Vivian Maier e a beleza das coisas comuns em exposição no Porto
O Centro Português de Fotografia serve de palco à mais abrangente mostra sobre Vivian Maier, uma das grandes fotógrafas do século XX, alguma vez exibida em Portugal.
Vivian Maier morreu, em 2009, da mesma maneira que viveu os seus 83 anos: praticamente sozinha e envolta no mais profundo anonimato. Nesse lugar tantas vezes reservado às mulheres, sobretudo às que somavam a essa condição as de pobre, solteira e emigrante, teria permanecido se o acaso não houvesse intercedido e possibilitado a descoberta de um segredo escondido, até então, à vista de todos - durante as várias décadas em que caminhou despercebida no meio das multidões agitadas de Chicago e Nova Iorque, ora sozinha, ora na companhia das crianças entregues aos seus cuidados, mas sempre com uma câmara pendurada ao pescoço, a ama de profissão fotografava constantemente.
Dessa paixão e entrega resultou uma obra colossal, composta por cerca de 150 mil negativos, impressões, filmes e gravações, que nunca ambicionou expor ou publicar. No ano em que se celebra o centenário do nascimento desta figura cercada por mistérios, é possível admirar uma seleção representativa das imagens por ela captadas no Centro Português de Fotografia. A Must já visitou a exposição, que chegou ao Porto após apresentações em Viena, Berlim, São Paulo e Seul, e falou com Anne Morin, a curadora.
A criação de uma lenda
Os primeiros passos para a sua saída inconsciente da obscuridade ocorreram em 2007, quando os cacifos em que guardava muitos dos seus pertences foram leiloados por falta de pagamento. John Maloof, na altura um agente imobiliário à procura de retratos antigos de Chicago, comprou uma das caixas por pouco mais de 300€. O que descobriu no interior da mesma mudou-lhe a vida. Ao observar a produção de uma artista que parecia não existir, encantou-se pelo universo da fotografia, sobre o qual pouco ou nada sabia até aquele momento.
Em 2009, passados dois anos imerso na recuperação das caixas que tinham sido adquiridas por outros compradores e na reconstrução do arquivo da fotógrafa desconhecida, Maloof deparou-se com o seu obituário no Chicago Tribune. O texto, em que Vivian Dorothea Maier era descrita como uma "segunda mãe para John, Lane e Matthew Gensburg”, foi o ponto de viragem na investigação, pois permitiu contactar algumas das pessoas para as quais a ama trabalhou. Com as novas informações, aliadas à incrível aceitação que o material publicado na internet pelo hoje fotógrafo e produtor receberam, as bases para a construção do mito estavam lançadas.
“O fenómeno Vivian não deixa de surpreender. No mundo da fotografia, é absolutamente inédita a forma como passou, após a sua morte, da invisibilidade à iconicidade e da pluralidade à singularidade”, começa por dizer Anne Morin. “Falamos de uma mulher cuja existência, repleta de contrariedades, foi passada na sombra. Tinha poucos recursos financeiros, nunca casou, viveu ao serviço dos demais e, aos olhos da sociedade, era considerada alguém sem importância. Ainda assim, conseguiu desenvolver uma obra visual gigantesca, que representa cerca de um terço do que um profissional costumava fazer na época. Atualmente, é seguro afirmar que tudo aquilo que poderia ser encarado como obstáculo se revelou insignificante perante a qualidade da sua produção, responsável por lhe garantir um assento ao lado dos grandes na história da fotografia”, acrescenta.
Anne acredita que, como nunca teve a pretensão de ser reconhecida, a autodidata olhava para a fotografia como “uma oportunidade de se libertar dos papéis impostos a ela e a todos os que não se encaixavam no sonho americano”. Era um “ato de resistência” que repetia ao apontar a sua câmara para os pobres, os velhos, os trabalhadores, as viúvas e as crianças perdidos na espuma dos dias. A falta de aspirações maiores, associada ao seu caráter discreto, também lhe deu “a autonomia para fazer as fotografias como queria e penetrar algumas zonas da sociedade às quais, provavelmente, não conseguiria aceder se tivesse outro perfil”.
Uma história em sete atos
A exibição reúne mais de 140 imagens captadas pela artista amadora, nascida em Nova Iorque, mas filha de mãe francesa e pai austríaco, que viveu os primeiros anos entre os dois países. As peças dividem-se por sete secções. “Vi umas quantas fotografias de Vivian, pela primeira vez, em 2011. Não sabia quem era, contudo, percebi logo que estava na presença de algo especial. O que me chamou à atenção foi o facto de a sua visão não se assemelhar à de nenhum outro fotógrafo. Tem características comuns, claro, porém, nota-se uma identidade bastante própria. Penso que resulta da confluência das duas culturas e nacionalidades que a abraçavam. A ter de definir, diria que a sua obra se encontra entre o humanismo francês, focada no quotidiano e no registo da espontaneidade, e a fotografia de rua americana”, explica Anne Morin.
Ao longo de quatro salas, saltam à vista características como a empatia da criadora com as crianças, que tanto posam individualmente, a brincar em grupo, a olhar fixamente para a câmara ou acompanhadas por adultos, sugerindo uma tentativa de estudar o vínculo entre ambos através da lente. Abundam, igualmente, as cenas de rua, que eternizam a arquitetura e a vida urbana de Nova Iorque e Chicago nas décadas de 50 e 60 do século passado. Vivian interessava-se, principalmente, pelas multidões anónimas, marcadas por uma enorme variedade de personagens, roupas, expressões, poses e contradições. São o reflexo da beleza, do humor e da humanidade por si identificadas no mundano, na espontaneidade e nos detalhes da vida que se desenrolava à sua frente e, muitas vezes, não a olhava de volta. A máquina que utilizava, em geral uma Rolleiflex, ajudava-a a passar incógnita. Como permitia fotografar sem aproximar o aparelho do rosto, amenizava o confronto com quem queria enquadrar.
Os autorretratos, uma forma de expressão a que recorria com frequência, compõem outro dos núcleos centrais da antologia. Ao utilizar sombras e superfícies refletoras, de poças de água a espelhos e ecrãs, sobressai o desejo da artista de evitar o confronto visual simples. Com eles, definia a sua identidade e afirmava a sua presença nas cenas que retratava, ainda que sem nunca se expor totalmente.
A “materialidade humana brutal” é, de resto, um dos grandes atrativos da apresentação, “tanto pela obra, como pela história e enigma da sua autora, que todos querem desvendar. Prova que, sem a mínima pretensão e com a máxima humildade, até os indivíduos menos óbvios podem tornar-se referências mundiais”, conclui a curadora.
Disponível até 30 de agosto, a mostra é fruto de uma parceria entre a Terra Esplêndida e o Centro Português de Fotografia. Parte do valor dos bilhetes, que variam entre os 7€ e os 26€, reverte para a Acreditar – Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro.
Onde? Antiga Cadeia e Tribunal da Relação do Porto, Largo Amor de Perdição. Quando? Segunda a domingo das 10h00 às 19h00. Custo? De 7€ a 26€. Crianças até aos 6 anos não pagam entrada.
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