Conversas

Slow J: “com ou sem editora, é sempre a música que vai à frente e que abre caminho”

Conversámos com João Baptista Coelho, o artista que dá pelo nome de Slow J, sobre o seu novo disco: ‘You Are Forgiven’, que apresenta no Super Bock em Stock este sábado, 23. Um disco repleto de camadas, representa - em última instância - a busca pela sua própria essência.

Foto: Filipe Feio (Fiti)
20 de novembro de 2019 | Rita Silva Avelar

Inquieto, criativo, translúcido. É assim que nos soa - em discurso direto - João Baptista Coelho, o verdadeiro nome do compositor e rapper Slow J, natural de Setúbal. Características muito idênticas, diríamos, ao tom que marca o seu segundo disco, You Are Forgiven, revelado em setembro passado, após um período de radio silence (à excepção de Teu Eternamente, o single que lançou no início do ano). Cruas e transparentes, esperançosas e intensas, assim são as composições de You Are Forgiven. Em 2015, anuncia ao mundo com o EP The Free Food Tape, seguindo-se um primeiro disco - The Art of Slow Living - lançado na primavera de 2017. Além de ser um disco maduro, diríamos ainda que é, em última instância, a junção poética entre uma natureza inquieta e uma nova maturidade alcançada pelo artista aos 27 anos. Além de ser um disco digital, You Are Forgiven conta com duas participações vocais, de Sara Tavares e de Papillon, além de ter tido a visão de vários amigos do artista. A 23 de novembro, Slow J é um dos nomes mais esperados no alinhamento do festival Super Bock Super Stock. Antes, conversou com a MUST sobre as suas origens, a experiência da paternidade, as suas aspirações, e todo o processo por detrás deste novo disco.

Regresso à sua infância e adolescência, em Setúbal. Em que momento entra a música na sua vida? E quem eram as suas referências musicais?

Eu tive a minha primeira banda por volta do sétimo ou oitavo ano. Tive a minha primeira guitarra nessa altura e foi assim que eu comecei a aprender, e mais tarde a ver umas bandas. Tocava todos os dias em casa, mas também ia ter com amigos meus a um estúdio onde um deles tinha aulas de guitarra, e acabávamos por ensaiar lá.

Não há ninguém ligado à música na sua família?

Tinha uma tia, a Lola, que trabalhava na secção de cultura da câmara de Palmela, e era uma pessoa muito ligada às artes mas de resto não havia músicos, nem os meus pais tocavam ou ouviam música em casa.

Construiu as próprias referências, foi assim?

Sim, sem dúvida. Tinha primos mais velhos que já ouviam música.

Em que altura compreendeu que este podia ser o seu caminho profissional? Foi para Londres estudar Engenharia do Som…

O meu plano era tornar-me engenheiro informático e aprender a programar. Era o que eu queria fazer quando era mais novo. Mas ao longo do tempo fui tendo bandas… e quando cheguei ao fim do 12º ano já estava convencido que queria ir estudar música simplesmente porque era a coisa que mais me interessava e pela qual tinha mesmo paixão. Não consigo dizer que nessa altura acreditava realmente que ia conseguir fazer uma profissão disso, nessa altura. Foi uma consequência do trabalho que eu fui fazendo, mas por gosto.

Em que momento entra a descoberta da sua voz e a composição?

Eu já lia muito e escrevia muito desde miúdo. Acho que todas as pessoas têm a sua timidez com a sua voz, aliás eu não era uma pessoa que cantasse e as pessoas não me conheciam por cantar. Mas cheguei a um certo ponto, como produtor, que tinha tudo o que era necessário para me gravar. No meu quarto. A partir daí, quando regressei de Londres, comecei a tentar fazer contactos e trabalhos de produção. Como qualquer produtor novo, as pessoas não confiavam muito em mim, não sabiam muito bem o que é que eu queria fazer com aqueles beats "esquisitos". Acabei por perceber que se não fosse eu, teria de ficar à espera das [outras] pessoas. Era uma coisa que eu já queria há algum tempo.  

Houve um grande radio silence antes do disco, só "meio" anunciado com o single Teu Eternamente

Quando lancei o meu primeiro álbum senti que tinha muitos singles já lançados, não gostei muito de dar essa sensação às pessoas. Queria que este fosse novo, na íntegra. Por vias das forças e pelas situações que aconteceram na minha vida – tive um filho, entretanto – estava a dar muitos concertos durante o ano passado e estava a chegar a um ponto de exaustão emocional. É algo que retira muita energia e senti que era importante resguardar-me um pouco, fazer as coisas com calma. Poder apresentar um disco completamente novo, sem pensar se as músicas resultavam melhor em concerto A ou B, e deixando-as vir mais da minha vontade de expressão. Como quando estava só em casa a fazer música. 

As suas composições falam sobre sonhos e aspirações, mas também sobre responsabilidades e mudanças. Acaba por ser uma narrativa sobre metamorfose e crescimento. É um disco autobiográfico?

Completamente. Tudo o que eu fiz até agora foi integralmente autobiográfico mas eu deparei-me, no processo, com o facto de que seja o que for que façamos, imbuir a nossa experiência é muito importante. E acima de tudo compreender o quanto interessante ela pode ser mesmo que a nós nos pareça completamente corriqueira e normal. A nossa vida. Tirando os concertos e tudo o que se liga à música, eu tenho os problemas normalíssimos de uma pessoa da minha idade, na fase da vida em que eu estou. Uma das dificuldades que tive que ultrapassar para fazer o álbum foi perceber que não queria cantar sobre ter o carro x ou y ou ter uma vida inacreditável, mas sim demonstrar o quão inacreditável pode ser uma vida completamente normal.

Há a sensação que Também sonhar, com Sara Tavares, é sobre uma geração que carrega em si sonhos por concretizar. A inspiração não foi essa?

Eu acho que a minha geração pensa mais sobre isso e verbaliza mais isso. Acho que a geração dos meus pais se calhar nunca chegou a pensar sobre isso, mas esses sonhos estavam lá e ficaram por realizar na mesma. Na minha vida, neste momento, tenho estado a lutar por não deixar os meus objetivos mirrar. Sendo que a cada patamar de sucesso que se atinge, há também uma segurança que se atinge, mas que vai ter que, de alguma forma, ser posta em risco para chegar ao próximo patamar. É preciso continuar atrás dos sonhos. Há um pouco esse desequilíbrio, porque há coisas que eu não posso arriscar (o meu filho tem que ter um tecto, tem que ter comida) mas que ao mesmo tempo não posso parar. Parece que estou a fazer coach da minha letra (risos). Tenho que continuar a lutar por mais e melhor e por abrir portas a todos os músicos que vêm depois de mim.

João Baptista Coelho é o verdadeiro nome do compositor e rapper Slow J, natural de Setúbal.
João Baptista Coelho é o verdadeiro nome do compositor e rapper Slow J, natural de Setúbal. Foto: Filipe Feio (Fiti)

Ainda sobre o disco, está repleto de colaborações, seja de que maneira for (nomes como Sara Tavares ou Papillon são apenas exemplos). Sentes que se tornou num disco ainda mais rico por ser coletivo?

Sem dúvida. É uma das coisas que estou a tentar comunicar mais e a conseguir comunicar menos. O trabalho de equipa foi essencial. O Fumaxa esteve lá comigo todos os dias do álbum, do início ao fim, desde a altura em que não fazíamos ideia do que queríamos fazer até aos momentos em que duvidava se queria fazer um álbum ou se devia estar quieto. Tornou o trabalho totalmente diferente. A qualidade do produto pode ser multiplicada nessa capacidade em colaborar com mais pessoas. Eu só tenho as mesmas 24h que as outras pessoas, e aí há um tecto. Se eu não for capaz de trabalhar com outras pessoas, compreender outras perspectivas e estar aberto a elas, controlando menos o meu processo, alcanço algo mais.

É uma geração que contraria a que estava de costas voltadas... O que ainda não acontece em pleno. Concorda?

Há muito menos distância, e sinto que vivemos num país muito pequeno. Sinto que conseguimos chegar a Portugal inteiro sozinhos. E acho que quando olhamos para mercados maiores, essa questão põe-se muito menos porque as pessoas sentem-se muito mais pequenas dentro das possibilidades a que podem chegar. Nós, aqui, sofremos um pouco por estarmos num copo mais pequeno, ou por termos medo de ir lá para fora, e isso faz com que as pessoas sintam que não precisam assim tanto umas das outras… e eu sinto que estou a tentar inverter essa tendência.

Porquê You Are Forgiven, e o que quer dizer com a capa do disco, uma impressão digital?

O You Are Forgiven vem da minha infância e da minha relação com o conceito de culpa – porque foi sempre uma coisa muito presente na minha vida desde que eu era pequeno, e também uma coisa da qual eu me tenho tentado libertar cada vez mais. A capa é é uma impressão digital e ao mesmo tempo um labirinto. Representa o facto de cada um ter o seu próprio caminho. Ou seja, por mais que eu possa saudar alguém por estar em determinada profissão, para a pessoa isso pode ser uma vitória ou uma derrota, porque só a pessoa é que conhece o seu caminho, os seus sonhos e esse mapa que existe dentro da sua identidade. Comigo é exactamente igual. Eu podia ser felicitado por dar 40 concertos por ano e eu estar completamente triste porque não era aquilo que eu queria estar a fazer. A capa representa muito isso: cada caminho individual é um caminho, e é dessa pessoa, e só essa pessoa pode compreender como navegar a vida para chegar onde quer chegar no fim. E sentir que atingiu aquilo que queria atingir ou teve o impacto no mundo que queria ter (…). É na distinção que um músico consegue sair do "ruído" e chegar às pessoas. Está tudo nas nossas mãos.

You Are Forgiven é o título do novo disco do Slow J.
You Are Forgiven é o título do novo disco do Slow J. Foto: Filipe Feio (Fiti)

O que é que é mais desafiante na industria musical portuguesa? É possível viver da música, sabemos, mas com que sacrifício?

Eu não vejo grandes adversidades, pessoalmente. Claramente há mais "ruído" (mais pessoas a fazerem mais coisas). Mas se pensarmos que há 20 anos o objetivo de um músico era gravar uma demo para poder apresentar a editoras e elas lhe financiarem um álbum, hoje em dia isso não existe. Eu tenho um portátil onde consigo fazer um álbum inteiro, pôr no Spotify e ganhar dinheiro com isso. Se quiser fazer marketing consigo fazê-lo pela internet, não preciso de ir colar cartazes. Há uma data de vantagens, neste momento, que me fazem não sentir essas adversidades. Além disso, antigamente ter que se passar por uma editora para chegar ao público fazia com que a editora fosse o filtro e neste momento não há um filtro. Há um artista e há o público. Sempre que um artista tiver uma oferta de valor, interessante, diferente e honesta o público vai responder a isso, automaticamente. Os músicos, hoje em dia, devem começar pela música e pelo desenvolvimento deles próprios enquanto artistas. Com ou sem editora, é sempre a música vai à frente e que abre o caminho.

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