Num tempo em que as fronteiras entre disciplinas parecem diluir-se, há colaborações que se destacam por revelarem mais do que uma simples aproximação estética: mostram afinidades de espírito. É o caso do encontro entre a marca francesa Champagne EPC e o duo português Los Pepes Studio, cuja obra gráfica, que assenta na cor e no dinamismo visual, se transformou na pele de uma edição limitada de mil garrafas numeradas de um Blanc de Blancs Grand Cru Millésime 2015. É uma parceria que não pretende apenas vestir um vinho – procura interpretá-lo, valorizando a experiência sensorial através de uma leitura visual profundamente contemporânea.
Fundada em 2019 por Edouard Roy, Jérôme Queige e Camille Jullien Gilardi, a Champagne EPC nasceu com um propósito pouco convencional dentro do universo tradicionalista da região: propor uma visão mais livre, moderna e responsável do champanhe. Esta ambição de renovação encontra um eco natural na linguagem visual dos artistas Meggie Prata e Francisco Leal, que a partir de Portugal têm construído um imaginário vibrante através de murais monumentais, espalhados por fachadas e espaços públicos que se transformam, quase por magia, em telas a céu aberto
Há três anos que a EPC convida artistas emergentes a reinterpretar a sua identidade efervescente. Mas a edição deste ano marca um ponto de viragem: um concurso público, que reuniu mais de 20 mil participantes, selecionou Los Pepes de forma quase unânime para dar corpo à nova criação. Um gesto democrático e simbólico, alinhado com a filosofia da marca, que prefere a proximidade à distância protocolar e que procura, no champanhe, um espírito de partilha mais do que uma aura de exclusividade estática.
A intervenção de Los Pepes na edição limitada da EPC não se reduz ao exercício decorativo. Os artistas criam um verdadeiro jogo visual, construído a partir de símbolos, palavras e pequenos códigos gráficos que convidam o observador a decifrar, explorar, interpretar. O rótulo – repleto de cores luminosas, formas orgânicas e referências discretas ao universo do duo e ao espírito “EPiCurien” – assume-se como uma extensão visual da experiência de degustação. Tal como o champanhe, é um trabalho artístico feito para ser descoberto por camadas: primeiro o impacto cromático, depois, os detalhes, finalmente, o significado íntimo que cada observador lhe atribui.
Por trás da exuberância visual encontra-se um vinho singular: um Blanc de Blancs Grand Cru Millésime 2015, elaborado a partir de Chardonnay da vila de Oger, uma das mais prestigiadas da Côte des Blancs. O carácter parcelar – as uvas provêm de uma única parcela – reforça a pureza da expressão do terroir, enquanto o ano de colheita, considerado excecional, confere equilíbrio entre frescura, mineralidade e notas mais evoluídas que surgem com o tempo.
O resultado é uma garrafa alegre, que quase ganha vida própria, muito diferente dos rótulos sóbrios e conservadores a que já nos habituámos, transformando um objeto habitual num pequeno manifesto artístico ou, pelo menos, numa pausa contemplativa. Mil exemplares, todos numerados, elevam esta edição limitada ao estatuto de peça de coleção.