Conversas

“Nunca fui um chefe de orquestra”

Nome maior da moda nacional, José António Tenente retirou-se do mercado e refugiou-se em alguns dos teatros nacionais, onde se dedica ao trabalho de figurinos. Fomos encontrá-lo no sítio onde porventura se sente mais feliz: os bastidores.

Foto: Pedro Ferreira
24 de agosto de 2019 | Rita Lúcio Martins

Marcámos encontro no átrio do Teatro Nacional D. Maria II, sala onde decorrem os ensaios de Frei Luís de Sousa, a peça encenada por Miguel Loureiro com estreia marcada para março próximo. José António Tenente assina os figurinos deste que é um dos primeiros projetos de um ano profissional já bem preenchido. Como de resto foram os anos mais recentes, desde que decidiu encerrar a sua atividade como designer de moda, em 2013. Para trás ficou uma carreira de quase 30 anos, recheada de momentos altos. O designer de moda idealizou peças intemporais, concebeu desfiles memoráveis, criou perfumes e acessórios, assinou fardas para empresas e instituições, vestiu figuras públicas. Ficou na história. Será recordado pelo talento, mas também pela timidez com que, no final de cada apresentação, subia à passerelle para um aceno sempre breve e sempre sofrido. O passar do tempo trouxe-lhe não só a tranquilidade como a autoconfiança que tanta falta lhe fazia. Hoje, já evita a ribalta a qualquer custo, mas continua a ser atrás do pano que faz acontecer a sua magia.

José António Tenente
José António Tenente Foto: Pedro Ferreira




Sei que as suas memórias de infância são algo enubladas. Que imagens prevalecem?

É verdade. Eu não tenho memórias muito nítidas da infância… Tenho, sobretudo, imagens que foram sendo reconstruídas a partir de coisas que fui ouvindo, de fotografias que fui vendo. Pelo menos comigo é assim que acontece… Mas lembro-me bem de ir com a minha mãe à modista. Eu não posso dizer que já sabia que era aquilo que ia fazer quando crescesse, mas eventualmente achava graça e dava opiniões. Aliás, ao que parece, eu era bastante opinativo em relação à roupa que vestia e isto desde cedo, com cerca de dez anos. Acho que eu queria ser tudo aquilo que os miúdos querem, nessas idades, mas sempre gostei de profissões ligadas às artes, ainda que eu fosse estupidamente tímido. Sim, não há outra forma de o dizer, era mesmo assim…

Teve aulas de ballet, em criança. Não era muito habitual para a época…

Sim, aos dez anos inscrevi-me na dança. Foi uma decisão por um lado estranha, tendo em conta a minha assumida timidez, e por outro lado curiosa. E agora, com a distância do tempo, é algo que me deixa realmente orgulhoso. Eu tinha ouvido dizer que em Cascais ia haver uma aula de dança para iniciados, no Pavilhão do Dramático, e inscrevi-me. Fui a primeira pessoa a inscrever-se e o único rapaz. Os meus pais nunca me travaram, pelo contrário, sempre foram muito motivadores, inclusive quando decidi ir para moda. Hoje olho para esses momentos [a dança primeiro, a moda depois] como gatilhos na minha personalidade. Tinham de ser coisas realmente importantes, ao ponto de me moverem mais do que a minha timidez. 

Como foi essa experiência da dança?

Eu tive pena de não ter continuado. Mas ainda que tenha sido uma experiência muito incipiente, terá durado uns dois anos, aproximou-me de um universo de que gostava muito. Eu cheguei a fazer uma prova com aquelas examinadoras que vinham do Royal Ballet. Tenho um diploma assinado pela Margot Fonteyn, o que para mim é um orgulho. Provavelmente, na altura, eu até gostaria mais de ser bailarino do que designer de moda...

A sua mãe foi a sua primeira referência de estilo?

Na altura da minha infância, o pronto-a-vestir não existia, tal como o conhecemos a partir dos anos 1980. Daí a figura da modista. A minha mãe sempre foi alguém que teve cuidado com a sua imagem. Gostava de se vestir, de se maquilhar… Sempre foi vaidosa. Ela própria [nascida em 1936] tinha, na sua juventude, uma relação próxima com a costureira. Nos anos 1950, ela desenhava as suas peças e mandava-as executar a uma modista que era afilhada da minha avó. Eu não faço ideia se há um código genético, mas que havia esse cuidado estético, havia. E há imagens que perduram. Lembro-me dela num vestido comprido verde-esmeralda, com um casaco castanho-chocolate ou com calças boca de sino e plataformas gigantes.

No entanto, quando chegou a hora de escolher um rumo académico, optou pela arquitetura…

Sim. Gostava muito de História de Arte. Ainda ponderei seguir arqueologia, mas acabei por achar que a arquitetura reunia mais condições. Mas já gostava de moda. Aos 15 anos comecei a desenhar algumas peças para a minha mãe e para a minha irmã e mais tarde para algumas amigas. No liceu, eu tinha uma grande amiga [a maquilhadora Cristina Gomes] e ela vestia imensas peças desenhadas por mim. [A Cristina] tinha uma imagem muito arrojada, ousava pelos dois. Lembro-me de um conjunto amarelo e preto com uma geometria à frente e um decote nas costas, ombros largos, o estereótipo dos anos 1980, conjugado com uma saia lápis. Ela coordenava tudo com meias de renda e sapatos Ana Salazar e uma maquilhagem entre o futurista e Siouxsie and the Banshees. Eu, sendo muito envergonhado, até achava graça em andar com alguém que fosse todo aquele statement.

Como foi crescer em Cascais?

Eu sempre fui muito pouco "enturmado". Tinha essa grande amiga, a Cristina, algumas amigas no liceu, mas nunca vivi aquela coisa da tribo. Demorei muito tempo a sair da "cápsula". Isso só aconteceu, ainda que a uma escala reduzida, na faculdade porque eu encontrei pessoas que tinham afinidades comigo. Íamos a concertos de música na [Fundação Calouste] Gulbenkian, às temporadas de ópera no [Teatro de] São Carlos… Ainda hoje somos amigos e fazemos estas coisas juntos. Aliás, eu comecei a assistir a este tipo de espetáculos bem cedo com a minha irmã [sete anos mais velha].

Estudar ou trabalhar fora do país nunca foi uma hipótese?

Não é propriamente um arrependimento, mas eu tenho pena de não ter tido essa determinação. Era uma decisão difícil de tomar na altura. Depois, aconteceu uma coisa que não ajudou muito: comecei a trabalhar muito cedo. Entrei para a Faculdade de Arquitetura, em 1983, e inscrevi-me no Curso de Moda no ano seguinte. Ainda conciliei os dois [cursos] durante algum tempo, mas depois a arquitetura começou a não correr tão bem e chumbei no segundo ano… Entretanto, apresentei a minha primeira coleção aos 20 anos. E tive aquele ímpeto juvenil de achar que era mesmo aquilo [a moda] que eu queria. Nessa altura ainda não havia Internet e havia poucas revistas… Foi a época em que surgiram nomes como Jean Paul Gaultier, Jean-Charles de Castelbajac, Sonia Rykiel, Claude Montana, Thierry Mugler, Azzedine Alaïa… Surgiu, então, a oportunidade de estagiar seis meses no gabinete da Ana Salazar, o que acabou por se revelar a maneira mais próxima de entrar nesse mundo da moda de autor. Eu estava completamente encantado. Não é que estivesse deslumbrado… Era mais um arrebatamento romântico. Aquilo para mim era absolutamente vital: as imagens que tinha na cabeça, a música que ouvia… Pensava muito nas minhas coleções como óperas.

Viu a primeira ópera com dez anos, acompanhado pela sua irmã. Sempre foram próximos?

Sim, até pelo facto de trabalharmos juntos [são sócios desde 1992]. A minha família acaba por ser muito nuclear. Tenho dois sobrinhos, três sobrinhos-netos. Somos poucos, mas muito próximos. O facto de eu e a minha irmã trabalharmos juntos aconteceu naturalmente e como todos os que trabalham com elementos da sua própria família compreenderão é uma questão com dois lados… Há sempre limites que ultrapassamos, coisas que nunca diríamos a outra pessoa, com o que isso tem de bom e de mau. Mas também temos uma confiança que dificilmente teríamos noutra pessoa. Quando eu tomei a decisão de abandonar a moda, falei com a minha irmã e ela percebeu. Acho que teve pena, no início. Depois tentou, e conseguiu, protelar a decisão. Mas acabou por compreender.

José António Tenente
José António Tenente Foto: Pedro Ferreira

Fala dessa decisão de abandonar a moda como se fosse irreversível. É mesmo assim?

Raramente há irreversibilidades na vida. Estamos sempre a tempo de mudar. Mas se me perguntar se eu tenho vontade de desenhar coleções e fazer desfiles, a resposta é não. Não tenho vontade nenhuma. Não tenho saudades nenhumas. E quando sonho com isso, nunca é um sonho, é sempre um pesadelo. Acontece sempre alguma desgraça. E a verdade é que hoje eu tenho uma atividade que me preenche bastante. A transição foi muito suave. Foi tão suave que a maior das pessoas não sabe que esta decisão acaba por ser um bocadinho mais radical. Se calhar pensam que apareço menos, mas que continuo a fazer o meu trabalho…

Diz que se no início, quando optou pela moda, tivesse noção de tudo o que estava implicado no trabalho, talvez tivesse seguido outro caminho. Porquê?

Era tudo muito difícil por causa da minha timidez. Um exemplo: aquando do meu primeiro desfile, coreografei também o final, em que eu surgia no meio da passerelle, com as modelos à volta. É claro que isto só aconteceu porque foi o primeiro… Ainda elas não tinham feito metade da volta e já eu me estava a ir embora. No segundo desfile, a minha mãe decidiu oferecer-me um ramo de flores no final e pediu à Cristina [Gomes] que mo entregasse na passerelle. Reagi pessimamente. Foram precisos anos para perceber que tinha de mudar…

Foi um trabalho solitário, esse?

Eu tive de "levar na cabeça", inclusivamente da família. "Uma coisa é seres tímido e outra coisa é seres mal-educado", disseram-me. Os tímidos rapidamente passam por mal-educados. Eu sei que isso é verdade. Ainda hoje, se tivermos de dividir o mundo entre extrovertidos e tímidos, eu incluo-me no grupo dos tímidos. Ainda não me ponho a sapatear em frente a uma multidão, mas já consigo enfrentá-la. Eu era um miúdo que não entrava na sala de convívio do liceu. Havia um dia por semana em que eu era obrigado a fazê-lo no meu caminho para o pavilhão e aquilo para mim era um horror. Nem sei explicar porquê… Não tenho memórias de ter sofrido bullying, mas tudo teria sido mais fácil se eu não tivesse esta personalidade. Houve um grande desconforto. Hoje sinto aquilo que muitas pessoas dizem quando olham para trás: "Eu até era engraçado e porque é que teria tantos problemas?" Curiosamente, no ano passado, fiz um espetáculo sobre a adolescência aqui no Teatro Nacional [D. Maria II], chamado A Montanha Russa, e trabalhámos muito a parte de preparação com várias conferências e entrevistas com adolescentes. Deu para perceber que esta questão é tão comum… Passaram-se muitos anos sobre a minha adolescência, o mundo é completamente diferente e os meios que os jovens têm à sua disposição também, mas algumas questões são as mesmas. A borbulha na testa continua a ter a mesma importância. Numa primeira reunião, o Miguel [Fragata] e a Inês [Barahona], os criadores da peça, pediram a toda a equipa que partilhasse uma história da sua adolescência. Eu acho que isso nos juntou imenso porque partilhar uma imagem da adolescência é quase como despirmo-nos em público [risos]. A grande diferença para mim foi que na adolescência eu teria certamente faltado àquela "aula". Eu nem teria aparecido.

Tudo o que implicasse uma exposição era evitado a qualquer custo?

Eu cheguei à faculdade sem fazer uma prova oral. Devo ter feito meia dúzia de trabalhos de grupo. Apresentações também fiz muito poucas... Tinha medo. Gaguejava muito. Ainda hoje, se estiver muito nervoso, gaguejo. Esta profissão obrigou-me a mudar. Desenhar, escolher tecidos, trabalhar a coleção era uma componente. E depois havia a outra [componente] em que eu tinha de aparecer e de dar entrevistas. Quando me fizeram as primeiras e me colocaram questões como "Qual é o seu prato favorito?", eu achei tudo aquilo uma parvoíce. Na altura, eu tinha essa atitude. Hoje, quando me fazem uma pergunta que eu posso achar pouco interessante, já não tenho este tipo de reação que pode ser confundida com agressividade.

Sente que pode ter perdido alguma coisa devido à sua personalidade?

Não. A prova é que eu consegui construir um percurso em que não tive de fazer cedências, tal como deixar fotografar a minha casa ou fazer férias pagas [por outrem]. Não há aqui uma crítica implícita, eu não tenho nada contra quem o faz. Mas não é a minha forma de estar. Talvez pudesse ter tido mais visibilidade, mas mesmo em entrevistas do "social" eu sinto que consegui dar a volta. Eventualmente deu-me mais trabalho....

Delineou uma estratégia de negócio, logo no início?

O meu objetivo nem era ter um negócio de sucesso. Era apenas apresentar coleções. Era desenhar, fazer coisas, transportar as imagens que eu tinha cabeça para a passerelle. Claro que gostava que o meu trabalho fosse consumido. Nunca quis trabalhar para um grupinho ou para os amigos dos amigos. Embora, no início, tenha sido isso que aconteceu. Mas respondendo à pergunta, sim, nunca houve um "projeto de arquitetura": havia uma casa, depois construiu-se um anexo, depois uma marquise, foi tudo um bocadinho clandestino [risos]. Sabia que queria ter um projeto de autor, mas nunca de nicho, à porta fechada. Mais tarde, e ao longo dos anos, eu fui desenvolvendo parcerias… não porque tivesse o sonho de ter um império, mas porque tinha vontade, porque o universo de ideias fazia sentido.

Como é que recorda esses primeiros tempos de criador, da Lisboa dos anos 80. Havia uma efervescência que se perdeu?

Como disse, eu sempre fui muito fora do bando. Até nessa altura. No início, os meus pontos de venda eram todos no Bairro Alto, mas a minha base continuava a ser em Cascais. A dada altura decidi fazer um desfile no Museu do Traje, o [desfile] do verão de 1988, e fui falar com a Dr.ª Madalena Vaz Teixeira, diretora do museu. O Vítor Nobre, que fazia a direção da Feira de Moda de Lisboa, viu esse desfile e como já havia esse movimento dos criadores (eu, a Eduarda Abbondanza, o Mário Matos Ribeiro, o Manuel Alves, a Manuela Tojal), resolveu fundar a Noite dos Criadores. Convidou-me a apresentar uma coleção para o verão seguinte. Aí a coisa mudou. Na sequência deste evento, apareceu a ModaLisboa no seu ano zero e, em 1991, com o formato que lhe conhecemos hoje. Mas ainda hoje não tenho essa ideia de ter feito um trabalho pioneiro. Eu estava apenas a fazer aquilo que queria…

Quando é que esse entusiasmo desaparece?

A dada altura e depois de um período de franca ascensão, eu começo a ter a sensação de que tudo se torna tão difícil de fazer acontecer como no início. Poderá ter a ver com o início da crise, mas até acho que já seria anterior a isso. Trinta anos depois não me apetecia passar por isso tudo outra vez. Ou talvez eu não gostasse assim tanto de moda como pensava… Foi excelente, ajudou-me muito em termos pessoais, mas foram várias as vezes em que dei por mim a pensar: "O que é que estou aqui a fazer? Isto vai custar-me muito, isto vai ser horrível…"

Sentiu-se sempre um outsider?

Não, propriamente… Como qualquer pessoa, eu tenho as minhas referências e o meu percurso. Pergunta se cultivava aquela atitude com um objetivo específico? Não. Tinha a ver com a minha zona de conforto. Muitas vezes pensei: "O que eu gostava de estar mais à vontade neste papel." Por exemplo, esta entrevista, esta conversa, se tivesse acontecido nessa fase inicial da minha carreira, teria sido muito difícil. Parece uma coisa de somenos importância num percurso, mas não é. Depois desse arranque inicial, eu deixei mesmo de fazer algumas coisas porque já tinha alguma noção. Hoje, apesar de continuar a haver toda uma arrogância da juventude que se traduz numa vontade de fazer acontecer, as coisas funcionam de forma diferente, os miúdos têm uma maior noção do que é preciso. Ninguém lança o que quer que seja sem mandar esse produto para um blogger, nem que seja só para o testar. Tenho de admitir que, nestas questões, não me revejo na evolução do mercado…

Refere-se ao que mudou com as redes sociais?

Sim, embora elas sejam muito importantes. Eu utilizo-as, publicito o que estou a fazer, mas sempre de uma forma profissional. Mas há coisas que eu não percebo. Quando eu vejo uma coleção Givenchy com styling de uma estrela pop ou de uma blogger, penso que algo não está bem. Hoje é mais fácil para um cantor pop com sucesso assinar uma linha de sapatos do que para um designer. Está tudo invertido. Os próprios modelos têm o seu mercado reduzido porque concorrem com uma série de pessoas de outras áreas. Claro que sempre houve estas contaminações, mas a Audrey Hepburn não dizia a [Hubert de] Givenchy como fazer o seu trabalho, nem vice-versa. Na essência estavam ambos a promover os seus trabalhos, mas faziam-no de uma forma diferente, num ambiente de profunda noção e de respeito pelo trabalho do outro. E isso existiu em todas as parcerias que fiz…

Refere-se às suas musas. Bárbara Guimarães será, porventura, a grande embaixadora da imagem José António Tenente…

Sim, essa colaboração começa com o Chuva de Estrelas e dura 12 anos. Foi a estação [SIC] que me contactou, pois não éramos amigos antes. O mesmo aconteceu com a Teresa Salgueiro, dos Madredeus, com a Maria João [cantora de jazz] e com a Ana Moura… Foram relações que começaram profissionalmente, mas que depois evoluíram para a esfera pessoal. Entretanto, a vida afastou-nos um bocadinho, mas continuo atento às carreiras destas pessoas e claro que depois de relações tão longas fica a amizade. Estranho seria se não ficasse. É curioso… Eu já não visto a Bárbara há dez anos e ainda hoje as pessoas me associam a ela. É uma coisa bonita. Pontualmente há uma situação ou outra em que surgem pedidos para vestir determinadas pessoas (como a Beatriz Batarda), mas é raro, até porque eu não tenho muita disponibilidade.

Quando decidiu deixar a moda, o trabalho como figurinista era o caminho óbvio a seguir?

A primeira vez que trabalhei em figurinos foi em 1990 e acabou por ser uma atividade regular na minha carreira. Entre 1990 e 2001, fiz sempre um ou dois espetáculos por ano. Depois disso e até 2009, deixei de fazer porque foi um período em que apostei todas as fichas na moda. Nessa altura voltaram a convidar-me. Em 2011, já tive quatro projetos nessa área. Estava numa situação de grande cansaço e pensei: "E se eu fosse por aqui?" Foi algo que surgiu muito naturalmente. Então, em 2013, tomei então a decisão mais radical [de abandonar a moda] e, em 2017, já teria feito uns 30 espetáculos. No ano passado fiz 15 e este ano tenho dez marcados. Deve ter sido uma boa aposta, digo eu…

Qual é a especificidade desse trabalho?

Na essência, o processo criativo não é assim tão diferente do trabalho que desenvolvia enquanto designer de moda. O trabalho de pesquisa, do próprio desenho… Eu criava temas que, enquanto ponto de partida, podem ser comparáveis a um texto que tenha de trabalhar. Aliás, curiosamente, muitas das referências que eu fui trabalhando nas minhas coleções estão relacionadas com trabalhos que estou a desenvolver agora.

Mas agora é um jogador de equipa.

E isso muda muito as coisas. E, na verdade, até tem mais a ver comigo. Se calhar, eu nunca fui um chefe de orquestra. Se a realidade da moda em Portugal fosse diferente, mais profissionalizada, talvez houvesse aquela figura dos grandes grupos têxteis e talvez tivessem pegado em mim e eu seria uma peça de orquestra. Eu tive as minhas parcerias, mas funcionavam de uma forma diferente. Fazendo uma caricatura, costumo dizer que sempre fiz de palhaço rico e de palhaço pobre. Por um lado, as entrevistas e as passerelles, e por outro lado, carregar caixotes. Isso, aliás, foi sempre algo que eu disse às pessoas que trabalharam comigo: esta é uma empresa pequena e todos fazemos tudo.

É difícil trabalhar consigo? 

Não acho.

Então reformulo a questão: é mais fácil trabalhar consigo, hoje?

É. Disso não há dúvida. No início, eu achava que podia ser muito rígido profissionalmente e, ainda assim, ser amigo das pessoas. Depois percebi que não, que há coisas que não se podem misturar. É claro que tenho algumas antigas assistentes de quem fiquei amigo... Mas, a certa altura, a distância geracional também é grande… Em termos profissionais isso é bom. Outra curiosidade: no ateliê e no gabinete de design, eu só trabalhei com mulheres e sempre me dei muito bem a trabalhar com mulheres (…). Como já disse, acho que não sou um bom chefe de orquestra, mas sempre disse às pessoas que vinham trabalhar comigo que podiam desenhar na expectativa de ver os seus trabalhos integrados nas coleções.

Sobrou interesse ou paciência para olhar o mercado e seguir as tendências?

Eu sabia que ia fazer-me essa pergunta [sorri]. É óbvio que eu olho para aquilo que visto, mas não compro muita coisa… Eu gosto muito de básicos e quando gosto de uma peça ela pode durar-me muito tempo. Adoro quando clientes antigos me dizem que ainda têm uma determinada peça [minha]. Por oposição ao lado muito voraz da moda, eu gosto deste lado afetivo, de uma peça poder perdurar. Sempre olhei pouco para a moda enquanto fonte de inspiração. Ver coleções como material de trabalho sempre foi apenas mais um tema, nunca o tema central. Além disso, eu acho que, hoje em dia, a moda é tão multifacetada que torna tudo possível. Há décadas era impensável que a moda fosse tantas coisas ao mesmo tempo.

Isso é interessante em termos históricos?

A partir dos anos 60, a moda passa a ter um lado mais lúdico e mais individual. A moda passa a ser a catalisadora de muitas mudanças, coisa que nem sempre é percecionada pelas pessoas. Quando eu olhava para a moda, olhava muito para o seu lado performativo. Hoje temos desfiles que são espetáculos incríveis! Os desfiles Chanel são um excelente exemplo disso. Se me perguntar pelas pessoas que mais olhei enquanto criador, provavelmente são as mesmas que continuo a olhar porque eu sempre gostei de projetos com uma individualidade muito própria, que vivem dentro do esquema da moda, mas que têm uma certa independência. Dries van Noten, Alexander McQueen (mesmo sem o próprio), Jean Paul Gaultier, Yamamoto e Comme des Garçons são marcas cuja identidade é muito própria (…). Eu acho que o fenómeno desta "mudança de cadeiras" dos diretores criativos é reflexo desta procura constante de identidade. Esta voracidade do mundo da moda aliada à cultura atual que anda sempre à procura da próxima novidade, é de loucos. Foi por isso que eu achei que precisava de outra coisa na minha vida.

Passou a dormir melhor?

Por acaso, eu sempre dormi bem. Mas aquela angústia do guarda-redes antes do penálti, sinceramente já não tenho. Estou mais tranquilo. Eu tenho outra disponibilidade. Sou um espectador compulsivo, gosto muito de teatro e de dança, vejo vários espetáculos todas as semanas. E gosto de não fazer nada. De praia, de férias… Tento não ter a sensação de que o tempo está a passar e que tudo é demasiado rápido, mas acontece-me pensar nisso. Com a idade é inevitável fazer balanços e a verdade é que uns são mais positivos do que outros… Hoje, eu já penso que há determinadas coisas para as quais, se calhar, não vou ter tempo. E por isso talvez seja bom considerar fazê-las já. Mas não digo isto com qualquer mágoa. É só uma constatação.

Saiba mais José António Tenente, Teatro Nacional D. Maria II, Frei Luís de Sousa, Ana Salazar, Cristina Gomes, Jean Paul Gaultier, D. Maria II, Givenchy, Bárbara Guimarães
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Tem 47 anos, um passaporte cheio de carimbos e duas filhas à espera, no regresso a casa, na sempre desconcertante Colombia. Escritor convicto e leitor apaixonado, o autor de O Barulho das Coisas Antes de Cair ou A Forma das Ruínas, obras distinguidas com um coro de elogios e vários prémios, passou por Lisboa para regressar à sua primeira obra, Os Informadores.