluindo obviamente a haute couture.

Que serviços ou detalhes fazem uma experiência verdadeiramente luxuosa para si?

Que tenha um ponto de vista, que as pessoas sejam amáveis e atenciosas, que seja esteticamente surpreendente e variado.

O que mais valoriza num hotel?

As pessoas.

Neste universo, que oferta gastronómica procura?

Pratos simples, magnificamente executados.

Que novos públicos estão a entrar no universo do luxo?

Acho a dicotomia Novo Mundo e Mundo Tradicional muito presente no luxo. Vivemos num paradigma de luxo muito europeu, parece-me óbvio que há movimentos de procura e de oferta vindos da Ásia, Médio Oriente, América Latina e África que vão mudar o panorama atual.

Que papel desempenham as redes sociais?

A estética, a imagem, a cenografia, a palavra são partes integrantes do luxo e requerem precisão. Quanto maior o alcance do meio, maior a relevância da precisão da mensagem e do público-alvo. Sobretudo nas redes sociais.

Que novos luxos imagina para o futuro?

Creio que os novos luxos terão a ver com experiências, serviços e viver mais tempo, com qualidade.

Que objeto possui que considere luxuoso?

Livros, serão sempre livros. É muito difícil escolher – vou pelo improvável: uma edição a preto e branco da Fábula de Veneza, de Corto Maltese. Tem todos os critérios de luxo: estética, sentido cénico, silêncio, emoção, surpresa, palavra e história.

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