Lalou Bize-Leroy é, provavelmente, o nome mais importante no mundo do vinho de que nunca ouviu falar. “Nunca” é evidentemente um exagero, porque na sua Borgonha natal não falta quem lhe chame a “Grande Dama da Borgonha”, e qualquer pessoa com aspirações a provar os melhores vinhos tem o seu nome no topo da lista.
Lalou nasceu Marcelle Marie-Élise Leroy em março de 1932, num verdadeiro berço de vinho. O avô, François, fundou a Maison Leroy em 1868; o pai, Henry, deu continuidade ao negócio; e Lalou teve provavelmente o destino traçado no primeiro dia, quando o pai lhe deu umas gotas de Musigny a provar. Colheita de 1929. Dizem que essas gotas lhe deram poderes sobrenaturais para imaginar vinhos extraordinários e, ao contrário de Obélix - que nunca mais pôde provar do caldeirão -, Lalou foi reforçando os 'poderes' desde muito cedo. Em criança tinha o hábito de fingir que estava a dormir a sesta sempre que os pais organizavam provas com clientes ou amigos, para, depois de os convidados saírem da sala, correr a provar tudo o que tinha ficado nos copos.
Algo de muito bom saiu dessas investidas. Bize-Leroy juntou-se ao negócio da família em 1955 e foi sob a sua liderança que a empresa verdadeiramente floresceu, tanto na vertente de négociant – onde prova milhares de vinhos todos os anos, selecionando apenas os “melhores entre os melhores”, para levarem o selo da Maison - como de produtora dos Domaine Leroy e Domaine d’Auvenay. No ano passado, quando a Wine Searcher identificou os dez vinhos mais caros do mundo - cinco tintos e cinco brancos - metade da lista era sua, incluindo o pódio completo nos brancos, com três d’Auvenay. O mais caro tinha um preço médio de 19 515 euros. Mas também o primeiro lugar dos tintos: o Domaine Leroy Musigny Grand Cru, acima dos 45 150 euros de preço médio. Mais do dobro do segundo lugar da lista, um Domaine de la Romanée-Conti Grand Cru. São valores que resultam também da raridade - por vezes apenas 500 a 700 garrafas - e da pureza da viticultura biodinâmica, um princípio que defende como essencial para permitir às uvas expressarem-se plenamente.
Curiosamente, além das gotas de Musigny, o pai Henry tomou outra grande decisão ao adquirir, durante a Segunda Guerra Mundial, metade da sociedade do Domaine de la Romanée-Conti (DRC), que passou a gerir em conjunto com a família de Villaine. Em 1974 foi Lalou quem assumiu a cogestão com Aubert de Villaine, e os dois foram responsáveis por transformar a DRC no nome mais famoso da Borgonha. A parceria, no entanto, durou pouco. Em 1992 entraram em choque – em grande parte a propósito da adoção dos métodos biodinâmicos - e Lalou abandonou a gestão, mas não a sociedade, nomeando um primo em sua representação. Lugar atualmente ocupado pela sua única filha, Perrine Fenal. A saída da DRC permitiu a Lalou concentrar-se na expansão da Maison Leroy, acrescentando parcelas dos melhores terrenos e consolidando o Domaine Leroy, enquanto desenvolvia o Domaine d’Auvenay. O primeiro mais focado nos tintos, o segundo nos brancos - sendo que é também um d’Auvenay o quinto tinto da lista dos mais caros.
Aos 94 anos - acabou de os fazer a 3 de março - continua à frente dos dois domínios e já garantiu o seu lugar entre as senhoras que marcaram para sempre a história do vinho. Um mundo também dominado por homens, mas que teve sempre mulheres capazes de sair da sombra e rivalizar em fama e importância.
Um rápido exercício de memória lembra-nos nomes como Dona Antónia Adelaide Ferreira ou a Veuve Clicquot, entre outras. Não foram assim tão poucas - sobretudo se pensarmos que eram uma ínfima minoria e que quase todas dependeram da morte precoce dos maridos para poderem assumir o negócio. Mas provaram que, nisto pelo menos, eram muito melhores do que eles. De então para cá o panorama mudou radicalmente e as mulheres têm hoje plenos direitos perante a lei. Respondem por praticamente metade do consumo mundial de vinho e saem dos cursos de enologia em paridade - quando não em maioria - em relação aos homens. Haverá ainda muito a fazer para atingir uma igualdade de facto - e deixar de ouvir relatos de discriminação ou até assédio, como aconteceu recentemente na Court of Master Sommeliers das Américas -, mas tal como antigamente, as atuais mulheres do vinho sabem bem como este mundo também é delas.
Vinhos com alma
É o que nos conta Sandra Tavares da Silva - Empresária do Ano para o Banco BPI e Enóloga do Ano para a Revista de Vinhos, ambos os prémios em 2025, o último ex aequo com o marido, Jorge Seródio Borges. Há um par de anos entrou também para uma restrita lista de 24 melhores enólogas do mundo selecionada pelo Financial Times, e já este mês, o seu Pintas 2023 foi considerado o segundo melhor vinho de Portugal. Não tem nada a provar, mas quando começou, em 1999, terminado o mestrado em enologia, penou para conseguir encontrar um estágio não remunerado no Douro.
Sandra tinha 12 anos quando os pais compraram a Quinta da Chocapalha, na aldeia galega da Merceana. Nessa altura ainda não pensava em ser enóloga, mas ia ganhando cada vez mais gosto pela terra e por "ver as coisas crescer”, se calhar “até mais ligada à floresta do que à vinha”. Foi apenas no curso de Agronomia, no ISA, que começou a dedicar-se à viticultura, completando depois a formação com um mestrado em enologia em Itália. Foi no regresso a Portugal que decidiu ganhar experiência no Douro, onde “não viram com bons olhos aquela rapariga de Lisboa, para mais ex-modelo”. O facto de ter desfilado nas principais capitais da moda, e ter sido jogadora de voleibol - chegando à seleção nacional de juniores - só serviu para aumentar a desconfiança, quando devia ter acontecido precisamente o contrário.
“Não imaginavam que pudesse perceber grande coisa de vinhos”, recorda. “Mas como gostava tanto do que fazia e tinha tanta certeza de que ia atingir os meus objetivos”, não deixou que isso se tornasse um problema. Também teve a sorte de encontrar pessoas como Cristiano Van Zeller, que lhe deu a primeira oportunidade no Vale Dona Maria - e foi lá, aliás, que acabou por conhecer o colega que se tornaria marido. Revelando já o empreendedorismo que o BPI acabaria por premiar, fundaram a Wine & Soul e começaram a lançar “vinhos com alma” como os Quinta da Manoella, Guru ou Pintas. “Dentro da empresa”, explica, “não temos divisões ou regras”, mas existe “respeito mútuo pela capacidade e visão do outro”. Por isso, quando estão os dois decidem em conjunto; quando está apenas um, é esse quem decide. “Somos pessoas muito tranquilas, e acho que isso também é fundamental.”
O mais curioso é que, passados todos estes anos, aquilo de que continua a gostar mais é de ver as coisas crescer. “Sobretudo devolver vida às vinhas velhas, recuperá-las, dar-lhes vida e alma.” Conseguido isso, diz, “é muito fácil fazer vinho”.
Uma casa de mulheres
A Casa Ermelinda Freitas é um dos casos mais interessantes, porque nasceu já sob liderança feminina, há mais de um século, e em mãos femininas se manteve ao longo da história.
“É curioso porque a passagem até se fez pelo lado masculino”, conta Joana Freitas, “mas os homens morriam cedo e as mulheres acabavam por ser mais espertas, por isso eram elas quem dava continuidade ao negócio.” É o que Joana se prepara agora para fazer, recebendo o testemunho da mãe, Leonor. A casa foi fundada em 1920 por Leonilde Freitas, em Fernando Pó. Ermelinda era a avó de Joana, mulher do neto de Leonilde. “Mesmo quando o meu avô era vivo, a minha avó estava sempre com ele e dava-lhe muitas dicas, porque ela realmente tinha mais jeito”, recorda Joana, que ainda se lembra de seguir a mãe e a avó para todo o lado. “Foi assim que sempre soube que era isto que queria fazer na minha vida.” Ao contrário da mãe, Leonor, que só muito tarde decidiu abandonar a carreira que tinha construído para ajudar a mãe.
Leonor Freitas é a personagem central desta história, e foi sob a sua liderança que a casa deixou a venda de vinho a granel para começar a produzir e engarrafar vinhos com marca própria, transformando-se numa das maiores empresas vitivinícolas portuguesas, com 550 hectares de vinha, cerca de 21 milhões de litros produzidos por ano e presença em mais de 30 países. É este legado que Leonor - agora com 72 anos - passa a Joana, de 40, que ainda pensou estudar enologia, mas percebeu rapidamente que a sua “verdadeira responsabilidade estava em gerir a empresa, e que para fazer o vinho haveria sempre pessoas mais bem preparadas”.
O seu grande desafio será navegar por tempos conturbados, “onde a instabilidade e incerteza são o novo normal” e “os gostos mudam muito rapidamente, “muito mais depressa que qualquer alteração na vinha possa acompanhar”. Está-se também a assistir ao crescimento de um “movimento internacional cada vez mais crítico do álcool, ou pior, mais anti-vinho do que anti-álcool”, e por isso Joana está muito focada em mostrar – “sobretudo às gerações mais jovens” – que “vale a pena preservar um produto que faz parte de quem somos e da nossa história”. Ninguém pretende voltar aos níveis de consumo de antigamente, mas “o vinho tomado de forma moderada promove a convivência, os momentos à mesa e a interação social — coisas de que precisamos cada vez mais.”
A filha pródiga
Luisa Amorim é hoje uma das caras mais visíveis do vinho nacional. Gere os dois projetos da família - é a filha mais nova de Américo Amorim - e ainda um projeto pessoal no Alentejo. Curiosamente, quando foi trabalhar em marketing para Nova Iorque, estava longe de imaginar que um dia acabaria no mundo do vinho. A culpa talvez tenha sido de uns vinhos do Porto com mais de cem anos, “cujos perfumes me invadiram a memória para sempre”. Mas também do pai, que depois do seu regresso a Portugal lhe entregou a gestão da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, em 2005.
Esta histórica propriedade do Douro foi a primeira ligação real da família ao vinho - apesar do negócio da cortiça - e para Luisa uma verdadeira descoberta. “Sempre que trocava o gabinete pela natureza, para estar mais perto das operações e das pessoas, a decisão fazia cada vez mais sentido.” Apesar de as caves de vinho do Porto, em Gaia, terem sido a sua “primeira escola”, foi nos chamados vinhos tranquilos que deixou uma marca mais visível. Entre eles o Mirabilis, hoje uma referência entre os brancos do Douro, ou os vinhos de parcela P28 e P29. Mais tarde liderou também a expansão do projeto para o Dão, na Quinta da Taboadella, desempenhando um papel importante na afirmação da casta Encruzado na região.
Luisa é a primeira a admitir que “nem todos os dias são uma festa”, mas também que “não há um dia igual ao outro, e todos são vividos com enorme intensidade e paixão”. Talvez por isso tenha avançado também com um projeto inteiramente pessoal no Alentejo: a Herdade Aldeia de Cima. Uma propriedade impressionante, com cerca de 3500 hectares, que converteu em agricultura regenerativa com diferentes culturas, gado e, claro, vinha.
“Nos vinhos sentimos humildemente que é a natureza quem dita o ritmo e que o nosso papel é traduzir, com precisão, a essência do lugar. É uma troca muito bonita.”
As viúvas do vinho
Impedidas de gerir o negócio enquanto casadas, foi muitas vezes a morte prematura dos maridos que permitiu a estas mulheres assumir as rédeas das empresas. Foi o caso da “nossa” Ferreirinha (1811-1896), que enviuvou aos 33 anos e rapidamente revelou uma capacidade empresarial muito superior à do marido. Investiu com visão e paixão no Douro, sobreviveu à maior crise que o setor alguma vez enfrentou - a praga da filoxera - e ajudou a modernizar a viticultura e o negócio do vinho do Porto.
Expandiu a região e adquiriu mais quintas do que qualquer outra pessoa ou família, incluindo algumas das mais importantes: Vale Meão, Vallado ou Vesúvio. E consegui tudo isto acompanhado por uma preocupação social pouco comum no século XIX. As pessoas amavam-na e, quando morreu o seu funeral foi acompanhado por milhares de pessoas - diz-se que o cortejo se estendia por cerca de quatro quilómetros.
Em França ficou célebre a expressão “viúvas de Champagne”, porque algumas das grandes líderes da região foram precisamente mulheres. O exemplo mais famoso é o da Veuve Clicquot. Barbe-Nicole Ponsardin (1777-1866) tinha 27 anos quando ficou viúva e tomou uma decisão radical: vender todos os outros negócios da família para se concentrar exclusivamente no champanhe. Foi pioneira no marketing de marca e introduziu a indicação do ano de colheita nas garrafas, mas o seu contributo mais importante foi técnico. Inventou os pupitres, estantes de madeira que permitem concentrar no gargalo os depósitos de leveduras resultantes da fermentação em garrafa. O processo - conhecido como remuage - obriga a girar lentamente as garrafas em posições cada vez mais inclinadas. Continua a ser uma etapa essencial na produção de champanhe e da maioria dos espumantes. A ela se deve também a criação do primeiro champagne rosé.
Outras viúvas poderiam ser mencionadas - Madame Pommery, Madame Bollinger ou Marie-Louise de Nonancourt, que comprou a Laurent-Perrier em 1939 e geriu a casa durante a ocupação nazi, enquanto os filhos combatiam na Resistência francesa. Mas vale a pena terminar no Château d’Yquem, em Bordéus, onde outra viúva foi decisiva para a fama da propriedade.
Françoise-Joséphine de Sauvage d’Yquem (1768-1851) ficou viúva aos 20 anos mas tomou a decisão que mudaria para sempre a história da propriedade: produzir vinhos esperando pela botrytis cinerea, a chamada “podridão nobre”, antes da vindima. O fungo faz murchar as uvas e concentra açúcares e aromas - uma técnica que transformaria o Château d’Yquem no vinho doce mais celebrado do mundo. Monárquica convicta em plena Revolução Francesa, foi presa duas vezes e teve de lutar para manter a propriedade, sendo que a sua vida foi marcada pela tragédia, tendo inclusivamente sobrevivido à morte dos dois filhos. Dedicou-se à educação dos netos e deixou-lhes um património único, que levou Yquem à classificação singular de Premier Cru Supérieur, “melhor entre os melhores”, na célebre classificação de Bordéus de 1855.
Curiosamente, hoje é também uma mulher - Sandrine Garbay, considerada pelo Financial Times uma das melhores enólogas do mundo na mesma lista de Sandra Tavares - quem continua a dar forma a esse legado.