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Livro. Fotografias inéditas de Sophia Loren, a rainha do cinema italiano

A Taschen acaba de lançar uma edição limitada, numerada e autografada pela atriz, com mais de 200 fotografias dos seus tempos áureos. As imagens são de autoria de Alfred Eisenstaedt, o pai do fotojornalismo e grande amigo de Loren

Sophia Loren surge em fotografias inéditas de Alfred Eisenstaedt, numa edição limitada da Taschen Foto: Taschen
05 de março de 2026 | Madalena Haderer
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Sophia Loren viveu (e continua a viver) uma vida inesperada, daquelas que já praticamente não existem. Uma vida como as de Amália, Eusébio, Ronaldo, Adele ou Ricky Gervais que começaram na pobreza, algumas na pobreza extrema, e suplantaram todas as expectativas. À nascença, e olhando em redor, ninguém diria onde qualquer destas pessoas iria parar décadas depois. Loren, cujo nome verdadeiro é Sofia Villani Scicolone, nasceu em 1934, em Roma, mas cresceu em Pozzuoli, perto de Nápoles. O pai abandonou a família quando Sophia era ainda bebé. Passaram muita fome nos anos do pós-guerra. Escassos 15 anos depois, começa a ascensão de Loren rumo ao estrelato no cinema italiano e mais tarde em Hollywood, o que fez dela não só uma das actrizes mais icónicas e glamorosas do século XX, como uma das mulheres mais desejadas e invejadas do mundo, principalmente durante as décadas de 60 e 70, quando contracenou com Frank Sinatra, Cary Grant, Clark Gable, entre outros colossos do cinema.

É, precisamente, a história desta fase áurea e mais prolífica da vida da actriz que a editora Taschen se propõe contar com o recém-lançado livro Sophia by Eisenstaedt. , e que conta com quase 200 fotografias, a cores e a preto-e-branco, inéditas na sua maioria e seleccionadas a partir do arquivo da revista LIFE, uma das mais famosas foto-magazines do século passado. Todas as imagens são da autoria do famoso fotógrafo Alfred Eisenstaedt, conhecido como Eisie. 

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Sophia Loren em Nápoles, numa edição limitada da Taschen Foto: Taschen

Sophia e Eisie conheceram-se em 1961, na primeira vez que ele a fotografou para a revista LIFE, e ficaram amigos até ao fim da vida do fotógrafo, que morreu em 1995. Por conta desta amizade que os unia, Eisie acompanhou a actriz não só no seu trabalho, fotografando-a em cenários de filmes como Madame (1961), Matrimónio à Italiana (1964) e A Condessa de Hong Kong (1967), ao lado de lendas como Marcello Mastroianni, Marlon Brando e Charlie Chaplin; mas também em momentos íntimos. Neste novo livro encontramos fotografias de Sophia na modesta casa da família perto de Nápoles, na sua villa romana, com o marido Carlo Ponti, e, mais tarde, no seu papel de jovem mãe, com os filhos Carlo Jr. e Edoardo. O livro termina em 1979, com fotos da actriz numa digressão para promover as suas memórias. 

Sophia Loren e Alfred Eisenstaedt num livro da Taschen Foto: Taschen

Curiosamente, a vida de Sophia é, ao mesmo tempo, singela e extraordinária. Teve um grande amor, o produtor de cinema Carlo Ponti, 22 anos mais velho que ela, e que era casado quando os dois se conheceram. Ponti foi uma das figuras mais importantes da sua vida, tanto do ponto de vista pessoal como profissional. Foi, por exemplo, ele quem escolheu o nome pelo qual a conhecemos hoje e que insistiu para que ela não emagrecesse, contrariando os padrões da época, o que contribuiu para a construção da imagem de mulher mediterrânica, sensual, voluptuosa, mas nunca vulgar. Pouco tempo depois de se conheceram, decidem ficar juntos, mas o casamento enfrenta problemas de legitimidade uma vez que o divórcio era ilegal em Itália. Consequentemente, em 1962, são acusados de bigamia e vivem exilados em França durante vários anos. Só conseguem regularizar a sua situação matrimonial em 1966. Entre uma coisa e outra, Sophia foi demonizada pela imprensa italiana, mas nunca respondeu aos ataques. Tiveram dois filhos muito desejados, depois de a actriz ter sofrido dois abortos espontâneos, e o casamento durou até à morte de Ponti, em 2007, prova de que não foi fruto de um impulso leviano e passional.

Sophia Loren e Marcello Mastroianni em "Matrimónio à Italiana", Roma, 1964. Foto: Taschen

Apesar da aura de deusa soalheira, senhora de uma beleza exótica e exuberante, Sophia não deixa de corresponder ao estereótipo da mulher italiana: calorosa nas suas afeições, muito terra-a-terra, e que diz o que pensa sem papas na língua. No seu livro de memórias A Soma dos Dias, a escritora argentina Isabel Allende conta que, quando conheceu Sophia Loren, ficou tão maravilhada com a beleza e a jovialidade da actriz (Allende é oito anos mais nova que Loren) que lhe perguntou qual era o seu segredo. Sophia deu uma resposta lapidar: “Postura. Ando sempre com as costas direitas e não faço sons de velha.” Por outro lado, quem poderá esquecer a explosão de alegria com que a actriz entregou a Roberto Benigni o Óscar para melhor filme estrangeiro, com o filme La Vita è Bella, em 1999?

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Sophia Loren em fotografias inéditas de Alfred Eisenstaedt Foto: Taschen

Estas e muitas mais facetas de Sophia Loren foram magistralmente captadas pela objectiva de Eisie, considerado pai do fotojornalismo, e que foi soldado do exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial. A sua carreira como fotógrafo freelance começou no final da década de 20 e, em 1935, já com a ascensão do nazismo à vista de todos, mudou-se para os Estados Unidos e integrou a revista LIFE em 1936, onde trabalhou durante mais de 50 anos, fotografando 80 capas e realizando cerca de 2.500 reportagens. É dele uma das fotografias mais famosas do mundo: o marinheiro que beija apaixonadamente uma jovem na Times Square durante as celebrações da vitória sobre o Japão, em 1945.

Para além de quase duas centenas de fotografias, Sophia by Eisenstaedt conta também com um ensaio do comentador cultural italiano Stephen Gundle, e legendas do historiador de Hollywood Justin Humphreys. O livro entrou à venda ontem, dia 13 de Janeiro, e está disponível em três versões, todas elas limitadas e numeradas: a mais simples ; as outras duas vêm acompanhada de uma de duas fotografias à escolha – uma está focada no rosto da actriz, enquanto a outra mostra Loren de fato banho e lenço na cabeça, a bordo de uma lancha com uma vista de cidade ao fundo – em cujo caso não apenas o livro vem autografado, mas também a fotografia seleccionada. O pack de livro e foto custa 1.750 euros. 

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Livro com fotos raras de Sophia Loren por Alfred Eisenstaedt (1961-1979) Foto: Taschen

Quem conhece sabe que as edições de coleccionador da Taschen – principalmente as autografadas – esgotam com grande rapidez, portanto se a rainha do cinema italiano faz as suas delícias, não perca tempo.

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