No MUDE só até março: o laboratório de Vhils
O Museu do Design dedica uma exposição ao trabalho gráfico de Alexandre Farto aka Vhils. Porque a viagem é mais importante do que o destino e o caminho faz-se caminhando.
Um outro olhar cosmopolita abre-se na obra gráfica de Alexandre Farto, menos conhecida do grande público. Bárbara Coutinho, diretora do MUDE, diz que este lado mais material faz todo o sentido apresentar no seu museu, onde há experimentação “e um dilatar de fronteiras e processos, um ultrapassar dos próprios limites, o que é muito interessante num debate sobre a própria a criação e o design”. Assim como os seus cruzamentos com a arte contemporânea, o design gráfico e a comunicação visual. São novos olhares sobre o mundo e a cidade, e como ela se adapta à excessiva circulação de pessoas e de estímulos, às mudanças de paradigma e à perda de identidade.
A exposição Alexandre Farto aka Vhils. Selected Editions. 2008 – 2024 reúne cerca de 73 obras, onde admiramos as aventuras de laboratório do artista e da sua equipa de designers, de onde sobressai Pedro Ferreira, designer industrial e diretor artístico do Studio Vhils, a outra metade do Pedrita Studio fundado em 2005, com Rita João. “Todas as edições passam por este processo de pesquisa, investigação, e encontramos uma forma nova de fazer“, diz-nos. “O Alexandre cria a peça, fazemos um protótipo, falamos com os produtores, produzimos e selamos a embalagem; depois desenhamos a comunicação e a estratégia de lançamento”. Pelo meio inventam mirabolâncias várias, é delas que fala esta exposição.
A sua equipa fez uma pesquisa rigorosa de todas as edições até à data, “algumas estavam esquecidas”, para uma publicação que estavam a planear, ficaram “muito entusiasmados com o trabalho que tínhamos feito”, recorda o diretor artístico, e resolveram fazer uma selecção para expor “e representar todas as técnicas e o maior número de editores”, das edições mais correntes, às provas de autor, das limitadas e numeradas, em caracteres romanos, às open editions. “Esta exposição é das mais variadas”. Começa na primeira edição e termina com o seu último trabalho, mas não é organizada cronologicamente. As peças estão agrupadas por secções “que faziam sentido”. Consta que esta é a primeira vez que o próprio Vhils observou o conjunto da sua obra gráfica, executada desde 2008, e é a primeira vez que vemos edições, e não originais, que sempre vimos nas suas exposições institucionais.
Tudo começa numa vitrine onde estão vários testes, experiências, materiais, tecnologias, fornecedores, “coisas que correram mal e algumas que correram bem, é uma ilustração deste trabalho em construção”, explica Pedro Ferreira. Depois, é perdemo-nos na área dedicada à serigrafia, onde Vhils utilizou uma técnica muito própria e desenvolveu-a em versões sempre diferentes, e admirar ao detalhe o trabalho de composição, do fotolito à obra propriamente dita, da escolha do papel às diferentes técnicas. Vemos vários exemplos em papel serigrafado a preto, onde depois é aplicada uma camada, com rolo de tinta de caneta de aparo, preta ou azul, que depois sofre um efeito de corrosão com lixívia. Noutro caso, vemos serigrafia branco sobre branco onde, com a mesma tinta de caneta de aparo, Vhils faz pinceladas, e esta escorrega no papel sensibilizado e produz uma espécie de revelação, onde a imagem surge como numa fotografia.
O diretor criativo aponta-nos uma risografia, uma tecnologia japonesa onde as cores são vibrantes e as texturas têm uma aparência artesanal, desta vez preto sobre preto onde a lixívia “corrói a cor de papel, que é mais orgânico e a imagem é revelada”, explica. Ou, ainda “mais especial” e só aplicada em peças únicas, o processo um pouco invertido: o papel é pintado com tinta de caneta de aparo e depois é serigrafado com lixívia, que vai corroer a tinta que está por baixo. É uma lógica de adicionar ou subtrair materiais”, para servir “a narrativa da obra, o que é visível e o que não é. “Nesse processo, as edições tornam-se todas muito muito diferentes, e é isso que o Alexandre gosta, uma peça única.”
Por outro lado, são-nos mostradas várias declinações estéticas de uma peça original, que criam diferentes séries, algumas resultaram mesmo de erros felizes. De experiências ambiciosas em metal serigrafado ou com laser sobre basalto derretido e petrificado, trabalhado com temperatura. Vemos uma edição da sua peça Brexit onde retirou uma estrela da nota de mil euros para ilustrar a saída do Reino Unido da Comunidade Europeia; a edição especial que criou para o Parque dos Príncipes, em Paris, a partir da reciclagem dos bancos de jardim originais, uma das várias intervenções que o artista fez na capital francesa. Vemos ainda cartazes retirados das ruas, e sobrepostos pelos anos, uma ponte com o seu trabalho mais conhecido e esculpido nas grandes superfícies exteriores. São “sanduíches de cartazes”, rasgados, colados, virados ao contrário, levados para o estúdio, pintados, gravados, serigrafados e tratados com resina ou trabalhados a laser. “Quando os escavamos, vamos descobrindo os eventos que aconteceram na cidade, o percurso de memória”.
Numa vitrine, estão expostos os livros com intervenção do artista, que se encontram em livrarias, e capas de edições especiais ou caixas exclusivas, como o catálogo da sua primeira grande exposição em Lisboa, Prisma, em 2014 no Maat/Museu da Eletricidade, onde estão representadas 9 cidades (cada livro traz 9 frames diferentes, feitos a partir de um vídeo de cada uma). E vemos outros vídeos que ilustram edições ou processos específicos que, em vídeo, “ganham outra dimensão.” Lindo o filmado na Madeira, onde o rosto de Sophia de Mello Breyner foi esculpido num pontão e é envolvido pelo mar.
O fim da exposição aproxima-se com uma visão de futuro numa edição que deriva de um NFT (non-fungible token, um bem virtual não fungível, como um certificado de direito exclusivo sobre essa coisa única): “Alimentámos o computador, o cérebro digital, com muita informação e outras peças do Alexandre, fotografias de rostos e de cidades, tipografia, rasgões, imagens a preto e branco, e o robô, com essa base de dados, criou 10 mil peças diferentes e disponíveis para se transformarem em NFT, para quem quisesse comprá-las”, explica o diretor criativo. Venderam 3 mil e estas podem ser guardadas, vendidas, ou "'queimadas' numa edição que depois é impressa e enviada para casa.” O fim da exposição aproxima-se também com o passado, numa última secção que assinala os trabalhos escavados em paredes, a imagem de marca de Vhils. Da conhecida intervenção no edifício de Alcântara, “apanhámos os detritos da sua demolição e voltamos a cravar essa imagem do edifício original”, conta, à peça mais efémera do artista, o vídeo de 20 segundos da explosão e implosão de um edifício, e o que delas sobra.
A fechar, as colaborações com designers e artistas de diferentes áreas, nomeadamente para as edições Clay, a área de cerâmica do Vhils Studio, onde estão obras em azulejo, um símbolo de Portugal, como Cargaleiro, Bordalo II, Joana Vasconcelos e Joana Astolfi. Destaque para os painéis de colaboração com a indústria, como a Fábrica Viúva Lamego. “Estes azulejos são fresados um a um com pasta antes desta estar cozida e com a taxa de humidade certa, foi um processo longo”, explica o diretor criativo ou a Viarco, com quem desenvolveram uma pasta com a viscosidade certa para ser moldada e serigrafada, que hoje a marca vende, “os efeitos secundários de que gostamos”. Também vemos uma fotografia de Alfredo Cunha que Vhils intervencionou para os 50 anos do 25 de abril, colaborações com Martha Cooper, fotógrafa do grafitti, Shepard Fairey, mais conhecido por Obey, numa alusão a um prédio na Graça, ou a dupla espanhola PichiAvo, com quem Vhils trabalhou a fachada da fábrica de cerveja da Super Bock. Já tínhamos visto a sua parceria com a fábrica Bordallo Pinheiro numa peça corroída com jacto de areia que revela a faiança original, num processo que levou quatro anos a investigar. É um rosto, claro, que quer representar todos os rostos daquela fábrica, numa alusão à ideia de comunidade que a arte celebra, a arte urbana pratica e, quem sabe, será a nossa salvação.
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