A Casa das Histórias Paula Rego (CHPR) é um espaço em permanente mutação. Não só porque tem sempre muitas obras emprestadas, mas, mais importante que isso, porque organiza, frequentemente, exposições temporárias que apresentam ao público novas e desconhecidas facetas da artista, obras inéditas e perspetivas refrescantes sobre o seu processo criativo e universo temático. É esse o caso das duas novas mostras que o museu apresenta aos visitantes, e que podem ser vistas até dia 15 de março. Uma, intitulada A Colecção da CHPR em diálogo com a Colecção da Artista, propõe uma leitura renovada da obra de Paula Rego a partir do encontro entre dois núcleos fundamentais que se complementam; a outra, Costumes and Pictures: O Vestuário na Obra de Paula Rego, apresenta o trabalho da artista através da lente da moda e do vestuário. A inauguração teve lugar pouco antes do Natal e contou com a presença do filho da artista, o realizador Nick Willing, que, numa conversa que oscilou entre o português e o inglês, acompanhou a jornalista da MUST numa espécie de visita guiada. Porquê uma espécie? Porque foi guiada não pelo percurso sugerido ou pela cronologia das peças, mas pelas memórias que cada obra ia suscitando no filho da pintora.
Comecemos pela moda. Na exposição sobre a importância do vestuário na obra da artista, peças do guarda-roupa do seu estúdio são exibidas junto às obras que lhe correspondem. O folheto que acompanha a exposição explica a razão pela qual a moda era fonte de inspiração para Paula Rego: “O interesse da artista pelo modo de vestir surge muito cedo e por influência da sua mãe, Maria de São José Figueiroa Rego, uma mulher elegante e interessada na moda. As memórias de momentos de proximidade entre mãe e filha incluem idas às compras: ‘Íamos a Lisboa às compras, de comboio, e eu adorava. A minha mãe punha o chapéu, arranjávamo-nos muito bem, com luvas e sapatos, e lá íamos para o Chiado. Eu tomava sempre um café glacé com bolas de Berlim’”. Mais para a frente, é possível ler ainda o seguinte: “Para acompanharem as últimas tendências internacionais, a mãe tirava os modelos da revista francesa Elle e a Menina Francisca, a costureira, vinha a casa para os executar com todo o rigor.”
É fácil comprovar que a moda era um elo de ligação entre mãe e filha. Basta, para isso, olhar para uma das vitrines onde estão expostas as cartas que ambas trocavam, e que Paula Rego enchia de desenhos de modelos que tinha visto em montras londrinas, ou de alterações que ponderava fazer em roupas que já possuía – alterações essas que ela própria fazia, uma vez que aprendeu a costurar e a bordar numa escola feminina que frequentou em Kent. Uma correspondência animada, dedicada e amorosa entre duas mulheres que gostavam uma da outra e que tinham um interesse comum.
Ficamos também a saber em que momento a moda começou a desempenhar uma função fulcral na obra da pintora: “A partir dos anos 1990 – momento que coincide com a sua estadia na National Gallery como artista residente, deixando-se guiar pelos mestres da pintura antiga –, o vestuário passa a ser um elemento determinante para a construção das suas personagens, para além de se constituir como elemento cenográfico central na sua obra.”
Já na exposição que coloca a coleção da CHPR em diálogo com a coleção privada da artista, o visitante tem oportunidade de observar temas, personagens e técnicas que se entrecruzam ao longo de décadas, e acompanhar o percurso de Paula Rego desde as primeiras experiências em Londres, na Slade School of Fine Arts, até à consolidação da linguagem pessoal, marcada pelo cruzamento entre imaginação, literatura e realidade social. É aqui que encontramos obras inéditas, como um autorretrato não datado e o retrato da neta Darcey (filha de Nick), bem como cadernos de desenhos dos anos 1970, apresentados pela primeira vez, que evidenciam o processo experimental da artista.
Finda a parte institucional da inauguração, com os inevitáveis discursos e agradecimentos, aproximo-me de Nick Willing para lhe perguntar se há uma obra de que goste particularmente ou que lhe diga algo mais. O realizador, que é também diretor da fundação que administra o legado artístico, comercial e patrimonial de Paula Rego, respondeu-me com entusiasmo: “Sim, claro! Anda cá…” E guiou-me apressadamente e aos ziguezagues evitando grupos de pessoas que o queriam cumprimentar, até à sala onde está a exposição relacionada com o vestuário. Parámos em frente a Amor, um quadro pintado em 1995. A modelo é uma mulher jovem vestida com um fato saia-casaco de fundo preto com bordados nas cores vermelho, azul, amarelo e cinzento. Está descalça e um pouco desarranjada, como se se tivesse atirado para cima da cama. Em frente à pintura podemos ver aquele exato saia-casaco que serviu de inspiração à obra. Nick aponta e diz: “Este fato é a razão pela qual eu fiz esta exposição. A mãe comprou-o em Lisboa, em 1959, para usar no dia em que se casou com o meu pai.” Mais de 35 anos depois a pintora quis recuperar algo desse dia neste quadro. “Em 1995, ela quis fazer uma obra sobre o amor que teve pelo meu pai, quis agarrar o sentimento que tinha por ele em 1959, aquele amor louco, e pediu à minha irmã Vicky para ser o modelo”, acrescenta Nick, concluindo o relato com este episódio delicioso: “Fiz uma entrevista à minha mãe, que não usei no filme [documentário que realizou sobre a vida e obra da artista], mas que tenho em casa, em que lhe perguntei: ‘Escolheste a Vicky [como modelo] porque quando casaste com o pai estavas grávida dela?’ E a minha mãe respondeu: ‘Não, que ideia estúpida! Escolhi-a porque ela cabia no vestido.’”
Vamos continuando a conversar à medida que deambulamos rumo à outra exposição, que põe a coleção permanente em diálogo com peças inéditas e do arquivo pessoal da artista. E se à exposição do vestuário fomos dar ao vestido de casamento como cães pisteiros, aqui são as sensações que cada pintura vai suscitando em Nick Willing que nos guiam. Às vezes atravessamos salas inteiras quase sem parar (são sete salas ao todo, por oposição à exposição da moda que enche apenas uma), e noutras paramos junto a quase todas as obras. Quando chegamos à série de quadros sobre a depressão, que Paula Rego pintou quando estava ela própria a sofrer da doença, Nick recordou que a mãe tinha tido vergonha daqueles quadros e escondeu-os durante muito tempo, porque não queria que as pessoas soubessem que ela tinha estado deprimida, mas que insistiu com a mãe para que ela os mostrasse porque era importante que as pessoas sentissem que podiam falar sobre a doença. “Em Portugal, nos anos 80”, reflete o realizador, “tivemos um grande problema com drogas muito relacionado com problemas de saúde mental que não eram diagnosticados nem tratados nem sequer abordados, principalmente entre os homens que, muitas vezes, se suicidavam em consequência disso”. Pouco depois, paramos junto a um retrato que Paula Rego pintou do seu pai, avô de Nick, em que este aparece caracterizado como se fosse um sapo, que foi uma forma, esclarece Nick, de transmitir que também o pai da artista estava, naquele momento, a sofrer de depressão.
A conversa sobre a saúde mental depressa leva Nick Willing ao tema do aborto e de quão importante era para a mãe que as mulheres pudessem aceder-lhe livremente. “Porque as mulheres vão sempre fazê-lo. Simplesmente, se for ilegal fazem-no em condições perigosas para a sua saúde.” E isto levou-o de volta a um tempo longínquo, na década de 70, para um episódio específico que o realizador narra da seguinte forma: “Antes do 25 de Abril, as mulheres iam ter ao portão da nossa quinta, na Ericeira, para pedir à Paula Rego dinheiro para fazerem um aborto. Vinham porque sabiam o que ela pensava sobre o assunto e porque se vivia num casarão daquele tamanho, devia ser rica. Só que nós não tínhamos dinheiro nenhum, mas ela dava-lhes sempre o que tivesse. E nós depois passávamos mais uns tempos a comer sopa de cenoura. E dizíamos: ‘Ó mãe, outra vez sopa de cenoura, não há frango?’ E não, não havia frango para ninguém”. Um relato enternecedor, mas que dá vontade de rir tanto ao realizador quanto à sua interlocutora pelo potencial de humor negro.
Mais para a frente havemos de rir-nos novamente perante um caderno de desenhos coloridos, outra das peças desconhecidas do público, que conta uma história infantil e que Nick relata ter sido feito por ele e pela mãe. O caso remonta a uma altura em que ele foi internado de urgência, com uma apendicite grave, e que a mãe desconsiderou durante um tempo imaginando que as queixas não eram mais do que uma birra de criança. Valeu-lhe o facto de a avó ter aparecido e ter identificado a gravidade da situação. Arrependida por não ter ligado às dores do filho, Paula Rego já não saiu de perto dele no hospital, e entreteve-o inventando uma história com desenhos, que tinha Nick e o cirurgião como protagonistas, para a qual um e outro, mãe e filho, iam contribuindo, uma página a um, e uma página a outro, até o pequeno Nick ter recebido alta.
Sobre a possível dificuldade de arranjar temas novos, todos os anos, para fazer novas exposições, o filho da artista garante que não tem dificuldade nenhuma porque material é coisa que não falta e que ainda hoje, quando faz alguma arrumação no estúdio da mãe, encontra quadros novos, esboços, coisas nunca vistas. “A mãe tem um arquivo gigantesco porque guardava tudo”, diz, enquanto puxa do telemóvel para provar, com suporte de imagens, o que está a dizer, mostrando fotografias do atelier da artista, um espaço enorme cheio de quadros, caixas, modelos, adereços, roupas, cadernos de esboços, tudo o que se possa imaginar.
Não obstante o facto de ser filho de Paula Rego e um realizador famoso – fez um magnífico documentário sobre a vida e obra da mãe, intitulado Paula Rego, Stories & Secrets, mas dirigiu muitos outros filmes dos quais Alice in Wonderland será talvez o mais conhecido – Nick Willing é uma pessoa extremamente afável e divertida, sem uma grama de soberba ou snobismo, e com o típico sentido de humor britânico que mistura secura e sagacidade com uma pitada de nonsense. Exemplo: a determinada altura, quando estávamos diante do quadro O Pescador, onde se vê um enorme polvo, perguntou-me, com toda a seriedade, se eu, por acaso, tinha um polvo em casa. “Vivo ou no congelador?”, perguntei. “Nem uma coisa nem outra”, retorquiu com tom de espanto e ofensa, como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo, “De peluche!”, esclareceu. Respondi-lhe que, de peluche, só tenho um coelho esbugalhado, que comprei depois de um almoço excessivamente regado e a quem decidi chamar Winston porque o olhar me fez lembrar o do famoso primeiro-ministro britânico.
Rimos durante um bom bocado até que, aos poucos, as pessoas que queriam cumprimentá-lo e congratulá-lo, intuindo uma pausa útil para interrupções, se foram aproximando. A conversa não pode continuar, mas é possível que venha a ser retomada, num futuro próximo, talvez com uma exposição temporária sobre o tema da mulher e o envelhecimento na obra de Paula Rego, uma das muitas ideias que pululam na mente de Nick.