Prazeres / Artes

Uma professora, uma sex tape e muitos pais revoltados

O novo filme do realizador Radu Jude une temas como a pornografia, o ensino, a hipocrisia ou a liberdade sexual. Numa forma que desafia as narrativas clássicas do Cinema, 'Bad Luck Banging or Loony Porn', que chega agora a Portugal, quer pôr-nos a pensar sobre esta sociedade em que vivemos.

Trailer de 'Bad Luck Banging or Loony Porn', de Radu Jude.
20 de agosto de 2021 | Joana Moreira
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Radu Jude é um dos mais entusiasmantes nomes do Cinema romeno, mas ainda não teve oportunidade de pisar solo português. Os convites já surgiram, mas incompatibilidades na agenda ditaram que o realizador de 44 anos ainda não conhecesse Portugal, apesar da "grande admiração pela cultura portuguesa, por Pessoa e pelo Cinema português". Em entrevista à MUST, via Zoom, Jude assume-se "um grande fã de Manoel de Oliveira, Miguel Gomes, Pedro Costa, Susana de Sousa Dias", e por isso aguarda que as estrelas (e as agendas) se alinhem para que a viagem aconteça.

Foto: D.R

A desculpa para conversar com o cineasta é a estreia do seu mais recente filme, Bad Luck Banging or Loony Porn, que trata a história de uma professora que vê um vídeo íntimo caseiro, mais especificamente uma sex tape, ser divulgado na internet, criando a revolta dos encarregados de educação das crianças que ensina. A obra é uma sátira ao tempo presente, contemplando já a pandemia e com rasgo na forma que não deixa ninguém indiferente. Arrecadou em Berlim um Urso de Ouro, e prepara-se agora para chegar às salas de cinema nacionais em setembro, não sem antes se estrear no IndieLisboa, com duas sessões, nos dias 23 e 26 de agosto.  

Qual foi a inspiração para este filme, que realizou e escreveu?

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Houve vários casos [semelhantes ao do filme] na Roménia e tive discussões com amigos que são pais. Também eu sou pai, tenho dois filhos. Acabamos por ter uma discussão, alguns apoiavam, outros eram contra a professora… E esse foi o ponto de partida. Mas o filme é a forma, neste caso, e evoluiu gradualmente de um formato mais clássica para este. Enfrentei uma série de problemas a tentar fazer o filme de modo clássico. Para organizar bem um filme do ponto de vista dramatúrgico temos de perder muitas coisas para a história funcionar, e eu não queria perder nada, queria manter tudo. Percebi a dada altura que não se trata da história, trata-se do que acontece em torno da história da professora. É mais sobre a sociedade, sobre a História, sobre a nossa relação com os outros, com a sociedade, com os espaços, com os objetos. Para incluir estas coisas todas, esta foi a forma que encontrei, em três partes, e com várias coisas juntas.

O que o motivou a fazer três finais alternativos?

Queria que o filme se parecesse um bocadinho como um sketch, um grande sketch. Costumo dizer que era um sketch para um filme popular. Tinha esta ideia de não sentir [o filme] como algo completamente fingido, queria dar a ideia de não se estar a ver uma grande história construída como deve de ser, mas mais um conjunto de materiais para um possível filme. Depois tomei a decisão de fazer três finais, como se [o filme] não tivesse sido editado, de certa forma não está acabado, então os espetadores podem escolher um dos lados e um dos finais (risos).

Foto: D.R
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Qual escolhe como preferido?

É uma pergunta complicada, poderia dizer o terceiro, mas não é verdade, porque todos fazem parte do filme, se eu quisesse ter só um final tê-lo-ia feito.

Este é um dos primeiros filmes feitos já durante a pandemia. Como é que foi trabalhar com máscaras, e a decisão de manter os atores com máscaras nas cenas, sem deixar que isso controlasse o tema do filme?

Sou uma pessoa que se adapta com facilidade. Não sou um grande artista com ideias fixas, por isso, no ano passado depois do confinamento, na primavera, tive de tomar uma decisão: fazer o filme ou adiá-lo. Adiá-lo com a crença de que o Covid-19 desapareceria depois do verão. E eu sabia que não ia ser assim, sou mais pessimista, por isso disse à minha produtora, Ada Solomon, ‘vamos fazer o filme o mais rapidamente possível, não vamos esperar, vamos fazê-lo daqui a dois meses, prepará-lo rápido e filmá-lo rápido com o menor grupo possível de pessoas’. E então o problema ético apareceu. Vamos fazer o filme, mas temos uma responsabilidade com a equipa e com os atores. Até porque havia pessoas vulneráveis que estavam preocupadas... Por isso pensei, sabes que mais, vou oferecer a máxima proteção possível. Por isso movi a cena final que ia acontecer numa sala de aula para o exterior, movemos uma série de outras coisas para o exterior, toda a gente usava máscaras no set, tanto a equipa como os atores. No final acabou por ser não só uma forma de proteger os atores, mas também um símbolo no filme, esta máscara que cobre a boca, quando é um filme sobre estar exposto. É uma metáfora.

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Essa dicotomia em relação à boca, exposta na sex tape, mas depois coberta pela máscara durante o resto do filme. Há quase uma relação entre liberdade dentro de casa versus censura no mundo lá fora?

Sim, de certa forma é isso, é uma interpretação. Infelizmente não sei muito sobre psicanálise, mas Freud fala numa conexão entre os lábios e o sexo feminino. Todas estas conexões são quebradas pela máscara.

Foto: D.R

A cena inicial coloca o espetador em contacto com a sex tape, que depois será central para o desenrolar da história. Porque é que escolheu colocar o vídeo logo no início, foi para que a audiência o pudesse analisar sem contexto?

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Foi a decisão mais complicada que tive de tomar. Pôr o vídeo no início ou não. Pus e tirei uma série de vezes (risos). No final mantive-o não pelo início ou pela cena em si, mas para que no final os espetadores pudessem estar na posição dos pais [dos alunos]. Eles sabem do vídeo, eles viram-no, mesmo que sem contexto, por isso vão ser postos na mesma posição dos pais. Vão ter na cabeça um julgamento sobre isso. Este julgamento é feito de acordo com o que viram. Não há hipótese de o espectador dizer: ‘bem, se eu visse o vídeo eu teria uma opinião’. Não, tu viste-o por isso deves ter alguma opinião sobre o assunto, eu imagino. Para mim essa foi a razão para o pôr no filme.

Numa entrevista recente disse que os seus filmes são todos comédias honestas. "Podem não ter humor, mas são comédias", disse. Há sempre um lado cómico em tudo?

Acho que foi a Hannah Arendt que escreveu sobre o julgamento de Eichmann a dada altura, e foi criticada por dizer, e ela disse isto numa entrevista, que se riu durante todo o julgamento de Eichmann porque o achou extremamente ridículo e engraçado. Claro, as pessoas ficaram chocadas. Como é que te podes rir num julgamento sobre o Holocausto? E ela disse que, no meio da tragédia, quando vês a estupidez há um lado engraçado nisso. E se a Hannah Arendt se riu no julgamento de Eichmann então acho que nos podemos perdoar por rir de alguns assuntos. Mas a sua pergunta tem já a resposta. É verdade que há um lado cómico em tudo, ou, na maioria das coisas, provavelmente não tudo, as tragédias talvez não tenham nada de engraçado. Olho para o Afeganistão e para estes vídeos e sinto-me doente, não há nada de engraçado ali. Mas acho que noutros aspetos da vida em tudo há um lado cómico, creio que foi Günter que disse que há um lado cómico em tudo, incluindo um lado cómico do sexo. Se olharmos para o sexo de longe e tudo à sua volta, sexualidade, etc, há sempre coisas ridículas e engraçadas (risos).

Foto: D.R
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Sabendo os elevados números de consumo de pornografia, e ao mesmo tempo o tabu em torno do assunto, assustou-o ou, por outro lado, entusiasmou-o tocar no assunto?

Na Roménia o consumo é muito alto, creio que somos o país número um (risos). Para mim não foi o aspeto principal do filme, mas foi uma ferramenta para falar de outras coisas que estão à sua volta. Mas claro, o pornográfico, ou aquilo que chamos de pornográfico, faz parte da interrogação do filme. Quando falamos de liberdade é sempre uma armadilha, porque claro que tudo tem limitações, é impossível sem limitações, por isso quais são os limites de exposição sexual e de liberdade sexual? Na minha opinião o que quer que dois, três, quantos sejam, adultos de forma consensual queiram fazer deve ser livre, deve ser aceite, não tenho problema com nada. Já me acusaram dizendo ‘este realizador sabe que nestes sites há casos de violação e de exploração’. Claro que eu sei disso, mas o filme é sobre adultos [a fazer sexo] de forma consensual. Não é sobre violação. Nunca apoiaria isso.

A última cena, a reunião de pais, parece uma metáfora para a forma como a sociedade olha para a sexualidade de uma mulher. Hoje é impossível não pensar como seria se a história fosse com um professor...

É uma boa questão. Eu nunca faria o filme sobre o caso de um homem. Não funcionaria da mesma forma. É verdade. No caso das mulheres há diferentes expectativas e clichés. Em traições, se um homem trair a mulher dizem ‘é o que os homens fazem’, se for uma mulher a trair o marido ou tiver sexo com alguém é chamada de prostituta. O que é completamente incorreto, não é normal. Por isso nunca imaginaria fazer um filme sobre um homem, tinha de ser sobre uma mulher. Não só pelo facto de a sociedade ter diferentes expectativas sobre a sexualidade de uma mulher, mas também porque, durante a pesquisa, fui a sites de pornografia, e, se procurarmos por professora, encontramos muitos vídeos, com guião ou não, e material envolvendo professoras a fazer sexo com alunos, ou pais, ou na sala de aula. Ou seja, também há toda esta fantasia de fazer sexo com uma professora. É esta posição de autoridade que uma mulher tem que ao mesmo tempo é mantida escondida, mas que é desejada de certa forma. Apesar de não ter formação em psicanálise, acho que há algo mais complexo aqui, não se trata apenas de a sociedade tratar a sexualidade da mulher, mas desta posição da professora também. Nunca pensei em fazer o filme com outra profissão. A relação com as crianças, com a educação, todo este melting pot torna o filme, espero eu, mais interessante.

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