Artes / Prazeres

Fotografias de um Portugal desaparecido

A Fundação Calouste Gulbenkian recebe a obra de Todd Webb, fotógrafo norte-americano que registou Portugal entre os anos 70 e 80. O resultado é um retrato raro de um país em transformação e de uma Lisboa que o tempo entretanto apagou.

Crianças brincam na água numa rua, em Lisboa, anos 70/80
Crianças brincam na água numa rua, em Lisboa, anos 70/80 Foto: Todd Webb / Fundação Calouste Gulbenkian
29 de abril de 2026 | Madalena Haderer

O convite para visitar a nova exposição de fotografia de Todd Webb, na Fundação Calouste Gulbenkian, veio acompanhado de um pequeno teaser informativo: “Todd fotografou um Portugal que já não existe e as suas imagens são quase sempre a preto e branco”. O que é verdade, e lá chegaremos. No entanto, as fotografias que mais chamaram a atenção desta jornalista, como boa provinciana que é – qualidade (não necessariamente defeito, ainda que possa sê-lo) presente em quase todos os portugueses, por muito que tentem negá-lo – foram as de Nova Iorque nos anos do pós-Segunda Guerra Mundial. Em particular, uma em que se vê um grupo de crianças a tomar banho, no meio da rua, em redor de um repuxo ligado a uma boca de incêndio, para combater o calor abrasador. Uma imagem que faz lembrar um romance de Philip Roth, Némesis, que conta a história da epidemia de poliomielite que devastou a comunidade de Newark em 1944. Prova visual de como um fugaz momento de alegria pode resultar em desgraça – uma das formas de transmissão da poliomielite é através de água contaminada, coisa que então não se sabia.

O norte-americano Todd Webb nasceu em 1905 e morreu no ano 2000. Qualquer pessoa que aprecie História do século XX dirá que esta foi uma excelente altura para se estar vivo – ainda que talvez apenas como observador. E, no entanto, não era o interesse histórico que movia a objetiva de Webb, mas a humanidade, as pessoas. Jorge Calado, curador da exposição, descreve-o como “um fotógrafo humanista, implicado na humanidade de tudo o que observava” e que, “como todos os grandes fotógrafos, fotografava-se a si próprio naquilo que via”.

Coimbra, Portugal, 1980
Coimbra, Portugal, 1980 Foto: Coleção Biblioteca da Arte © Todd Webb Archive

Foi em 1940, num workshop dirigido por Ansel Adams, outro fotógrafo famoso, que Webb se apaixonou pela fotografia. Após servir na Segunda Guerra Mundial, estabeleceu-se em Nova Iorque  e foi aqui que revelou o seu talento. Percorreu Manhattan de cima a baixo, certo de que “a rua era o seu gabinete de trabalho”. Nesta exposição encontramos fotografias desse período. Para além das crianças em volta da boca de incêndio, vemos também um soldado a polir os seus sapatos junto a duas jovens afro-americanas, que parecem aguardar o momento certo para atravessar a rua. Por oposição a estes, que estão absortos nos seus assuntos, um vendedor de amendoins torrados olha diretamente para a câmara, para nós, que o observamos 80 anos mais à frente. Noutra fotografia, há um grupo de cinco crianças afro-americanas, junto a um restaurante, que parecem esperar alguém ou alguma coisa. São todos rapazes, nenhum terá mais de seis ou sete. O mais velho olha para a câmara e esboça um sorriso, enquanto faz continência ao fotógrafo, num jogo de “estás a ver-me, mas eu também te estou a ver”.

A mostra inclui um conjunto de 61 fotografias resultantes das três viagens que o artista fez a Portugal, entre 1972 e 1982, e que foi recentemente doado à Fundação Gulbenkian pelo Todd Webb Archive a fim de integrar o acervo da Biblioteca de Arte da Fundação. E inclui também dois pequenos núcleos constituídos por 16 fotografias, das relevantes séries de trabalhos que Todd Webb realizou em Nova Iorque e em África, e que dão testemunho da sua versatilidade fotográfica. As fotografias de África, as únicas nesta exposição que são a cores, resultaram de uma encomenda das Nações Unidas para fotografar os novos países africanos a sul do Saara, após o processo de descolonização no pós-Guerra.

Estátuas religiosas /  Religious stones, Braga, Portugal
Estátuas religiosas / Religious stones, Braga, Portugal Foto: Coleção Biblioteca da Arte © Todd Webb Archive

Em Portugal, entre 1972 e 1982, Alfama foi, frequentemente, o “gabinete de trabalho” de Webb. E aqui, de facto, vemos uma Alfama que já não existe. Retratada, por exemplo, por uma criança com um burro, a segurar duas garrafas de vinho e uma nota. Homens crescidos a jogar à bola enquanto outra criança observa. Homens a jogar às cartas à porta de uma tasca. Cartazes de propaganda eleitoral, a apelar ao voto na coligação Aliança Povo Unido (“Vamos Votar APU”). E o elétrico para o Poço do Bispo – é possível que este ainda exista e que tenha apenas sido transferido para a linha do 28. Há becos, escadas apertadas, pátios, roupa a secar ao vento, mulheres com ar atarefado e homens a passar tempo na rua. O que não há é alojamentos locais, turistas com trolleys ou tuk-tuks, o que não se pode dizer que seja uma coisa má. Por outro lado, também não parece haver muita alegria. Portugal, afinal, era ainda um país traumatizado pelos anos de ditadura.

Todd e a sua mulher, Lucille Webb, fizeram três visitas a Portugal. A primeira foi em Fevereiro de 1972, quando entraram pelo Algarve e depois rumaram a Lisboa. Diz-nos a informação que atravessa o espaço expositivo que os jovens Webb “ficaram logo agradados com as maneiras e a postura dos portugueses, que acharam ‘bem-educados, amáveis e calorosos’” – é compreensível, nessa altura, estavam a viver em França. Voltaram em Setembro de 1980 para conhecerem o Norte do país, e novamente em 1982. Nesta amostra encontramos, por isso, para além de Lisboa, fotografias do Algarve, mas também da Nazaré, de São Martinho do Porto, de Coimbra e de Braga

Santuário de Nossa Senhora da Nazaré / Our Lady of Nazareth Sanctuary], Nazaré, Portugal, 1980
Santuário de Nossa Senhora da Nazaré / Our Lady of Nazareth Sanctuary], Nazaré, Portugal, 1980 Foto: Coleção Biblioteca da Arte © Todd Webb Archive

Também na história pessoal de Todd Webb há um fugaz momento de alegria que resultou em (quase) desgraça. “Em 1976,” de acordo com o texto que acompanha a exposição, “foi vítima de um esbulho por parte de um pretenso negociante de fotografias que lhe adquiriu a totalidade do trabalho de 40 anos (provas e negativos) em troca de uma renda vitalícia que permitiria uma vida desafogada ao casal Webb. Só a recebeu no primeiro ano. Sem fotos, perdeu a oportunidade de lucrar com a explosão do mercado fotográfico dos anos 1980 (galerias e leilões). Envergonhado e avesso a escândalos, Webb nunca processou o vigarista, mas continuou a fotografar para construir um novo acervo fotográfico”.

Se o leitor susteve a respiração imaginando a possibilidade de o “pretenso negociante” ter nacionalidade lusa, a informação da exposição não o diz e talvez seja melhor não pesquisarmos. Até porque a história acaba bem. De acordo com o curador, que escreveu o texto que contextualiza a mostra, em 1989, Todd e Lucille Webb visitaram uma galeria recém-aberta por Betsy Evans Hunt de quem ficaram muito amigos, ao ponto de passarem a vê-la como a filha que nunca tiveram. Betsy passou a representar Todd e exibiu-o em várias cidades. Como directora executiva do Todd Webb Archive dedicou a sua vida a promover e a publicar a obra de Webb após a sua morte. 

Avenida de Roma, Lisboa, Portugal, 1980
Avenida de Roma, Lisboa, Portugal, 1980 Foto: Coleção Biblioteca da Arte © Todd Webb Archive

Foi também Betsy quem decidiu que as fotografias que Todd tirou em Portugal deviam voltar às origens, algo que ela acreditava ser a vontade do fotógrafo. E foi assim que as imagens chegaram à Fundação Calouste Gulbenkian, onde podemos vê-las expostas até ao dia 27 de Julho.

Onde? Fundação Calouste Gulbenkian, Galeria do Piso Inferior. Horário? Todos os dias das 10h às 18h (encerra à terça). Aos sábados está aberta das 10h às 21h.

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